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Opinião / Opinião

Esporte precisa blindar sua tradição

Erich Beting Publicado em 13/11/2020, às 11h59

Imagem Esporte precisa blindar sua tradição

O vexame que foi mais uma atuação da Rio Motorsports no mercado mostra que a atração por aventureiros é uma realidade mundial do esporte, muito mais do que um problema pontual do Brasil.

Segmento da economia em que o dinheiro muitas vezes é vasto, mas sem um dono específico, o esporte é convidativo para projetos magnânimos. Ainda mais numa época de crise, em que investidores fabulosos aparecem com promessa de dinheiro fácil e solução de problemas. É só isso o que pode justificar o apetite de Chase Carey, da Liberty Media, pelo projeto da Rio Motorsports em levar uma corrida para um autódromo inexistente e em fechar com a mes- ma empresa um contrato de direitos de transmissão da categoria no país.

A sorte da F-1 é que não durou nem dois meses o devaneio. Carey, quando assumiu o cargo de "chefe comercial" da Fórmula 1, tratou de tentar acabar com qualquer resquício da era Bernie Ecclestone. Em parte, isso era necessário. Alguns contratos do antecessor eram feitos baseados em relações pessoais, sem gerar o melhor resultado para a Fórmula 1.

São Paulo era um caso específico. Tamas Rohonyi, promotor do GP do Brasil, tinha excelente relação com Ecclestone, a ponto de não pagar qualquer taxa de licença de realização da corrida, como acontecia na maioria dos países. Endurecer a negociação era uma necessidade, mas abrir espaço para um projeto como o do autódromo de Deodoro passou a ser um passo ousado demais. A ousadia se transformou em devaneio quando Carey pediu para acelerar as licenças ambientais para erguer o autódromo.

Ainda mais estranho, porém, foi não renovar o contrato de TV, esse sim o mais vantajoso do mundo que a F-1 tem, pelo projeto da Rio Motorsports. Só no Brasil a categoria ainda é exibida na TV aberta, o que faz do país o de maior audiência e acompanhamento da Fórmula 1 no mundo.


Foi só aí, porém, que a Liberty Media percebeu o erro estratégico que

vinha cometendo. O que impressiona, porém, é a incapacidade que a empresa teve em analisar o mercado com o qual ela estava negociando. Para quem investiu US$ 8,5 bilhões para ser dona da Fórmula 1, seduzir-se pelas promessas de um aventureiro beira o inacreditável. O esporte precisa entender que ele é uma tradição que precisa ser blindada para o negócio ter, realmente, sentido.