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São Paulo: Júlio Casares ganha sobrevida, com ajuda dos “cardeais” do Conselho Consultivo

Documento assinado pelo ex-presidente José Eduardo Mesquita Pimenta alega que denúncia não trouxe provas materiais contra dirigente

Júlio Casares ao lado do atual presidente do Conselho Consultivo do São Paulo, José Eduardo Mesquita Pimenta - Reprodução / Instagram (juliocasares_sp)

O presidente do São Paulo, Júlio Casares, ganhou sobrevida em sua luta para permanecer no poder até o fim deste ano, quando está previsto o encerramento de seu mandato.

Em reunião realizada nesta terça-feira (6), na capital paulista, o Conselho Consultivo do clube emitiu parecer contrário ao pedido de impeachment apresentado contra o dirigente, no fim de 2025.

O pedido de afastamento é assinado por 57 membros do Conselho Deliberativo do Tricolor e se baseia em denúncias sobre supostas irregularidades financeiras e suspeitas de desvios de recursos na gestão Casares.

Dos 12 “cardeais” tricolores (são assim chamados porque são, em sua maioria, integrantes antigos do clube e já ocuparam a presidência da diretoria ou de algum dos conselhos), nove participaram da reunião: Carlos Augusto de Barros e Silva (o Leco), Carlos Miguel Aidar (que perdeu o mandato por denúncias envolvendo o contrato com a Under Armour), Ives Gandra Martins, José Carlos Ferreira Alves, o próprio Júlio Casares, Marcelo Abranches Pupo Barboza, Olten Ayres de Abreu Junior (presidente do Conselho Deliberativo) e Paulo Amaral Vasconcelos, além do presidente do Conselho Consultivo, José Eduardo Mesquita Pimenta.

O ex-presidente Fernando Casal de Rey, Milton José Neves e o jornalista Paulo Planet Buarque não estiveram presentes.

Dos nove que votaram, apenas José Carlos Ferreira Alves foi a favor do impeachment, por considerar que existem provas para a destituição do mandatário.

No documento assinado por Mesquita Pimenta, porém, o colegiado entende que, “do ponto de vista estritamente jurídico, não há elementos de prova material para justificar o parecer favorável ao impeachment presidencial”.

Questão é política, não jurídica

O documento assinado por Mesquita Pimenta traz um trecho curioso. O segundo tópico do texto cita um conceito legal abordado por Ives Gandra Martins, secretário-geral do Conselho Consultivo, acerca dos processos de impeachment.

O jurista observou, em um livro publicado em 1992, que a destituição de um mandatário tem uma base jurídica, mas a decisão final sobre o afastamento é política e depende de o indivíduo apresentar condições políticas de seguir à frente do cargo.

O parecer do Conselho Consultivo, que se fundamenta em questões jurídicas, representa uma vitória política importante para o atual presidente Tricolor e mostra que ele ainda mantém bom trânsito junto a forças influentes no clube.

LEIA MAIS: Como Júlio Casares perdeu a sustentação política e foi parar na “marca do pênalti” no São Paulo

A relação de Casares com Mesquita Pimenta, por exemplo, é muito próxima. O atual mandatário do Tricolor faz questão de tentar enaltecer a todo momento a memória do ex-presidente, que comandou o clube no período mais vitorioso de sua história, quando o Tricolor conquistou a Copa Libertadores e o Mundial Interclubes em 1992 e 1993.

O cartola de 87 anos, aliás, também enfrentou denúncias graves ao deixar a presidência em 1994, que envolveriam má gestão e suposto recebimento de propina nas negociações dos jogadores Leonardo e Mario Tilico junto ao futebol espanhol, ocorridas em 1991.

Ele chegou a ser afastado dos quadros do clube por conta desse episódio, mas acabou sendo readmitido, mais tarde. Em 2020, após a vitória do grupo de Casares, Mesquita Pimenta foi declarado patrono da atual gestão do São Paulo.

Mas o parecer contrário ao afastamento não encerra o drama de Júlio Casares. A palavra final sobre impeachment será o Conselho Deliberativo, que irá decidir a respeito do pedido numa reunião convocada para o próximo dia 14 de janeiro, a partir das 18h30. A decisão sobre o futuro de Casares será por voto secreto.

Para que ele seja afastado do cargo, será necessário que a denúncia seja aprovada por dois terços do Conselho Deliberativo, que conta com 255 membros.

A vitória no Conselho Consultivo e a recente aprovação do orçamento de 2026 (ocorrida no mês passado), com 112 votos favoráveis e 105 contrários, parecem indicar que, mesmo estando na marca do pênalti, Casares ainda conta com apoio interno para permanecer no cargo.

Externamente, porém, o mandatário vem sofrendo forte pressão dos torcedores, situação que é agravada pelos recentes resultados ruins da equipe em campo. A Independente, maior organiza do clube, divulgou nas redes sociais um manifesto exigindo a renúncia de Casares.

Resta saber como será o desenrolar das denúncias que começam a rondar mais de perto o presidente, como no caso da notícia surgida hoje, sobre os depósitos que totalizam R$ 1,5 milhão, feitos na conta do cartola e que despertaram a atenção do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e da Polícia Civil de São Paulo.

Se o caso esfriar, aumentam as chances de Casares permanecer no cargo e quem sabe até influenciar a sucessão presidencial no clube. Mas se a “Caixa de Pandora” recentemente aberta reservar novas surpresas amargas para o dirigente, seu apoio político pode derreter de vez, sem que haja parecer jurídico ou cardeal capaz de salvá-lo da degola.