A Série B do Campeonato Brasileiro poderá entrar em colapso nesta quinta-feira (5), antes mesmo de o torneio começar, no dia 21 de março. A realização do Conselho Técnico da competição, com a participação dos 20 clubes da Segundona, promete gerar bastante questionamento entre os clubes por conta de uma série de acordos comerciais que envolvem diferentes direitos da competição.
O primeiro deles, anunciado na última segunda-feira (2), envolve o acerto de Náutico e São Bernardo com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Os dois clubes recém-promovidos à Segundona venderam para a CBF seus direitos comerciais e de mídia na Série B 2026. A entidade, por sua vez, firmou acordo com a Globo para a transmissão das partidas das duas equipes como mandantes.
A decisão foi tomada pela dupla depois de consultarem a Liga do Futebol Brasileiro (Libra) e o Futebol Forte União (FFU). Ambos os blocos comerciais não ofereceram condições vantajosas, e então Náutico e São Bernardo procuraram a CBF em busca de maior rentabilidade financeira.
Essa assinatura gerou um primeiro “racha” entre os times da Série B, já que a expectativa era de que todos se alinhassem ao FFU, que foi quem comercializou os direitos de mídia e comerciais dos clubes da Segundona em 2025.
Com a dissidência dos dois times, o bloco que negociou os direitos da Série B com o Grupo Disney até 2027 terá uma redução nesse acordo. Isso fará com que menos de R$ 50 milhões sejam pagos pela emissora pela aquisição dos direitos de mídia da Segundona.
Estreantes faturam mais
Essa redução e o acordo firmado em 2024 para que o FFU centralizasse a negociação dos direitos comerciais da Série B fizeram com que os estreantes na Segundona ganhassem mais do que quem está dentro do bloco econômico.
Conforme apuração da Máquina do Esporte, Náutico e São Bernardo receberão, cada um, R$ 14,9 milhões pela cessão dos direitos à CBF. Isso é mais do que o mínimo assegurado aos outros 18 times que têm contrato pelo FFU para ceder seus direitos comerciais na Série B.
A Máquina do Esporte teve acesso ao Memorando de Entendimentos (MOU) assinado em 18 de outubro de 2024 com todos os times que faziam parte da então Liga Forte União (LFU), recém-rebatizada para Futebol Forte União.
O bloco comercial paga um mínimo garantido de R$ 260 milhões anuais para ter os direitos da Série B nos anos de 2025 e 2026. Esse valor, porém, sofre redução com a ausência dos dois times recém-promovidos. Além disso, o total a ser repassado a cada clube não segue uma divisão igualitária. Ou seja, alguns times recebem mais do que os R$ 13 milhões anuais pelos direitos comerciais e de mídia da Segunda Divisão.
O “fator” Fortaleza
A “descoberta” dessa desigualdade na divisão de receitas veio à tona no começo do ano, depois que foi confirmado o rebaixamento do Fortaleza à Série B. No MOU assinado pelos clubes, foi criada uma divisão em três diferentes grupos dos times que fazem parte do FFU quando estão jogando a Série B. E, nela, o valor a ser pago referente à comercialização de placas de publicidade estática está dividido em três blocos distintos de clubes.
Essa disparidade irritou diversos dirigentes. Alguns deles não estavam em seus clubes quando o MOU foi assinado. E, agora, nos bastidores, começa a haver um questionamento sobre a conduta de Marcelo Paz, que era o presidente do FFU e CEO do Fortaleza quando o documento foi assinado.
Segundo apurou a reportagem, o questionamento é sobre, além da disparidade financeira, a inexistência de critérios claros para definir por que os times foram divididos nos grupos A1 (Internacional, Fluminense e Vasco), A2 (Athletico-PR e Fortaleza) e A3 (todos os demais times, com exceção de Botafogo, Corinthians e Cruzeiro, que já tinham acordo com a Brax).
O documento determina que a referência para estipular os valores repassados aos clubes são os times do bloco A3. A partir do que eles recebem, os clubes do bloco A2 recebem 1,71 vez a mais, enquanto os do bloco A1 recebem 2,64 vezes a mais.
Mas, para além disso, o MOU determina uma “proteção” aos clubes dos blocos A1 e A2. Eles mantêm o valor pago para eles na Série A do Brasileirão mesmo em caso de rebaixamento. Assim, Internacional, Fluminense, Vasco, Athletico-PR e Fortaleza não perdem a receita com as placas de publicidade.
“Desde que previsto no contrato de comercialização das Propriedades de Campo, os Clubes Faixa A1 e Clubes Faixa A2 manterão os seus critérios de distribuição estabelecidos nesta cláusula 2.3 ainda que, eventualmente, venham a disputar a Série B em alguma Temporada que seja objeto do contrato de comercialização em referência”, diz o documento.
Como fica em 2026
Aplicando-se essa lógica de remuneração determinada no MOU, a divisão de receitas na Série B em 2026 fará com que o Fortaleza consiga valores muito maiores do que os outros times, o que tem gerado questionamentos tanto dentro do FFU quanto na CBF, principalmente depois de a entidade fechar negócio diretamente com Náutico e São Bernardo.
A Máquina do Esporte teve acesso às propostas enviadas pela Brax a times do bloco A3 e que disputaram a Série B no ano passado. Nelas, a empresa estabelece valores a serem pagos pela comercialização das placas de publicidade.
Essa faixa de times recebe R$ 3,750 milhões pela cessão em 2025 e R$ 4,125 milhões pela temporada de 2026. Já a participação na Série A do Brasileirão renderia R$ 18,669 milhões em 2025 e R$ 19,869 milhões neste ano.
Como o Fortaleza está no grupo A2, receberá o valor referente ao que negociou na Série A de 2025. No caso da equipe cearense, esse montante é de cerca de R$ 25 milhões. Isso fará com que o clube tenha quase seis vezes mais de faturamento com as placas de publicidade que os outros times.
Quem paga a conta?
Outro ponto sensível na reunião na sede da CBF nesta quinta-feira (5) será o pagamento das despesas com arbitragem e deslocamento dos times para viagens. No acordo firmado com Náutico e São Bernardo, está previsto que esses custos, avaliados em cerca de R$ 3 milhões, sejam absorvidos pela entidade.
Segundo apurou a Máquina do Esporte, existe um entendimento dentro da CBF de que os clubes que não têm acordo com a entidade serão responsáveis pelo custeamento dessas despesas.
Essa situação está prevista no MOU assinado pelos clubes. Por ela, do total de R$ 260 milhões de mínimo garantido à Série B, há a previsão de uma destinação de R$ 44 milhões para custear essas despesas. Como dois times não estão sob esse contrato, o valor cairia para perto de R$ 40 milhões, o que reduziria ainda mais os ganhos dos clubes.
“Até o momento, o cenário da Série B é terrível porque já está se falando em uma cota inferior à do ano passado e se atribuir [o pagamento de despesas com] logística aos clubes”, afirmou Hugo Bravo, vice-presidente do Vila Nova, em entrevista à imprensa goiana na última segunda-feira (2).
O dirigente usou o evento para apelar à CBF para arcar com as despesas e permitir que os clubes disputem a competição sem maiores sobressaltos.
“Eu confio muito nessa atual gestão da CBF, pela seriedade e o nível de profissionalismo que estão apresentando, porque, se isso não vier a acontecer, você pode ter certeza de que vai colapsar a competição”, acrescentou Bravo.
Em meio a esse cenário, a CBF tenta se fortalecer como “conciliadora” dos problemas. Ao mesmo tempo, a entidade vai se condicionando como uma alternativa à falta de sucesso comercial das ligas.
“Os clubes têm nos procurado, e nós, obviamente, vamos abraçar os nossos filiados. Nossa ideia é que os clubes estejam alinhados com o nosso projeto de futebol que a CBF está implantando: trazer os clubes para dentro, tentar aumentar o bolo para que haja uma divisão mais justa e para que os clubes possam sair dessa situação financeira difícil que têm enfrentado”, disse Gustavo Dias Henrique, vice-presidente da CBF, ao celebrar o acordo com Náutico e São Bernardo.
