Opinião

Estatização do futebol é um perigo

por Erich Beting
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A decisão a ser tomada não era fácil. Até por conta da legislação, o duelo entre Peru e Brasil pelas Eliminatórias da Copa precisava de uma transmissão em TV aberta. O problema é que, para isso, seria preciso uma manobra política, mais do que uma negociação comercial.

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A decisão tomada pela CBF de liberar o sinal do jogo para a TV Brasil tem sua lógica. Se é para mostrar a partida, que seja numa TV pública. É assim que acontece em boa parte dos países, especialmente na Inglaterra, em que vários eventos esportivos são obrigados a serem exibidos gratuitamente ao torcedor. 


O problema é o recado que essa decisão passa para o mercado. Talvez nunca tenhamos discutido tanto como o futebol pode se tornar mais forte e menos dependente da TV como no governo Bolsonaro. A discussão, porém, não tem se baseado em questões técnicas, parecendo muito mais uma tentativa de enfraquecer o predomínio da Globo na transmissão do esporte do que realmente o empoderamento do futebol.

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Usamos meias verdades para tentar criar um vilão na questão da mídia, quando o maior problema é estrutural. Os clubes e o futebol brasileiro como um todo não estão preparados para se- rem independentes da mídia. A confusão com os direitos de transmissão das Eliminatórias mostra de forma cristalina o que o futuro pode nos reservar.

Na Argentina, há dez anos, o governo de Cristina Kirchner decidiu peitar o poder econômico do grupo Clarin. Fez de tudo para tirar dele os direitos de transmissão do futebol. Como, na época, não apareceu nenhum outro grupo de mídia interessado na compra dos direitos, o governo assumiu para si a transmissão do futebol e passou a subsidiar as transmissões no projeto Futebol para Todos, usando como argumento o fato de que era um absurdo o povo ter de pagar para ver jogos de futebol. O resultado foi desastroso e explica, em boa parte, porque o futebol argentino tenta agora se reerguer, atolado em dívidas.

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Estatizar a transmissão do futebol é um perigo ainda maior do que simplesmente quebrar o modelo vigente, como atualmente os clubes brasileiros acreditam ser o melhor a fazer. A decisão de transmitir gratuitamente o jogo do Brasil era necessária por conta da nossa legislação. O problema é se o governo decidir interferir cada vez mais na questão. Estatizar o futebol é um perigo.

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