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Opinião / Mônica Esperidião

Opinião: A análise de ecossistema do desenvolvimento de talentos da FIFA

Mônica Esperidião, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 27/05/2021, às 11h57

Imagem Opinião: A análise de ecossistema do desenvolvimento de talentos da FIFA

Não é segredo para ninguém que a FIFA é a mãe do futebol mundial e faz um trabalho intenso para o desenvolvimento de talentos. A lista de estrelas masculinas é longa, desde Pelé, Maradona, Ronaldo, Romário, Cristiano Ronaldo, Messi... Porém a categoria que antes era tão esquecida hoje também se tornou foco de negócios da entidade máxima do futebol mundial. Por isso, neste artigo, quero trazer alguns números da análise do ecossistema de desenvolvimento de talentos da FIFA, lançada este mês, no que tange o futebol feminino. Vamos entender melhor o terreno que está sendo semeado pela entidade-mãe do futebol.

Neste documento, é possível entender a visão da FIFA para tornar o futebol verdadeiramente global nos próximos anos. E uma parte relevante para isso ser alcançado é pavimentar o caminho para 50 seleções nacionais e 50 clubes de todo o mundo - tanto masculinos quanto femininos - terem a possibilidade de competir no mais alto nível pelo título de campeão mundial.

Taça da Copa do Mundo masculina

Na opinião do atual Presidente da FIFA, Gianni Infantino, “é muito fácil. Mas, para conseguir, é preciso muito empenho”.

Então, fica uma pergunta inicial para sua reflexão: seu clube, federação do seu estado ou nossa confederação nacional estão investindo para desenvolver os novos talentos do futebol brasileiro?

Porque eles deveriam… Para a entidade, o Programa de Desenvolvimento de Talentos da FIFA é a prática definitiva do compromisso estratégico da instituição. E estes dados são muito bem embasados. Durante 2020, especialistas técnicos avaliaram uma série de informações junto às associações-membros e escolas de futebol no mundo todo a fim de coletar dados detalhados sobre as estruturas e recursos que os países utilizam para treinar seus jogadores.

O presidente da FIFA reforça um fator importantíssimo que tentarei detalhar a vocês com os dados do report: “todos os stakeholders deste ‘ecossistema’ estão conectados e precisam trabalhar juntos em prol do desenvolvimento do atleta talentoso”.

Vamos aos dados da análise e meus pitacos, como integrante deste ecossistema…

Começamos pelo alto escalão da competitividade, a Copa do Mundo. No report, mais uma vez a FIFA promete que, em muito pouco tempo, será celebrada a primeira Copa do Mundo Masculina com 48 seleções e a primeira Copa do Mundo Feminina com 32 equipes nacionais e com um alto nível de competitividade.

E o que me intriga neste ponto é entender se vale a pena crescer o número de seleções na disputa pela taça da Copa se em tantos países o desafio de equipes femininas profissionais ainda é enorme? Hoje algumas das principais federações ligadas às associações AFC (Ásia), CAF (África) e Concacaf (Am. do Norte + Am. Central + Ilhas Caribe) ainda não têm sequer uma equipe profissional feminina.

Jogadoras de Camarões, país que disputou a última Copa do Mundo feminina, em 2019
Divulgação

Ainda sobre Copa do Mundo...

Os dados da tabela logo abaixo podem ser explicados com outra informação também relatada no reporte: somente um terço de todos os países oferece duas ou mais competições juvenis femininas no seu país. Ou seja, para crescer no topo, será que não deveríamos alargar a base primeiro?

Agora vamos falar dos clubes? No ranking de clubes de futebol feminino, dos primeiros 20, somente 8% são profissionais, 17% semi-profissionais e 75% amadores. Entre aqueles da posição 21 até a 50, 15% são profissionais e entre 51 até 100, somente 2% são profissionais. Enquanto no futebol masculino, dos Top 20, 51% são profissionais, entre os 21 até 50, 43% e entre 51 até 100, 26% são profissionais. É um dado que demonstra que não se está investindo corretamente no desenvolvimento do futebol feminino por parte deste stakeholder.

Enquanto isso no Brasil...

Agora trazendo para nossa realidade, vale lembrar do investimento da Federação Paulista de Futebol quando foi criada a 1ª Peneira de Futebol Paulista Feminino sub17, em que 336 meninas estiveram presentes para ter ao menos a chance de serem vistas pelos clubes paulistas. Como resultado do aproveitamento dessa iniciativa, 65% dos clubes selecionaram alguma menina. Isso revela não só o sucesso do projeto, como a necessidade dessa conexão entre talento e clube.

Levando para o nível nacional, a CBF recentemente também anunciou a criação da série A3. Nas palavras da atual coordenadora de competições da entidade, Aline Pellegrino, isso demonstra que o nível de maturidade e o aumento da visibilidade das competições adultas permitiram que novas equipes se somem às competições de nível nacional. Isso aumentaria não só o mercado de trabalho para as atletas, mas incentivaria o fortalecimento das categorias de base dos clubes, que passam a ter um calendário mais extenso e nais bem estruturado.

Estas medidas colaboraram para mais um objetivo trazido pelo presidente da FIFA, o de aumentar o número de jogos, o que melhora o nível de competitividade que ele busca com o programa de desenvolvimento de talentos.

Peneira da Federação Paulista para categorias de base teve mais de 600 garotas inscritas
Divulgação/FPF

Agora, e nós, Mulheres, que estamos fora das quatro linhas?

E por fim, porém não menos importante, falemos de algo que eu acredito tanto que atuo para que isso seja cada vez mais uma realidade: Como está a representatividade das mulheres fora das quatro linhas do campo?

Hoje, somente 28% das mulheres trabalham em áreas administrativas, sendo que apenas 9% representam cargos de tomada de decisão nas associações nacionais e nenhuma até hoje na história do futebol mundial, foi ou é presidente de alguma confederação no mundo todo.

Só para que ninguém diga, “tá e o que isso tem a ver?” Dentro do plano estratégico da FIFA para desenvolvimento do futebol feminino estão previstos 3 objetivos:

  1. Aumentar o número de mulheres jogando futebol oficialmente (Meta: em 2026 é ter 60 milhões de mulheres jogando futebol de forma oficial)
  2. Potencializar o valor comercial do produto futebol feminino (Vide o que foi realizado na Copa do Mundo da 2019 na França, com diversas marcas despertando seus interesses no futebol jogado por mulheres)
  3. Estruturar a Governança de entidades e clubes, ou seja, criar mecanismos para que existam processos de boa governança na gestão do futebol, que promovam maior diversidade e novos pontos de vista, a fim de alcançar este desenvolvimento.

Bom, espero que todos tenham se encontrado de alguma maneira neste ecossistema, que TODOS NÓS fazemos parte e temos a responsabilidade de desempenhar o nosso papel, seja a Máquina do Esporte, nos atualizando com notícias do negócio do esporte, eu e outros colunistas trazendo conhecimento através dos artigos mensais e vocês, que trabalham e buscam trabalhar na indústria esportiva e nos leu até aqui!

Parabéns e muito obrigada, você já está fazendo a sua parte, seguimos contando com você.

Mônica Esperidião Hasenclever, especialista em gestão e marketing esportivo, CMO da Leadership Woman Football e Diretora da LWF Academy, plataforma que tem como objetivo promover a liderança e a visibilidade da mulher no esporte, abrangendo todos os âmbitos e áreas de esporte, e escreve mensalmente na Máquina do Esporte.