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Copa do Mundo Feminina de 2027: Desafio é descentralizar legado

Em um debate sobre o evento no Fórum Sustentabilidade em Campo, gestoras afirmaram que veem necessidade de desenvolvimento em mercados periféricos do país

Carol Paiffer durante debate sobre Copa Feminina 2027 no Fórum Sustentabilidade em Campo - Adalberto Leister Filho / Máquina do Esporte

Carol Paiffer durante debate sobre Copa Feminina 2027 no Fórum Sustentabilidade em Campo - Adalberto Leister Filho / Máquina do Esporte

⚡ Máquina Fast
  • Preparação para a Copa do Mundo Feminina de 2027 busca descentralizar investimentos e benefícios sociais no Brasil, evitando concentração em grandes centros.
  • Falta gestão eficiente e investimento sólido para retenção de atletas e profissionais, apontando a necessidade de enxergar o futebol feminino como um negócio.
  • Investimento na base e capacitação são essenciais para o desenvolvimento sustentável da modalidade, incluindo maior presença feminina na gestão esportiva.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

A preparação para a Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil terá como um de seus desafios buscar a capilaridade dos investimentos e a distribuição de benefícios econômicos e sociais pelo país, não restringindo o legado aos centros mais desenvolvidos, como ocorreu com a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas do Rio de Janeiro 2016.

Segundo estudo elaborado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) sob encomenda da Embratur, o evento deve movimentar R$ 8 bilhões na economia brasileira e gerar mais de 70 mil empregos diretos e indiretos.

“Mas, mais do que isso, eu queria saber lá em 2028, quantas meninas vão estar jogando futebol? Quantos clubes vão ter futebol feminino estruturado desde a base? Quantas marcas vão investir de fato, sem ser via Lei de Incentivo ao Esporte”, pontuou Camila Estefano, cofundadora e vice-presidente do Instituto Brasileiro de Futebol Feminino (IBFF).

As discussões aconteceram durante a mesa “Copa do Mundo Feminina 2027 – Oportunidades para Investimentos, Turismo e Desenvolvimento, construindo um Legado para o Brasil”, dentro do Fórum Sustentabilidade em Campo, realizado no Museu do Futebol, Em São Paulo.

Descentralização

A discussão sobre a distribuição geográfica aponta para a necessidade de superar o modelo de eventos passados, concentrados majoritariamente no eixo Rio-São Paulo e voltados a parcelas privilegiadas da população.

A ex-jogadora e treinadora Dilma Mendes reforçou a importância de expandir as iniciativas para outras regiões, destacando sua trajetória e a urgência de representatividade nordestina.

“Eu sou baiana, nordestina, e a gente precisa estar trazendo esse legado de uma forma regionalizada”, pregou a técnica.

Júlia Barreira, professora de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), corroborou a análise sobre a concentração de benefícios em edições anteriores de megaeventos no Brasil e aponta caminhos para o Mundial Feminino de 2027.

“O que os estudos mostram para a gente é que muitos desses legados foram deixados inclusive para pessoas de classes sociais já privilegiadas e concentrados em São Paulo e no Rio de Janeiro. Então, nesse ponto a gente pode fazer diferente com o futebol feminino”, afirmou a pesquisadora.

Gestão

Mariana Balbão durante debate sobre Copa Feminina 2027 no Fórum Sustentabilidade em Campo - Adalberto Leister Filho / Máquina do Esporte
Mariana Balbão pede gestão para o feminino – Adalberto Leister Filho / Máquina do Esporte

O avanço da modalidade no país esbarra em desafios estruturais relacionados à administração dos clubes e à retenção de atletas diante da disparidade cambial frente a ligas internacionais.

Carol Paiffer, fundadora da Atom e investidora no programa Shark Tank Brasil, apontou que a paixão do torcedor precisa ser convertida em modelos administrativos eficientes para evitar a evasão de profissionais.

“A gente precisa, de fato, ter uma gestão mais eficiente. Precisa ter patrocinadora, investimento para que possa ter os talentos sendo retidos”, avaliou.

A evasão de jogadoras para mercados que pagam em dólar e euro representa um obstáculo para a competitividade interna e para a estabilidade das equipes nacionais.

Mariana Balbão, CEO e fundadora da Women’s Soccer Academy (WSA), ressaltou a necessidade de enxergar a modalidade sob uma ótica empresarial.

“Falta a gente olhar o futebol feminino como um negócio. Pensar o que o futebol feminino vai trazer de retorno ativo, o que a gente vai fazer para aquele dinheiro realmente valer a pena, porque as marcas querem algum retorno. Não basta falar que vai só aparecer, mas como a gente vai furar essa bolha”, apontou.

A ausência de calendários regulares e estruturados em âmbito nacional também dificulta a consolidação financeira dos clubes e a profissionalização das atletas.

Sandra Santos, cofundadora e diretora de operações do IBFF, com três décadas de atuação no futebol feminino, destacou a evolução da prática e a urgência de fortalecer a governança esportiva para assegurar a longevidade dos projetos esportivos.

“Nós trabalhamos com sonhos e com meninas que chegam com 7 a 10 anos, querendo jogar bola. Meu sonho de legado é que essa menina em 2030, 2040, possa continuar tendo espaços para jogar”, salientou.

Patrocínio

Camila Estéfano durante debate sobre Copa Feminina 2027 no Fórum Sustentabilidade em Campo - Adalberto Leister Filho / Máquina do Esporte
Camila Estefano pede mais patrocínios ao feminino – Adalberto Leister Filho / Máquina do Esporte

Hoje, a consolidação financeira do futebol feminino depende do envolvimento corporativo por meio de patrocínios diretos e da aplicação da Lei de Incentivo ao Esporte.

Camila Estefano pontuou que a presença de marcas precisa ir além do aporte financeiro pontual, convertendo-se em recursos voltados ao marketing esportivo.

“Quantas marcas lá em 2028 vão investir com dinheiro de fato, que a gente possa que a gente chama dinheiro bom, dinheiro de marketing?”, questionou.

Carol Paiffer relatou a experiência de pesquisas de consumo realizadas com clubes de massa, demonstrando o retorno mercadológico que o engajamento dos torcedores proporciona aos patrocinadores.

“Acabei de assistir uma final entre Palmeiras e Flamengo [Brasil Ladies Cup], em que vi o estádio de Campinas [Brinco de Ouro] vazio. Fiquei frustrada com essa realidade. Não adianta falar que as marcas precisam apoiar, se a gente não estiver lá para torcer, se não tiver audiência”, enfatizou Carol.

A visibilidade gerada pela Copa do Mundo Feminina de 2027 oferece um ambiente propício para aumento da frequência dos torcedores e para que empresas estabeleçam vínculos de longo prazo com o ecossistema da modalidade.

Base

O desenvolvimento sustentável da modalidade demanda investimentos estruturados desde a infância, abrangendo faixas etárias iniciais e a capacitação de profissionais para cargos de liderança.

Mariana Balbão destacou a importância de atender meninas desde os primeiros anos de formação.

“Duas semanas atrás chegou uma menininha de 5 anos na WSA. Elas estão querendo espaço para jogar”, contou.

A criação de centros de formação e a ampliação de torneios regionais e estaduais são apontadas como medidas essenciais para ampliar a base de praticantes no país.

A capacitação de treinadoras e a inserção de mulheres em instâncias decisórias da gestão esportiva completam a cadeia de transformação estrutural necessária para o futebol feminino.