O presidente do São Paulo, Júlio Casares, ganhou sobrevida em sua luta para permanecer no poder até o fim deste ano, quando está previsto o encerramento de seu mandato.
Em reunião realizada nesta terça-feira (6), na capital paulista, o Conselho Consultivo do clube emitiu parecer contrário ao pedido de impeachment apresentado contra o dirigente, no fim de 2025.
O pedido de afastamento é assinado por 57 membros do Conselho Deliberativo do Tricolor e se baseia em denúncias sobre supostas irregularidades financeiras e suspeitas de desvios de recursos na gestão Casares.
Dos 12 “cardeais” tricolores (são assim chamados porque são, em sua maioria, integrantes antigos do clube e já ocuparam a presidência da diretoria ou de algum dos conselhos), nove participaram da reunião: Carlos Augusto de Barros e Silva (o Leco), Carlos Miguel Aidar (que perdeu o mandato por denúncias envolvendo o contrato com a Under Armour), Ives Gandra Martins, José Carlos Ferreira Alves, o próprio Júlio Casares, Marcelo Abranches Pupo Barboza, Olten Ayres de Abreu Junior (presidente do Conselho Deliberativo) e Paulo Amaral Vasconcelos, além do presidente do Conselho Consultivo, José Eduardo Mesquita Pimenta.
O ex-presidente Fernando Casal de Rey, Milton José Neves e o jornalista Paulo Planet Buarque não estiveram presentes.
Dos nove que votaram, apenas José Carlos Ferreira Alves foi a favor do impeachment, por considerar que existem provas para a destituição do mandatário.
No documento assinado por Mesquita Pimenta, porém, o colegiado entende que, “do ponto de vista estritamente jurídico, não há elementos de prova material para justificar o parecer favorável ao impeachment presidencial”.
Questão é política, não jurídica
O documento assinado por Mesquita Pimenta traz um trecho curioso. O segundo tópico do texto cita um conceito legal abordado por Ives Gandra Martins, secretário-geral do Conselho Consultivo, acerca dos processos de impeachment.
O jurista observou, em um livro publicado em 1992, que a destituição de um mandatário tem uma base jurídica, mas a decisão final sobre o afastamento é política e depende de o indivíduo apresentar condições políticas de seguir à frente do cargo.
O parecer do Conselho Consultivo, que se fundamenta em questões jurídicas, representa uma vitória política importante para o atual presidente Tricolor e mostra que ele ainda mantém bom trânsito junto a forças influentes no clube.
A relação de Casares com Mesquita Pimenta, por exemplo, é muito próxima. O atual mandatário do Tricolor faz questão de tentar enaltecer a todo momento a memória do ex-presidente, que comandou o clube no período mais vitorioso de sua história, quando o Tricolor conquistou a Copa Libertadores e o Mundial Interclubes em 1992 e 1993.
O cartola de 87 anos, aliás, também enfrentou denúncias graves ao deixar a presidência em 1994, que envolveriam má gestão e suposto recebimento de propina nas negociações dos jogadores Leonardo e Mario Tilico junto ao futebol espanhol, ocorridas em 1991.
Ele chegou a ser afastado dos quadros do clube por conta desse episódio, mas acabou sendo readmitido, mais tarde. Em 2020, após a vitória do grupo de Casares, Mesquita Pimenta foi declarado patrono da atual gestão do São Paulo.
Mas o parecer contrário ao afastamento não encerra o drama de Júlio Casares. A palavra final sobre impeachment será o Conselho Deliberativo, que irá decidir a respeito do pedido numa reunião convocada para o próximo dia 14 de janeiro, a partir das 18h30. A decisão sobre o futuro de Casares será por voto secreto.
Para que ele seja afastado do cargo, será necessário que a denúncia seja aprovada por dois terços do Conselho Deliberativo, que conta com 255 membros.
A vitória no Conselho Consultivo e a recente aprovação do orçamento de 2026 (ocorrida no mês passado), com 112 votos favoráveis e 105 contrários, parecem indicar que, mesmo estando na marca do pênalti, Casares ainda conta com apoio interno para permanecer no cargo.
Externamente, porém, o mandatário vem sofrendo forte pressão dos torcedores, situação que é agravada pelos recentes resultados ruins da equipe em campo. A Independente, maior organiza do clube, divulgou nas redes sociais um manifesto exigindo a renúncia de Casares.
Resta saber como será o desenrolar das denúncias que começam a rondar mais de perto o presidente, como no caso da notícia surgida hoje, sobre os depósitos que totalizam R$ 1,5 milhão, feitos na conta do cartola e que despertaram a atenção do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e da Polícia Civil de São Paulo.
Se o caso esfriar, aumentam as chances de Casares permanecer no cargo e quem sabe até influenciar a sucessão presidencial no clube. Mas se a “Caixa de Pandora” recentemente aberta reservar novas surpresas amargas para o dirigente, seu apoio político pode derreter de vez, sem que haja parecer jurídico ou cardeal capaz de salvá-lo da degola.
