A decisão da Fifa de pagar cerca de US$ 4 milhões para quitar uma dívida tributária pessoal de seu presidente, Gianni Infantino, nos Estados Unidos ampliou o debate sobre governança na entidade.
A informação foi divulgada pelo The New York Times e, segundo o jornal norte-americano, o pagamento não foi informado aos membros da organização nem divulgado em seu relatório anual.
Polêmica
O caso surge em um momento de desgaste político para Infantino, que recentemente enfrentou resistência de confederações continentais após defender um projeto ligado à comercialização dos direitos de jogadores em Copas do Mundo.
De acordo com a publicação, Infantino recebe salário anual estimado em US$ 6 milhões, além de benefícios que incluem moradia e uso de aeronave disponibilizada à Fifa pela Qatar Airways.
O dirigente vive em Miami desde a Copa do Mundo do Catar 2022. A entidade também teria arcado com despesas relacionadas à sua residência nos Estados Unidos.
Em resposta ao New York Times, a Fifa afirmou que “todos os regulamentos e processos internos da Fifa, bem como todas as leis aplicáveis, foram seguidos”. A entidade acrescentou que “A Fifa garante que todos os requisitos de relatórios e tributação sejam cumpridos.”
O pagamento do imposto foi aprovado pelo subcomitê de remuneração da Fifa após discussão liderada por Bruno Chiomento, presidente do órgão responsável por definir a remuneração de Infantino.
Segundo o jornal nova-iorquino, a justificativa apresentada foi compensar o aumento da carga tributária do dirigente após sua mudança de Doha para Miami.
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Questionamento
A situação também provocou críticas da Uefa a respeito da atuação de Chiomento. Em carta enviada à Fifa, a confederação europeia questionou possíveis conflitos de interesse envolvendo o dirigente suíço.
“Entendemos que o Sr. Chiomento conhece o presidente da Fifa há aproximadamente 20 anos e é regularmente convidado para eventos e competições da Fifa, com as despesas pagas pela entidade. Entendemos ainda que ele participou de toda a Copa do Mundo de 2026 como pessoa credenciada, com suas despesas cobertas pela Fifapor mais de cinco semanas”, listou a Uefa.
“A Fifa poderia confirmar essas circunstâncias e explicar como quaisquer potenciais conflitos de interesse foram avaliados e tratados? Considerando a importância de garantir a independência e a imparcialidade percebida do processo eleitoral, a Fifa consideraria o afastamento do Sr. Chiomento e sua substituição por seu vice durante o período da eleição presidencial?”, perguntou a a entidade que comanda o futebol europeu.
Segundo a reportagem, o pagamento dos impostos faz parte de um conjunto mais amplo de gastos e benefícios concedidos durante a gestão de Infantino, tema que vem sendo alvo de críticas dentro da estrutura política da Fifa.
Documentos

Paralelamente à controvérsia envolvendo os gastos da entidade, a Fifa informou que permitirá aos integrantes de seu Conselho o acesso a documentos relacionados ao projeto de venda de direitos comerciais da Copa do Mundo.
A medida foi anunciada por Mattias Grafström, secretário-geral da entidade, após meses de questionamentos de membros do Conselho e de confederações continentais sobre a iniciativa.
“A Fifa disponibilizará os principais documentos relativos à proposta da FFE para revisão a todos os membros do Conselho da Fifa, caso desejem fazê-lo”, relatou Grafström, em carta enviada aos dirigentes.
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Transparência
O acesso, porém, vai ocorrer sob restrições. Os documentos ficarão disponíveis apenas na sede da Fifa, em Zurique, e os conselheiros interessados deverão se inscrever até 16 de novembro.
Além disso, terão de assinar acordos de confidencialidade e não poderão utilizar telefones durante a consulta.
“Os documentos estarão disponíveis na sede da Fifa em Zurique, sob rigorosos protocolos de revisão para preservar a confidencialidade”, escreveu Grafström.
Ainda não foi informado quais documentos serão efetivamente disponibilizados aos membros do Conselho.
Pressão
O debate sobre a chamada Fifa Forward Enterprise (FFE) se intensificou após o fracasso da proposta defendida por Infantino para ampliar a exploração comercial vinculada aos direitos comerciais de torneios da entidade.
Uefa, Confederação Asiática de Futebol (AFC) e Concacaf se posicionaram contra a iniciativa. A entidade europeia chegou a ameaçar boicotar a competição, enquanto ingressou com ações judiciais em tribunais dos Estados Unidos relacionadas à FFE.
No mês passado, a Uefa encaminhou uma lista com 42 perguntas sobre a FFE e outros temas de governança corporativa. Segundo o relato, as questões não foram respondidas durante reunião recente do Conselho da Fifa.
“A solicitação contém muito mais perguntas do que a administração da Fifa poderia razoavelmente ter previsto quando o presidente da Fifa convidou os membros do Conselho da Fifa, na reunião do Conselho de 15 de outubro, a apresentarem perguntas por escrito. A Fifa está atualmente trabalhando em uma resposta à carta, que compartilharemos com todos os membros do Conselho da Fifa oportunamente”, respondeu Grafström, sem se preocupar com a redundância de repetir tanto o nome da entidade.
O tema deverá permanecer na pauta da federação nas próximas semanas. A próxima reunião do Conselho está marcada para 16 de dezembro, em Doha, no Catar, enquanto o processo eleitoral da entidade segue em curso antes do congresso anual que elegerá o próximo mandatário, em Rabat, no Marrocos.
