Às vésperas do início da edição 2026 do torneio, o US Open anunciou que havia dobrado o programa de criadores de conteúdo, saindo de 54 credenciados em 2025 para cerca de 100 este ano, visando a alcançar novos públicos que iam desde moda até gastronomia. A iniciativa, porém, acabou se transformando em um assunto negativo no torneio.
Teve “ring light” (acessório de iluminação em formato circular que usa lâmpadas de led para distribuir a luz) ligado durante o saque de Naomi Osaka, barulho em ponto decisivo e criadores postando foto da própria credencial nas redes, entre outras situações, o que levou a Associação de Tênis dos Estados Unidos (USTA, na sigla em inglês) a revogar pelo menos duas credenciais que, segundo o torneio, entraram pela porta errada, cadastradas como “staff” de um fornecedor de alimentação em vez de mídia.
Jogadoras pediram mais respeito à etiqueta do jogo, e o clima nas quadras externas chegou a ser descrito por um tenista como “um zoológico“, por conta de questões como cheiro de drogas e gente andando pela arquibancada durante os pontos.
Wimbledon restringirá influenciadores
Vale lembrar que o US Open sempre foi o Grand Slam mais barulhento por natureza, com música tocando nas quadras principais e público mais solto do que a média do circuito. Essa personalidade ajuda a explicar por que o torneio consegue atrair um público mais jovem e diverso todo ano, mas o programa de criadores só deixou mais evidente o limite entre esse barulho controlado e a perda de controle.
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Outro Grand Slam, esse sim com um perfil mais premium e contido, Wimbledon usou o exemplo negativo e já se adiantou a este tipo de problema. O torneio confirmou que não terá categoria de credenciamento para influenciador, e que itens como o “ring light” serão confiscados na entrada. A organização já vinha revisando essas políticas anualmente antes do escândalo do US Open.
No futebol, a restrição segue, mas por outros motivos
Times de futebol estão fechando essa porta por um motivo mais comercial. O Boca Juniors atualizou o regulamento de La Bombonera em agosto e proibiu qualquer criação de conteúdo ou transmissão ao vivo a partir das cadeiras de sócio-torcedor sem autorização do clube, com risco de perda do abono para quem descumprir.
O Dynamo Dresden, da segunda divisão alemã, por sua vez, seguiu uma linha parecida e passou a exigir autorização prévia para qualquer gravação com fins comerciais dentro do estádio do time, em uma medida construída junto de grupos organizados de torcida.
Nestes casos, o que mais motivou as medidas foram a proteção dos direitos de transmissão. Um vídeo de arquibancada com alcance grande compete direto com o que o clube já vende para emissoras e patrocinadores.
Por que ninguém vai simplesmente ignorar esse público
Os números explicam a cautela dos dois lados. O ecossistema de conteúdo sobre a Copa do Mundo de 2026 somou mais de 5,4 bilhões de visualizações até as oitavas de final, e, no Brasil, 37% de tudo que foi produzido sobre o torneio veio de criadores digitais, segundo a Inflr. Uma pesquisa da Wake Creators já apontava, em 2025, que 30% dos torcedores preferem se informar direto com influenciadores de futebol.
O modelo pensado para imprensa tradicional está mostrando que precisa de ajuste para esse tipo de perfil. O desafio é encontrar esse equilíbrio sem prejudicar a experiência do público nem o valor dos direitos de transmissão. Wimbledon, Boca Juniors e Dynamo Dresden, que nunca abriram essa porta, já parecem fechá-la, ou ao menos encostá-la, usando argumentos diferentes, mas que passam pela mesma medida: restringir o acesso de influenciadores em seus eventos.
