A Copa do Mundo 2026 ficou marcada por episódios que reforçaram a percepção de que não houve uma igualdade competitiva entre as seleções que disputaram o torneio.
Diversas seleções e torcedores enfrentaram barreiras e limitações impostas pelos Estados Unidos, país-sede, com a conivência da Fifa.
As medidas envolveram restrições de viagem, deportações, revistas constrangedoras e preços elevados de ingressos, ampliando o debate sobre o papel da entidade máxima do futebol de não se manifestar diante de políticas discriminatórias.
Restrições
O atacante Aymen Hussein, principal jogador do Iraque, foi submetido a sete horas de interrogatório ao desembarcar nos EUA e tratado como suspeito de ter ligações com o terrorismo internacional.
Pior para o somali Omar Abdulkadir Artan, considerado o melhor árbitro africano na última temporada, que foi impedido de entrar nos EUA por questões de segurança. O juiz não realizou o sonho de apitar em uma Copa do Mundo.
A equipe do Irã, país que se encontra em guerra com os EUA, foi obrigada fazer base em Tijuana, no México, e a viajar apenas na véspera das partidas. Após os jogos, tinham que deixar imediatamente o país após os jogos. A medida flexibilizada apenas após pressão internacional.
Senegal e Uzbequistão relataram revistas consideradas humilhantes na chegada ao país.
Além disso, mais de 40% dos pedidos de visto de torcedores de países como Gana, República Democrática do Congo, Irã, Jordânia, Cabo Verde, Egito, Argélia e Equador foram rejeitados.
O Egito também enfrentou restrições, sendo impedido de entrar em Seattle após vencer a Nova Zelândia em Vancouver, no Canadá, ainda na fase de grupos. O grupo teve que retornar a Spokane, onde havia feito sua base, antes de seu próximo jogo na competição, justamente contra outro desafeto dos anfitriões, o Irã.
Interferência

Os escândalos de imigração e dificuldades de locomoção não foram os únicos contratempos para a igualdade competitiva nesta Copa do Mundo.
Para as oitavas de final, o presidente dos EUA, Donald Trump, interveio para evitar punição a Balogun, que fora expulso na partida contra a Bósnia e Herzegovina, pela fase de 16 avos de final.
Embora Gianni Infantino, presidente da Fifa, tenha argumentado que a decisão do tribunal da entidade havia sido soberana, o próprio Trump se gabou de ter interferido para a liberação de Balogun, algo inédito em Copas desde que os cartões foram implantados no México 1970. Mesmo com ele em campo, a Bélgica venceu por 4 a 1 e avançou de fase.
Ingressos
Outro ponto de contestação foi o preço abusivo dos ingressos. A final da Copa 2026 se tornou o evento esportivo mais caro da história.
Segundo relatório do site The Athletic, o valor médio de revendas das entradas atingiu a US$ 12.751, superando o recorde anterior de US$ 10.540, no Super Bowl de 2024, entre Kansas City Chiefs e San Francisco 49ers.
Denúncias
Os episódios reforçaram críticas à Fifa por não se posicionar contra medidas que afetaram diretamente a igualdade de acesso ao torneio a atletas, árbitro e torcedores.
Infantino foi alvo de investigações. Parlamentares europeus e a ONG FairSquare solicitaram investigações sobre sua conduta no Caso Balogun, por não promover a igualdade competitiva no torneio.
No último dia 10, 72 eurodeputados enviaram carta aos 27 presidentes das federações da União Europeia (UE) que integram a Fifa. O documento pede apuração sobre a participação de Infantino na decisão de anular a expulsão de Balogun e se houve influência da administração norte-americana.
Outro procedimento contra o dirigente está sendo tocado no Comitê Olímpico Internacional (COI), que recebeu outra denúncia da FairSquare.
A ONG alega violação das regras de neutralidade política, princípio fundamental do COI, após Infantino ter criado o Prêmio Fifa da Paz e dado o troféu a Trump. A iniciativa aconteceu logo o próprio presidente norte-americano ter se candidatado ao Nobel da Paz, sendo ignorado pela fundação que outorga a premiação.
“A FairSquare apresentará uma queixa ao Comitê Olímpico Internacional em relação às repetidas violações das regras de neutralidade política por parte do presidente da Fifa, Gianni Infantino”, anunciou a FairSquare, neste mês.
