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Análise: Protagonismo datado reforça erro histórico

Mobilização pelas mulheres não pode ser restrita a data comemorativa, mas se tornar um processo natural no país

Erich Beting - São Paulo (SP) Publicado em 09/03/2020, às 08h04 - Atualizado às 11h04

Imagem Análise: Protagonismo datado reforça erro histórico

É muito legal ver o esporte abrir espaço para as mulheres em meio às celebrações do Dia Internacional da Mulher. Não deixa de ser uma espécie de mea culpa dos dirigentes que historicamente sempre foram homens e que pouco espaço deram para que elas se destacassem em um ambiente tão masculinizado.

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O problema é que estamos permitindo o protagonismo das mulheres dentro do esporte apenas quando há alguma efeméride relacionada a elas. Por que não tornar mais natural e presente a figura feminina no esporte? Ou isso só pode ser feito quando houver um motivo para se falar da importância da mulher na vida das pessoas?

Em um mundo em que a propagação da informação está relacionada diretamente ao que as pessoas buscam na internet, e não mais ao que de fato pode ser notícia, estamos começando a dar importância demais a momentos específicos, sem olhar o todo. Especialmente no Brasil, o esporte parece que só se mobiliza para alguns temas quando há uma data comemorativa.

Vai ser assim no Dia das Mães, no das crianças, no da Consciência Negra, no dos Pais, etc. Olhamos para um determinado tipo de público apenas nas datas comemorativas. Com raras exceções, os gestores esportivos parecem não ter entendido que dar protagonismo a alguém apenas em uma data especial é um reforço de um erro histórico. Como agora no caso das mulheres.

Nesta semana, a Globo iniciou uma espécie de "autoanálise". Em vez de seguir o comportamento de praxe de cobertura sobre o Dia Internacional da Mulher, a emissora olhou para dentro e passou a ver como a própria empresa olha para a mulher. Isso gerou um interessante debate crítico sobre a forma como a atleta mulher era relatada na cobertura e trouxe uma nova luz sobre como somos responsáveis no meio disso.

É muito difícil mudarmos um comportamento enraizado na nossa sociedade. O veto da prática de esporte à mulher já é um tema que conseguimos mudar ao longo dos anos. Na mídia, por sua vez, há cerca de dez anos, o cenário também começou a ser diferente. Agora, temos de cada vez mais inseri-las no ambiente da gestão esportiva.

É um alento ver que o esporte já tem visto mais ações desse tipo, mas é reforçar um erro histórico darmos protagonismo às mulheres apenas durante datas comemorativas. Deveria ser natural termos árbitras, narradoras e comentaristas nas partidas, torcedoras sem assédio nos estádios, mulheres cada vez mais presentes nos bastidores.

O esporte precisa aprender a deixar de ser tão masculino. E não apenas por um dia.