Máquina do Esporte
Facebook Máquina do EsporteTwitter Máquina do EsporteYoutube Máquina do EsporteLinkedin Máquina do Esporte
Motor / Dominado

Lewis Hamilton dá show de carisma e vira dono do GP São Paulo de F1

Inglês venceu GP, relembrou gesto histórico de Senna e levou público à loucura em Interlagos

Erich Beting e Wagner Giannella - São Paulo (SP) Publicado em 14/11/2021, às 18h02 - Atualizado às 18h06

Lewis Hamilton sobe ao pódio com a bandeira brasileira durante comemoração pela vitória no GP São Paulo de F1 - Twitter / F1
Lewis Hamilton sobe ao pódio com a bandeira brasileira durante comemoração pela vitória no GP São Paulo de F1 - Twitter / F1

A última vitória de Ayrton Senna em Interlagos foi em 1993. Não foi a última vitória brasileira na Fórmula 1, já que Felipe Massa venceu em casa duas vezes, a última delas em 2008. Naquele dia, quando recebeu a bandeira quadriculada na linha de chegada, o brasileiro era campeão do mundo. No entanto, Lewis Hamilton, à época apenas um menino inglês, realizou uma ultrapassagem a poucos metros do final da prova, chegou em quinto e ganhou seu primeiro título mundial por um ponto.

Apesar de sempre ter deixado pública sua admiração por Ayrton Senna, a quem sempre considerou seu maior ídolo, e também pelo Brasil, o jovem inglês saiu de Interlagos como grande vilão à época. Afinal, por questão de segundos, havia tirado o título mundial de um piloto brasileiro.

De lá para cá, Lewis Hamilton deixou de ser apenas um menino inglês que ganhou um título "por sorte". Começou a bater recorde atrás de recorde e hoje já é o piloto com maior número de pole positions, com maior número de vitórias (sendo o único da história a alcançar os três dígitos) e o detentor do maior número de títulos (empatado com o alemão Michael Schumacher). Nesse meio-tempo, venceu duas vezes no Brasil (2016 e 2018), sempre lembrando Ayrton Senna, de uma forma ou de outra, assim como o carinho pelo Brasil. Mas ainda havia muito brasileiro que não conseguia esquecer 2008. Só que neste 14 de novembro, provavelmente até o mais revoltado destes brasileiros deve ter se rendido ao agora veterano inglês.

Neste final de semana, Hamilton mostrou na pista por que alcançou tudo que alcançou na carreira. Após marcar o melhor tempo no treino classificatório, foi desclassificado por um irregularidade na asa traseira. Dessa forma, largou em último na Sprint Race. Em 24 voltas, ultrapassou 15 carros e chegou em quinto. Aí, veio a segunda punição. Por trocar uma peça do motor, perdeu cinco posições e acabou tendo que largar em décimo.

E foi na prova de domingo que o heptacampeão mundial deu um dos maiores shows da carreira. No final da primeira volta, já era o sexto. No final da terceira, já era o quarto. E não demorou muito para ter apenas o maior rival em vários anos, o holandês Max Verstappen, pela frente.

Após as duas trocas de pneus, Hamilton viu que teria que ganhar a posição no braço. Na primeira tentativa, foi jogado para fora da pista pelo adversário. Na segunda, no entanto, não teve jeito. Ultrapassou e abriu para não perder mais a vitória.

Dentro da pista, portanto, missão mais do que cumprida. Só que Hamilton vem extrapolando a pista já há algum tempo. Durante todo o final de semana, ele foi o mais ovacionado em Interlagos. Ao que parecia, 2008 realmente estava ficando para trás. Na zona mista, após a conquista da pole position para a Sprint Race (que lhe seria tirada mais tarde), foi o mais assediado pelos fãs que se encontravam no Paddock Premium, um dos camarotes do circuito. E não teve dúvida: arrancou o boné e tentou por cinco vezes jogá-lo para cima até que alguém o pegasse.

Um pequeno exemplo da capacidade do inglês de atrair tantos e tantos torcedores de outra nacionalidade. Max Verstappen foi ovacionado no GP da Holanda, bem como Sergio Pérez no GP do México e o próprio Lewis Hamilton no GP da Inglaterra. Mas o fato é que o inglês conseguiu dar uma verdadeira aula de como se tornar um ídolo fora de casa.

Nos dias que antecederam o GP São Paulo, fez postagens emocionantes em suas redes sociais. Em uma, postou uma montagem com ele e Ayrton Senna andando lado a lado pela reta dos boxes de Interlagos. Em outra, apresentou o capacete que usaria nos três dias de GP São Paulo, com detalhes em amarelo dos lados e as três listras em verde, amarelo e azul do capacete de Senna na parte de cima. Em uma terceira, fez questão de escrever "Eu te amo, Brasil" em português após mais um texto falando sobre a paixão que tem pelo país do maior ídolo.

E se tudo isso já não havia sido suficiente para amolecer até o brasileiro mais "coração de pedra", veio o pós-vitória. Ainda dentro do carro, Hamilton imitou Senna e desfilou até os boxes empunhando uma bandeira brasileira, gesto que foi eternizado pelo brasileiro. Depois, no pódio, nova homenagem, com um sorriso de orelha a orelha e a bandeira brasileira tremulando nas mãos o tempo todo, também lembrando Senna.

Nas redes sociais, o brasileiro se derreteu. Milhares e milhares de fãs do piloto falecido em 1994 se manifestaram. Boa parte se mostrou emocionada com as atitudes do inglês que, de vilão há 13 anos, se tornou o mais próximo de um piloto brasileiro que a torcida pôde ver nos últimos anos, já que o país não tem representantes disputando a etapa brasileira desde o final de 2017, quando justamente Felipe Massa se aposentou da categoria.

Não foram poucos os pais que, felizes e emocionados, compararam as atitudes de Hamilton com o que Senna fazia. O heptacampeão talvez tenha despertado em muitos brasileiros uma paixão que há anos e anos muitos não tinham por um piloto e pela Fórmula 1 em si. Foi uma aula do inglês desde que pisou em solo paulista em 2021, seja dentro das 71 voltas da prova, no treino classificatório, na Sprint Race ou nas atitudes antes e depois do trabalho bem realizado na pista.

Não é insanidade dizer que, neste 14 de novembro de 2021, o inglês mais brasileiro da história do esporte ressuscitou um sentimento em um país inteiro. Coisa de gênio. Dentro e fora da pista.