O ucraniano Vladylsav Heraskevych foi impedido de competir no skeleton nos Jogos de Inverno de Milão-Cortina 2026 após insistir em utilizar um capacete com imagens de atletas de seu país mortos durante a Guerra da Ucrânia.
O Comitê Olímpico Internacional (COI) considerou que o equipamento violava a Regra 50.2 da Carta Olímpica, que proíbe manifestações políticas em áreas oficiais dos Jogos.
Contraditoriamente, sob a mesma regra, o próprio COI havia deixado de punir outras manifestações ocorridas nos Jogos de Verão de Tóquio 2020 e Paris 2024. Na ocasião, foi permitida manifestações antes das provas, mas o veto foi mantido em pódios e cerimônias.
Tóquio 2020
Episódios com atletas, porém, esgarçaram a corda de proibições. A norte-americana Raven Saunders, que conquistou a medalha de prata em Tóquio, ergueu os braços em forma de xis no pódio do arremesso do peso, gesto que simbolizava “o cruzamento onde todas as pessoas oprimidas se encontram”.
Na ocasião, o COI não aplicou punição, alegando respeito às circunstâncias pessoais da atleta.
Outro caso ocorreu com as chinesas Bao Shanju e Zhong Tianshi, medalha de ouro, que usaram broches de Mao Tse-Tung na cerimônia de pódio da prova de velocidade do ciclismo de pista. O COI recebeu explicações do Comitê Olímpico Chinês e encerrou o processo sem sanções.
Paris 2024
Em Paris 2024, a grande polêmica envolveu a brasileira Rayssa Leal, que fez uma manifestação religiosa ao conquistar a medalha de bronze no skate street. Usando a Língua Brasileira de Sinais (Libras), a skatista declarou: “Jesus é o caminho, a verdade e a vida”.
A mensagem viralizou nas redes sociais e abriu debate sobre possíveis punições, já que manifestações religiosas também estão incluídas na lista de restrições olímpicas. O COI, porém, decidiu não punir a atleta.
Milão-Cortina 2026
Com Heraskevych, o COI ofereceu a alternativa de o atleta usar uma braçadeira preta na competição, em sinal de luto. Outra possibilidade seria exibir o capacete fora da competição, na zona mista, momento em que os atletas concedem entrevistas à imprensa.
Diante da recusa do ucraniano, houve reunião entre representantes da Federação Internacional de Bobsled e Skeleton (IBSF) e a delegação ucraniana. O COI, decidiu, então, retirar a credencial de Heraskevych, que foi impedido de competir.
Encontro
Kirsty Coventry, primeira mulher e africana presidente do COI, teve reunião com o atleta após sua punição. A dirigente, que assumiu no ano passado, afirmou que o clima foi respeitoso e pediu para que a credencial de Heraskevych fosse devolvida.
“Ninguém discorda da mensagem. É uma mensagem poderosa de lembrança”, ponderou Kirsty.
“Não se trata da mensagem em si; trata-se literalmente das regras e regulamentos. Temos que garantir um ambiente seguro para todos. Infelizmente, isso significa que não é permitido enviar mensagens no campo de jogo”, acrescentou.
Em suas redes sociais, Heraskevych postou foto com o polêmico capacete e a mensagem: “Este é o seu caso. Este é o preço da nossa dignidade.”
México 1968
No passado, o COI já se caracterizou em reprimir protestos políticos de maneira exemplar. O caso mais controverso aconteceu nos Jogos da Cidade do México 1968. Na ocasião, Tommie Smith e John Carlos, medalha de ouro e bronze nos 200 m, levantaram o punho, munidos de luvas negras, durante a execução do hino dos EUA.
O gesto era uma referência aos Panteras Negras, grupo que lutava contra o racismo em seu país. É uma das imagens mais poderosas da história olímpica. Smith e Carlos foram banidos dos Jogos e desligados da delegação norte-americana.
Ao punir um atleta que protestava contra os absurdos da guerra, condenada pelo próprio COI ao afastar a Rússia do Movimento Olímpico, o comitê internacional se aproxima muito mais do clima repressor dos anos 1960, do que do hiato de liberalidade que viveu nas duas últimas edições dos Jogos de Verão.
