Opinião: Sucesso do combate Popó x Whindersson gera dilema ao boxe profissional

Até os anos 1980, o boxe profissional era uma modalidade desejada. As lutas de Mike Tyson passavam de madrugada no Brasil, e o público ficava acordado até tarde para assistir ao pugilista, no auge da forma, demolir seus adversários.

O boxe ainda viveu alguns momentos de brilho com os duelos entre Evander Holyfield e Lennox Lewis, pelo cinturão dos pesados, nos anos 1990. Desde então, só chamou a atenção do torcedor de maneira esporádica até viver o ostracismo com a ascensão do MMA e os eventos midiáticos do UFC.

No Brasil, o boxe voltou a despertar interesse de uma forma inusitada: o combate entre o ex-campeão mundial Acelino Popó Freitas, já aposentado dos ringues, e o youtuber Whindersson Nunes, fenômeno das redes sociais, mas que nunca foi pugilista profissional.

Realizado na madrugada de domingo (30), o evento rendeu, segundo Whindersson, R$ 12 milhões aos lutadores. De acordo com a Fights Music Show, detentora dos direitos da luta, foram vendidas 200 mil cotas de pay-per-view. Ao todo, a disputa gerou lucro de R$ 13 milhões.

No ringue, o youtuber resistiu bravamente a oito assaltos contra o ex-campeão mundial dos superpenas e dos leves. Aos 46 anos e com uns quilinhos a mais, Popó obviamente não mantém forma física que o fez massacrar Anatoly Alexandrov, há 23 anos. À ocasião, o baiano nocauteou o russo com apenas 1min41s de luta e conquistou seu primeiro cinturão mundial.

Ainda assim, pegou leve o suficiente para o piauiense resistir em pé ao combate, em caráter de exibição, que não teve vencedores em cima do ringue. Whindersson ainda apelou para seus fãs que passassem a seguir Popó. O ex-pugilista ganhou mais de um milhão de seguidores, quase que de maneira instantânea, na madrugada da luta. Lucro para os dois.

Realidade bem diversa viveu outro pugilista, Robson Conceição. Campeão olímpico no Rio 2016 e agora profissional, o brasileiro enfrentou, no mesmo dia, o americano Xavier Martinez. A vitória por pontos credenciou o lutador a novamente tentar o cinturão dos superpenas do Conselho Mundial de Boxe (CMB), uma das principais entidades da modalidade. Embora fosse um combate muito mais importante, a luta teve pouquíssima repercussão no país.

Curioso como um esporte que viveu tempos de tanto dinheiro e badalação hoje só desperte interesse com eventos para lá de midiáticos, mas com apelo esportivo escasso. É salutar que o boxe volte a ganhar as manchetes. Mas a nobre arte precisa descobrir quando perdeu a capacidade de forjar novos ídolos e atrair torcedores efetivamente pela capacidade atlética dos pugilistas, não por colocar celebridades em cima do ringue.