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Análise: Política na NFL? Só pode se for oficial

Super Bowl exaltou latinos e cutucou Donald Trump poucos anos depois de reprimir manifestações contra o racismo

Duda Lopes - São Paulo (SP) Publicado em 04/02/2020, às 08h00 - Atualizado às 11h00

Imagem Análise: Política na NFL? Só pode se for oficial

Poucas vezes um evento esportivo de grande porte teve tantas mensagens políticas quanto o Super Bowl deste ano. Ainda que espetáculos musicais de jogos recentes tivessem suas mensagens, nenhum pareceu tanto um grito social quanto a apresentação da dupla Shakira e Jennifer Lopez no intervalo.

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Tudo pareceu pensado para que o momento de maior audiência da televisão americana fosse uma enorme manifestação contra medidas mais recentes do governo dos Estados Unidos. A começar pela escolha de duas artistas mulheres, de origem latina, com mais de 40 anos. Foi uma apresentação cheia de significados.

Mas o show foi além. Ampla presença feminina, com manifestações diretas de apoio à comunidade latino-americana, seja na bandeira de Porto Rico ou no espanhol de Shakira. A cantora colombiana, por sinal, chegou a fazer o som da "zaghruta", uma tradição árabe para celebrar suas próprias raízes, como bem apontou o jornalista Diogo Bercito, da "Folha de S.Paulo".

Na apresentação de Jennifer Lopez, meninas chegaram a performar em esferas com grades. Ao "New York Times", a cantora não respondeu sobre o significado da imagem, mas foi difícil não fazer referência à detenção de imigrantes nas fronteiras dos Estados Unidos no governo de Donald Trump.

O tom agressivo das apresentações musicais do Super Bowl foi bem-vindo em um momento de fragilidade das liberdades individuais. Como se sabe, o esporte tem um enorme poder de transformar a sociedade, e manifestações políticas são intrínsecas aos grandes eventos do segmento há um século. Não deixa de ser curioso, no entanto, que a NFL nem sempre veja esse tipo de movimento com bons olhos.

O Super Bowl de 2020 pareceu uma tentativa de reconciliação da liga de futebol americano com questões que perturbam a sociedade americana. Em 2016, foi dado um tratamento completamente diferente a Colin Kaepernick, atleta que puxou uma manifestação durante as execuções do hino americano antes das partidas da NFL. A ideia era protestar contra casos de racismo ocorridos em atos de policiais do país. O atleta foi boicotado pelas franquias, e os gestos foram reprimidos pela organização das partidas.

No fim, a mensagem que fica é que, para a NFL, manifestação política boa é aquela planejada, aprovada e que gera audiência na televisão. Aquela que é boa para os negócios, em danças coreografadas, em assuntos que agradam aos patrocinadores. Discursos paralelos de jogadores negros não são tão bem-vindos assim.