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Luis Ferrari, especial para a Máquina do Esporte

Luis Ferrari

4 min de leitura

Análise

Boxe no box da Nascar

Maior categoria de turismo do esporte a motor do mundo sabe criar "vilões e mocinhos" para gerar engajamento

Luis Ferrari, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

22/09/2026 06h40

Carson Hocevar acerta soco em Ryan Blaney após corrida da Nascar em Bristol - Reprodução

⚡ Máquina Fast
  • Conflito entre Ryan Blaney e Carson Hocevar após a corrida da Nascar em Bristol viralizou nas redes devido à briga física entre os pilotos.
  • A Nascar mantém tradição de confrontos agressivos entre pilotos, sem aplicar punições, valorizando a paixão e o espetáculo na competição.
  • A corrida foi vencida por Joey Logano, enquanto o episódio de briga chamou mais atenção e reforçou a cultura única da Nascar comparada a outras categorias de automobilismo.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

A imagem do esporte a motor no último fim de semana não foi de uma ultrapassagem mirabolante nem mesmo de uma bandeirada. O que viralizou foi o entrevero de sábado (19) a noite entre Ryan Blaney e Carson Hocevar, depois do fim da prova da Nascar Cup Series no oval de Bristol.

Na pista, Hocevar mandou o carro de Blaney para o muro sem cerimônia. Blaney logo deu uma entrevista falando que cobraria o piloto do carro #77 depois da prova pelo lance. Acabou a corrida. Blaney foi tirar satisfação puxando o concorrente pelo colarinho. Recebeu, então, dois diretos de direita que chacoalharam seu farto bigode, e acabou no chão depois da intervenção da turma do “deixa disso”.

Não era WWE nem aqueles eventos de “luta livre” encenada imortalizados nos EUA por personagens como Hulk Hoogan e André, o Gigante, e, no Brasil, pelos “Gigantes do Ringue”, como Michel Serdan e Aquiles, o Matador.

Estamos falando da maior categoria de turismo do esporte a motor do mundo. Apenas em sua primeira divisão, a Cup, a Nascar manda para a pista, em 36 finais de semana na temporada, quase 40 carros por etapa. O custo para disputar uma temporada completa na Cup parte de US$ 18 milhões, e uma marca precisa desembolsar algo como US$ 12 milhões para ser patrocinadora principal de um carro no ano todo.

Mas a lógica da WWE ou do Gigantes do Ringue se aplica.

Assim como no hóquei no gelo, a Nascar se notabilizou ao longo de sua longa história por comportamentos um tanto rudes de seus protagonistas, inclusive inúmeros episódios de “boxe no box” como o da última noite de sábado.

Aliás, a propósito, cabe ressaltar que a pista de Bristol, cujo apelido é “The Last Great Colosseum” (“O Último Grande Coliseu”, em tradução livre), por seu formato de arena monumental com arquibancadas para mais de 140 mil pessoas cercando toda a pista de meia milha (800 metros), é pródiga em proporcionar contato entre os pilotos, dentro e também fora de seus carros.

Não por acaso, logo depois das cenas de pugilismo, em entrevista ao vivo para comentar o episódio, Hocevar apresentou sua versão sobre a manobra e finalizou com “they got an old school Bristol show here” (“eles fizeram um show à moda antiga aqui em Bristol”). O vídeo da altercação logo viralizou no perfil da categoria e até a esposa de Blaney “involuntariamente” contribuiu colocando mais etanol na fogueira digital ao chamar o adversário de criminoso.

Nesta segunda-feira (21), a categoria esclareceu que nenhum dos dois receberá punição. Steve O’Donnell, CEO da Nascar, foi ao podcast do ex-piloto Kevin Harvick e frisou que os comissários apontaram que os pilotos precisam tratar de seus assuntos fora dos carros.

“Se os pilotos vão tratar dos seus assuntos, assim como observamos e como se desenrolou, não vamos encorajar brigas, mas vamos encorajar paixão, certo? E aqueles dois caras, Blaney mostrando sua paixão, seu fogo… Então não há nada vindo do nosso lado [em termos de penalizações]. Obviamente vamos observar o que acontece no resto do caminho, mas nada em termos de penalidades pós corrida”, enfatizou o executivo.

Não por acaso, até a noite desta segunda-feira (21), a principal reportagem no site oficial da Nascar tinha como título “Old School Duel” (“Duelo à moda antiga”) e era ilustrada com uma foto dos dois carros lado a lado.

É uma abordagem bastante singular no comparativo com outras categorias do esporte a motor pelo mundo e um tanto surreal no contexto do automobilismo brasileiro, que bebe na fonte da tradição europeia asséptica.

Mas não custa lembrar que essa abordagem estilo “telecatch” e a incorporação pelos pilotos de personagens como vilões e mocinhos, com o respaldo de seus patrocinadores, gera engajamento, retorno e alimenta uma tradição de mais de 70 anos iniciada no limiar da ilegalidade.

Sim, a Nascar surgiu com protagonistas que envenenavam suas máquinas para fugir da polícia contrabandeando uísque caseiro e celebra essa origem até hoje.

Ah, para terminar, só mais um detalhe que talvez possa ter passado despercebido: a corrida foi vencida por Joey Logano.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Luis Ferrari é sócio-fundador da Ferrari Promo, agência-boutique com ênfase no mercado do esporte a motor, e possui formações em Jornalismo e Direito, extensão universitária em Marketing e pós-graduação em Jornalismo Literário, além de ser empresário de relações públicas

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