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Opinião / Ana Lorena Marche

Opinião: 2021, um ano marcante para o futebol feminino paulista

O que explica os times paulistas terem ganhado todas as competições nacionais e sul-americanas nesta temporada?

Ana Lorena Marche, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 30/11/2021, às 07h42 - Atualizado às 07h44

Jogadoras do Corinthians com a taça de campeãs da Libertadores Feminina de 2021 - Divulgação / CONMEBOL
Jogadoras do Corinthians com a taça de campeãs da Libertadores Feminina de 2021 - Divulgação / CONMEBOL

O ano ainda não acabou para o futebol feminino brasileiro. Ainda temos alguns campeonatos pela frente, como as finais do Paulistão adulto e do Sub-17, além da Brasil Ladies Cup para fechar o ano. Mas, após o título do Corinthians na Libertadores Feminina, que aconteceu no último dia 21 de novembro, podemos dizer que o ano de 2021 está sendo muito marcante para o futebol feminino paulista. Até o momento, todos os títulos nacionais e sul-americanos possíveis na modalidade foram ganhos por equipes paulistas, inclusive nos campeonatos de base, como os Brasileiros Sub-18 e Sub-16, que o São Paulo e o Corinthians ganharam, respectivamente.

Nunca fui de analisar um clube ou entidade apenas pelos resultados esportivos, pois eles com certeza não mostram o todo e podem esconder muitos problemas, assim como um clube pode estar fazendo um ótimo trabalho mesmo sem o título em si, que, muitas vezes, é decidido nos detalhes. As análises precisam sempre ser mais profundas. Porém, o que aconteceu este ano dificilmente acontecerá novamente, ainda mais com o amplo crescimento da categoria no Brasil como um todo. E isso é muito bom, importante e necessário!

O texto desta terça-feira (30) tem como objetivo trazer uma reflexão sobre alguns pontos importantes que podem explicar o sucesso das equipes do estado de São Paulo nos cenários nacional e internacional nos últimos anos. Existem diversos fatores para isso, como o fator econômico do estado e o maior número de clubes masculinos na primeira divisão nacional (fator importante atualmente por conta do licenciamento), entre outros mais gerais.

Mas gostaria de colocar aqui alguns aspectos que vejo como fundamentais também e são mais relacionados ao futebol das mulheres especificamente, como o Campeonato Paulista ser o torneio para mulheres mais longevo do Brasil (está na sua 24ª edição). Além disso, o campeonato acontece sempre com um número bom de equipes, preenchendo o calendário por alguns meses e com times qualificados, deixando o torneio muito atrativo para as jogadoras.

Contudo, outro fator é fundamental, principalmente pensando no número de equipes que disputam e disputavam o Paulista: a existência dos Jogos Abertos e Regionais, campeonatos esses oferecidos pela Secretaria de Esportes do Estado de São Paulo. Muitos clubes ligados às prefeituras de suas cidades disputam ou disputavam essa competição, como Botucatu, São José dos Campos, São José do Rio Preto, Franca e Araraquara, times tradicionais do futebol feminino brasileiro, com grandes títulos nacionais e internacionais. Ser vinculado a uma prefeitura tem algumas vantagens, como os campeonatos da Secretaria, mas também boa parte delas possuem recurso para Bolsa-Atleta municipal, campos para treinamentos, alojamentos, alimentação e transporte, todos cedidos pela prefeitura. Estes recursos, por muito tempo, muitos clubes não tinham como dar, e isso mantinha muitas atletas atuando no estado de São Paulo.

Além dos Jogos Abertos e Regionais para a categoria adulta, a Secretaria do Estado possui os Jogos Abertos da Juventude para adolescentes de 15 a 17 anos, com futsal e futebol de campo para meninas também. Com isso, muitos desses clubes conseguiram ter campeonatos para as meninas mais novas da cidade, formando, assim, muitas atletas.

Esse com certeza é um ponto que ajudou muito a sobrevivência das equipes, já que o número de campeonatos de categorias de base para meninas ainda é muito escasso. É difícil achar uma jogadora, principalmente mais velha, que não tenha passado por alguma dessas equipes no passado, que foram formadas lá, ou até que ainda jogam.

Pensando no número baixo de competições nas categorias de base, a primeira competição brasileira oficial de base de forma regular, com a chancela de uma federação, foi o Paulista Sub-17, criado no ano de 2017 e que acontece até hoje, mesmo com todas as dificuldades que enfrentamos durante os últimos dois anos com a pandemia. Esta competição revolucionou o futebol feminino de base brasileiro e paulista. Além disso, no mesmo ano, tivemos a criação do festival Sub-14, colocando meninas para iniciarem a prática esportiva cada vez mais cedo.

Tive o prazer de organizar o festival Sub-14 duas vezes em Araraquara, quando estava lá. Foi uma das coisas mais gratificantes de que já participei! Estes campeonatos foram fundamentais para aumentar o número de praticantes e melhorar a formação de atletas dos clubes, prefeituras e projetos sociais do estado. Muitos clubes da competição adulta atualmente possuem atletas em seu elenco que jogaram as primeiras edições desses campeonatos.

Para finalizar, um dos fatores que vejo como fundamental e que pode ajudar a explicar os avanços que aconteceram foi o investimento da Federação Paulista de Futebol (FPF) na criação de um departamento exclusivo para o futebol de mulheres. A ideia era de que tivéssemos pessoas pensando unicamente nas estratégias para melhora e evolução da categoria.

O departamento nasceu em 2016, com a chegada de Aline Pellegrino, que contribuiu muito com sua experiência e conhecimento de quem vivenciou a categoria por muito tempo como atleta e depois como gestora. Hoje, ela está em um desafio ainda maior, com a criação do departamento dentro da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e tendo que olhar para o Brasil e toda sua complexidade. Com sua saída, o departamento não acabou. Pelo contrário, dobrou de tamanho e, atualmente, temos duas pessoas dentro: eu coordenando, e a Victória Pissolato como analista, nesse desafio de aumentar ainda mais o número de projetos.

Ter pessoas especializadas na área, com conhecimento específico da modalidade, é de suma importância e um pilar estratégico dentro da FIFA em seu plano de desenvolvimento mundial da categoria. O departamento consegue criar estratégias específicas que precisam ser atacadas, entender quais os melhores campeonatos a serem criados e priorizados, desenvolver eventos, seminários, encontros de ideias e capacitações necessárias para os profissionais que trabalham no ecossistema como um todo. Com este fomento constante da Federação e os novos campeonatos, os números mostram uma evolução significativa em vários aspectos, como maior número de atletas dentro das competições, aumento da profissionalização a cada ano, mais mulheres à frente das equipes em comissões técnicas, recordes de transmissões de jogos e visualizações, e mais marcas ligando suas imagens ao futebol de mulheres, gerando, assim, cada mais valor para a categoria.

Quero mostrar aqui na coluna que valorizar a categoria e colher grandes frutos, como aumento de patrocínio, visibilidade e profissionalismo, é possível. Basta apenas um pouco de investimento e olhar estratégico e específico para os problemas. As consequências, ou seja, os resultados, virão a longo prazo.

Se todos fizermos juntos, podemos colher ainda mais frutos, e quem sairá ganhando com isso serão as atletas, os profissionais que trabalham na área e, principalmente, nossa seleção.

Ana Lorena Marche é coordenadora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol (FPF) e escreve mensalmente na Máquina do Esporte