Pular para o conteúdo

Jogadores iranianos enfrentam pressão durante protestos no país

Mehdi Taremi, principal ídolo local, e outros atletas demonstram solidariedade em meio à repressão de regime dos aiatolás

O atacante Mehdi Taremi é um dos jogadores que reclamam da repressão aos protestos no Irã - Divulgação/Olympiacos

O atacante Mehdi Taremi é um dos jogadores que reclamam da repressão aos protestos no Irã - Divulgação/Olympiacos

Jogadores de futebol do Irã têm se manifestado diante da atual onda de protestos que assola o país, marcada por repressão, restrições de comunicação e corte de internet.

Para atletas que atuam no exterior, como o atacante Mehdi Taremi, do Olympiacos, da Grécia, com passagens por Porto e Inter de Milão, demonstrar solidariedade pode trazer riscos, incluindo ameaças e possibilidade de detenção.

No último sábado (9), Taremi marcou seu oitavo gol na temporada pelo Olympiakos, na vitória por 2 a 0 sobre o Atromitos, pelo Campeonato Grego. O atacante, de 33 anos, no entanto, optou por não comemorar.

“Na verdade, isso tem a ver com as condições no meu país. Há problemas entre o povo e o governo. O povo está sempre conosco, e é por isso que estamos com eles. Não pude comemorar em solidariedade ao povo iraniano”, contou Taremi.

“Sei que os torcedores do Olympiakos gostariam que eu ficasse feliz, mas não comemoro os gols em solidariedade ao que o povo iraniano está passando”, justificou.

Taremi chegou a ser alvo de interesse do Botafogo na última janela de transferências, em julho. A negociação, porém, não avançou.

Contexto

Os protestos no Irã tiveram origem na inflação elevada e na desvalorização do rial iraniano, a moeda local. O governo respondeu com repressão, mortes e bloqueio da internet, dificultando a comunicação interna e externa.

De acordo com a ONG Direitos Humanos no Irã (HR, na sigla em inglês), baseada na Noruega, o número de mortos nos protestos já superou 3.400 pessoas. Para familiares e amigos fora do país, o cenário gera preocupação.

O futebol, esporte mais popular do Irã, já foi palco de manifestações políticas. Em 2010, jogadores usaram braçadeiras verdes em apoio ao líder da oposição Mir Hossein Mousavi. Em outras ocasiões, autoridades políticas buscaram associar o sucesso esportivo ao regime.

Histórico

Falar abertamente tem consequências. Ali Daei, ídolo do futebol local, apoiou protestos em 2022 e viu sua família ser impedida de deixar o país.

Durante a Copa do Mundo do Catar 2022, que coincidiu com protestos no Irã pela morte de Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos presa por supostamente usar o hijab de forma inadequada, Voria Ghafouri, ex-lateral-direito da seleção nacional, acabou sendo detido no país.

Segundo a agência de notícias Fars, o motivo da prisão havia sido “espalhar propaganda contra o Irã”. A Fars, que se apresenta como um órgão de imprensa independente, possui ligações com a Guarda Revolucionária do Irã.

Na semana passada, o ex-capitão do Esteghlal, um dos times mais populares no país, anunciou o fechamento de seus cafés em Teerã em solidariedade aos manifestantes.

Atitude

Taremi, maior ídolo do futebol iraniano atualmente, que antes era visto como próximo ao regime, tem adotado uma postura crítica. O jogador já questionou as condições do Estádio Azadi, maior arena do país, com capacidade para 78 mil torcedores, e a limitação de público em jogos.

Na Copa do Mundo de 2022, liderou a seleção que não cantou o hino nacional contra a Inglaterra, gesto repetido recentemente pela equipe sub-23 na Copa Asiática. Em sua estreia no Catar, os ingleses venceram por 6 a 2. Taremi marcou os dois gols do Irã.

O português Carlos Queiroz, técnico da seleção iraniana, também se posicionou. Em 2022, reclamou da insistência da imprensa ocidental em abordar os protestos.

No último domingo (11), ele publicou, em sua conta no Instagram, uma mensagem em farsi acompanhada de um verso do poeta iraniano Ahmad Shamlou: “Liberdade é respirar um ar onde não há mentira”.

“Passei muitos anos entre o povo iraniano – jogadores, equipe técnica, famílias, amigos – e conheço sua dignidade, seu calor humano e sua resiliência. Meu coração e meus pensamentos estão com o povo do Irã nestes dias difíceis, mas também desafiadores, de esperança. Estou profundamente preocupado com a segurança e o bem-estar de todos”, escreveu o treinador.