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Futebol / Jogo Pesado

Venda do Newcastle envolve política, briga contra pirataria e bilhões de dólares

Negócio foi aprovado por ingleses somente depois da resolução de uma disputa entre Catar e Arábia Saudita

Erich Beting - São Paulo (SP) Publicado em 08/10/2021, às 08h35 - Atualizado às 08h45

Torcedores do Newcastle celebram a venda do clube com adereços alusivos aos sauditas - Getty Images
Torcedores do Newcastle celebram a venda do clube com adereços alusivos aos sauditas - Getty Images

Depois de ter sido proibida pela Premier League há cerca de um ano e meio, a venda do Newcastle para um fundo de investimento saudita foi finalmente aprovada. A permissão para o negócio foi dada pela liga inglesa nesta quinta-feira (7) e, a partir de agora, o Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF) passará a ser dono de 100% do clube.

A transação custou aos cofres do fundo cerca de £ 300 milhões (algo em torno de R$ 2,2 bilhões). Mas o negócio só foi aprovado depois de uma disputa política entre o Catar e a Arábia Saudita ter sido sanada no começo da semana.

Na quarta-feira (6), a Arábia Saudita encerrou o banimento do canal catari BeIn Sports do país. O veto foi feito em 2017, depois que a BeIn, maior compradora de direitos de transmissão esportivos para a região do Oriente Médio, acusou o governo saudita de piratear o sinal de sua transmissão e exibir gratuitamente jogos das principais competições de futebol no país, entre elas a Premier League e a Copa do Mundo da FIFA. A BeIn Sports era o principal canal de esportes por assinatura até então no território saudita.

Nessa mesma época, os governos do Catar e da Arábia Saudita romperam relações, o que acirrou a crise política entre ambos, com o esporte sendo levado ao centro dessa disputa.

Acusado de praticar diversas ações ditatoriais, além de suprimir direitos básicos às mulheres, o governo saudita passou a usar os eventos esportivos para “limpar” a imagem do país globalmente.

Por meio do PIF, a Arábia Saudita se tornou um dos principais destinos de eventos esportivos. O país pagou milhões para levar para Riad torneios como as Supercopas da Itália e da Espanha e o Rally Dakar. Apesar de protestos da comunidade esportiva, o dinheiro falou mais alto para as entidades. Até mesmo a Fórmula 1 assinou um acordo com os sauditas e realizará, já este ano, um Grande Prêmio no país.

O futebol inglês, porém, era um reduto “intocado”. O motivo, claro, também era financeiro. Dona do maior contrato internacional de direitos de transmissão da Premier League, a BeIn Sports obrigou a liga inglesa a banir qualquer interferência do país rival na competição. Tanto que, em abril de 2020, a venda do Newcastle foi proibida.

O caso gerou revolta no clube, que se colocou contra a Premier League. Em novembro, o Newcastle decidiu ir à Justiça contra a liga, acusando-a de prejudicá-lo ao vetar a aquisição pelo fundo saudita. Depois, em dezembro, o clube foi o único a se opor ao novo contrato da liga com a BeIn para o mercado do Oriente Médio.

Há algumas semanas, porém, o negócio voltou a esquentar, depois que o príncipe árabe Mohammed bin Salman se reuniu com o emir catari Tamim bin Hamad al-Thani. O encontro começou a selar a paz entre os dois países, começando pelo esporte.

Depois de reintegrar o sinal da BeIn Sports em seu território, a Arábia Saudita recebeu o sinal verde do Catar para investir no Newcastle. Tanto que a BeIn foi consultada e deu aval para a Premier League permitir a negociação.

Agora, o PIF passará a ser o dono do clube. Com isso, o time se torna um dos maiores candidatos a ser o novo rico do futebol europeu. Afinal, a fortuna do príncipe Mohammed bin Salman é avaliada em cerca de US$ 450 bilhões, o que faz dele a pessoa mais rica a ser dona de um clube de futebol no mundo, superando com folga os “concorrentes” donos do Manchester City e do Paris Saint-Germain.

O negócio fará com que os sauditas passem a tomar conta do clube. Yasir Al-Rumayyan, representante do Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita, atuará como presidente estatutário da equipe. Já Amanda Staveley, presidente-executiva da PCP Capital Partners (empresa gestora do fundo de investimentos), terá um assento no conselho. Jamie Reuben, da RB Sports and Media (empresa investidora do fundo), será um dos diretores da equipe.

“Estamos extremamente orgulhosos de nos tornarmos os novos proprietários do Newcastle, um dos clubes mais famosos do futebol inglês. Agradecemos aos torcedores pelo seu apoio leal ao longo dos anos, e estamos entusiasmados por trabalhar com eles”, disse Yasir Al-Rumayyan, em comunicado.

A compra do Newcastle pelo fundo saudita levou torcedores às ruas para comemorar. Com o futebol nivelado dentro de campo pela capacidade de investimento dos times, o Newcastle havia ficado para trás na história, vendo clubes pouco tradicionais, como Chelsea e Manchester City, assumirem o protagonismo na Inglaterra.

O dinheiro saudita conseguiu, agora, romper a barreira que faltava no esporte para concluir o plano de limpeza de imagem que vem sendo realizado há alguns anos.