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Opinião / Evandro Figueira

Opinião: A ética e a transparência na negociação dos direitos de transmissão

Para Evandro Figueira, Fifagate trouxe como benefício um ambiente mais transparente na venda de direitos

Evandro Figueira, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 27/08/2021, às 11h24 - Atualizado em 30/08/2021, às 16h28

Desde o FIFA Gate venda de direitos de transmissão tem um ambiente mais transparente - Divulgação
Desde o FIFA Gate venda de direitos de transmissão tem um ambiente mais transparente - Divulgação

Nesta semana, foram reveladas informações sobre valores que a CONMEBOL e a FIFA receberam de volta, como resultado da investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) no escândalo do Fifagate.

A CONMEBOL recebeu US$ 71 milhões, e a FIFA outros US$ 201 milhões. Estes valores foram ressarcidos às entidades esportivas porque, no entendimento do DOJ, elas foram vítimas de atos criminosos de alguns dirigentes e empresários que desviavam receitas de direitos de transmissão e patrocínio durante as negociações que não eram feitas de forma clara e transparente.

O escândalo do Fifagate explodiu em maio de 2015, quando o FBI fez uma operação em um hotel na Suíça, onde estavam hospedados os maiores dirigentes da FIFA, reunidos para o congresso anual da entidade. Dirigentes foram presos, outros ainda estão aguardando julgamento, mas o fato é que, de lá para cá, muita coisa mudou, e a transparência em vários processos de negociação de direitos esportivos só vem aumentando.

Entidades esportivas, promotores de eventos, federações e ligas estão buscando formas de tornar os seus processos comerciais cada vez mais transparentes. Alguns concentram seus maiores esforços nas principais linhas de receita e despesas e outros tratam qualquer processo de contratação da forma mais transparente possível.

Quando se fala na outorga de direitos de transmissão, uma das principais receitas de qualquer entidade esportiva, a transparência e a ética só vem aumentando e os processos são cada vez mais detalhistas e buscam coibir qualquer falha ética ao longo de uma licitação.

Como este processo envolve normalmente grandes quantias em dinheiro, a entidade esportiva faz o que chamamos de um RFP (Request for Proposal), ou um convite público a todos os interessados em participar e apresentar a sua proposta. A forma de tornar este processo público pode variar, desde uma publicação no site da entidade, divulgação pela imprensa ou até um email aberto enviado aos principais interessados, sejam eles agências de direitos ou broadcasters, e por aí entenda-se não apenas emissoras de televisão, mas no mundo atual broadcaster também se refere às plataformas de streaming abertas (AVOD), fechadas (SVOD), sites, etc.

Algumas entidades também passaram a cobrar uma quantia dos interessados em receber o RFP para que o foco seja realmente de quem tem interesse em trabalhar com aquela propriedade, e normalmente após a outorga dos direitos, o dinheiro de todos que efetivamente apresentaram uma proposta é devolvido independentemente de a proposta ser vencedora ou não. Mas vale ressaltar que essa é uma política que pode variar de uma entidade para outra.

Para a venda de direitos de transmissão de competições relevantes em seus respectivos mercados, o que chamamos de mercados domésticos, tem sido adotada recentemente também a contratação de auditorias externas para que possam acompanhar e confirmar a lisura nos processos. A preocupação com o compliance tem sido cada vez maior, e a apresentação de propostas em “envelopes fechados” ou e-mails com prazos (dia e hora) predeterminados também tem sido frequente.

Mas o processo não termina na entrega das propostas, uma vez que um segundo turno pode ser necessário se as propostas forem muito similares em termos financeiros ou de compromissos assumidos nos quesitos de exibição, promoção, distribuição, etc.

Depois de efetivamente escolhido um vencedor ainda é feita uma verificação de todo o histórico do novo parceiro para evitar qualquer surpresa futura em relação aos padrões estabelecidos de compliance. E, atualmente, muitas das entidades esportivas veem positivamente a divulgação dos valores envolvidos, acreditando que isso dá ainda mais credibilidade ao processo, mostrando aos eventuais perdedores que a proposta vencedora era realmente a melhor.

A transparência e a ética estão cada vez mais presentes nas negociações de direitos de transmissão. Se é que podemos dizer que o Fifagate trouxe algum benefício para este universo, eu acredito que estes tenham  sido os principais deles.

Evandro Figueira é vice-presidente de mídia da IMG no Brasil e escreve mensalmente na Máquina do Esporte