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Opinião / Estratégia corintiana

Opinião: Austeridade nem sempre é caminho, mas transparência é necessária

Para Duda Lopes, apenas o futuro dirá se estratégia do Corinthians será ou não um sucesso

Duda Lopes, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 03/09/2021, às 07h02

Ex-Arsenal, Willian foi anunciado como reforço do Corinthians e vestirá camisa 10 - Reprodução / Twitter (@Corinthians)
Ex-Arsenal, Willian foi anunciado como reforço do Corinthians e vestirá camisa 10 - Reprodução / Twitter (@Corinthians)

A situação financeira delicada da grande maioria dos times de elite do futebol brasileiro é alvo de constante preocupação do mercado. Mesmo com substancial aumento das receitas na última década, a sustentabilidade das equipes parece sempre a perigo, algo que ganhou ainda mais força com a atual fase do Cruzeiro. Exemplificado pelo poderio flamenguista nos últimos anos, austeridade virou palavra de ordem no esporte. Mas, na última semana, um rival de São Paulo resolveu inverter a lógica.

Aniversariante da semana, o Corinthians fez uma grande festa com seus novos reforços. Jogadores com passagem pela seleção brasileira e salários milionários chegaram ao Parque São Jorge com a tradicional sirene do antigo estádio. A celebração de muitos torcedores, no entanto, foi acompanhada de uma certa preocupação: teria o clube rasgado o manual flamenguista, seguido no primeiro semestre? Estaria o futuro do time em risco?

A decisão corintiana coloca em discussão o quanto vale algumas temporadas de forte corte financeiro em comparação a uma estratégia mais precisa de grandes investimentos. Evidentemente, essa conversa não considera a real situação do clube. Apenas com a divulgação do balanço de 2021 na próxima temporada, uma série de questões poderá ser respondida: como foram as renegociações de dívidas em curto prazo, qual foi o aumento de patrocínio, quanto foi recebido em vendas de atletas, qual foi a economia com antigos salários, etc.

Mas há um fato inquestionável: com os reforços, virão ganhos. A considerar apenas premiação do Campeonato Brasileiro, a quantia pode ser suficiente para arcar com a maior parte dos salários dos novos reforços. O 12º lugar de 2020, uma meta que era plausível ao Corinthians há um mês, renderia R$ 14 milhões. A quarta posição, algo perfeitamente factível agora, renderia R$ 28 milhões.

Isso, claro, sem considerar outros ganhos. Na quinta-feira (2), o clube esgotou a venda dos Fan Tokens, graças à empolgação dos torcedores com o atual momento. A ação levantou incríveis R$ 8 milhões em um dia, e o estimado é que cerca da metade vá para os cofres do clube. Ainda haverá ganhos com as transmissões extras, além de renegociações com patrocinadores (Positivo e Midea deverão conversar por renovação com a equipe garantida na Libertadores).

Evidentemente, a aposta depende do aspecto esportivo. Se Willian, Sylvinho e companhia fracassarem, o rombo poderá ser ainda maior e, consequentemente, a situação poderá ficar insustentável. Mas a estratégia oposta incorre no mesmo risco: um rebaixamento com um time modesto poderia ser catastrófico, especialmente com as novas regras de direitos de televisão para equipes da Série B.

O Flamengo é constantemente exaltado pelo trabalho nos anos anteriores às atuais temporadas de glória, mas o clube, esportivamente, também contou com a sorte. Vale muito a lembrança de que a equipe foi rebaixada em 2013, no primeiro ano de Eduardo Bandeira de Mello. Não disputou a Série B de 2014 porque foi salva pela bagunça do futebol brasileiro. O que seria do clube hoje caso o descenso fosse concretizado?

A discussão deverá seguir nos próximos meses, especialmente quando for mais visível o resultado da empreitada corintiana. E essa é uma questão-chave para o clube: transparência. Há um claro esforço nesse sentido, com a divulgação dos balanços, parcerias com consultorias renomadas e bom acesso da mídia aos executivos da equipe. Mas é preciso ainda mais, especialmente porque algumas receitas estão atreladas a questões incertas, como a venda de jogadores.

Para que o projeto seja bem-sucedido, é preciso provar constantemente que nada disso se trata de uma aventura. Só com essa certeza, torcedores e marcas irão, de fato, abraçar o clube mais uma vez.

Duda Lopes é fundador e CEO da Pivô Comunicação, consultor em comunicação e marketing no esporte, e escreve mensalmente na Máquina do Esporte