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Opinião / Luis Ferrari

Opinião: Automobilismo, esporte olímpico. Virtual

Luis Ferrari, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 25/05/2021, às 09h29

Imagem Opinião: Automobilismo, esporte olímpico. Virtual

No mesmo dia em que Max Verstappen levantou o tradicionalíssimo GP de Mônaco e assumiu pela primeira vez na carreira a liderança do Mundial de Fórmula 1, o automobilismo deu mais um passo decidido rumo à nova realidade da era digital.

O dia 23 de maio marcou o encerramento da fase classificatória para os Jogos Olímpicos. Em parceria inédita entre FIA (Federação Internacional de Automobilismo) e COI (Comitê Olímpico Internacional), o esporte a motor pela primeira vez na história integra o programa olímpico. E em sua versão virtual!

O game selecionado foi o Gran Turismo, menos realista que plataformas como iRacing e Asseto Corsa. Porém, é um game muito mais difundido globalmente.

Foram dez dias de seletiva mundial com os pilotos correndo contra o relógio em busca de 16 vagas para a final mundial do Olympic Virtual Series. A decisão terá três corridas em 23 de junho, o “Dia Olímpico”, data que celebra a abertura da primeira edição da Olímpiada moderna em 1894.

O Brasil será representado por Igor Fraga, piloto que foi revelado no universo dos simuladores e disputou temporadas internacionais nos autódromos do mundo real, inclusive vencendo o campeonato da Toyota Racing Series na Nova Zelândia e integrando por uma temporada o programa de desenvolvimento de talentos da Red Bull. Outros cinco pilotos do País ficaram entre os cem melhores do mundo na seletiva olímpica.

A chancela de COI e FIA –duas entidades para lá de tradicionais na cena esportiva global– ao automobilismo virtual reforça o enorme potencial desta modalidade de e-sport. O esporte a motor está numa posição singular de valorização neste panorama, por diversos fatores.

Em primeiro lugar, por um aspecto desportivo: o simulador de automobilismo é por excelência o que melhor replica as condições do esporte “de verdade”. Nenhum craque de Fifa Soccer vai sair driblando como o Neymar ou nenhum mestre de NBA 2K21 enterrando como o LeBron James. Mas os pilotos de AV (automobilismo virtual) podem sim obter sucesso nas pistas do mundo real, como já mostraram o próprio Igor Fraga e Jeff Giassi, multicampeão brasileiro de iRacing que cravou pole position em prova de 500 km da Porsche Cup em Interlagos e vai disputar o campeonato de Endurance do mundo real neste ano.

A rigor, a simulação do automobilismo é praticamente perfeita no AV. Salvo pela força G sobre o piloto, todos os demais aspectos do motorsport são realisticamente replicáveis pela tecnologia atual.

Imagem da Olympic Virtual Series do Gran Turismo
Divulgação

Outro ponto auspicioso é o tamanho da fatia do AV no universo dos e-sports. Hoje, se comparado com blockbusters como LoL, Fortnite e Counter-Strike, o esporte a motor nos simuladores é pequeno. Ou seja, o potencial de crescimento desse mercado é tremendo.

A pandemia serviu como catalizadora do desenvolvimento do AV, colocando os simuladores nas principais vitrines globais. A própria F1 realizou suas corridas virtuais na impossibilidade de promover GPs físicos nos últimos anos. Ao redor do mundo várias outras categorias seguiram o exemplo e houve inclusive pilotos perdendo patrocínios por comportamento inadequado nas competições virtuais, casos de Daniel Abt (Fórmula E), Bubba Wallace e Kyle Larson (Nascar).

No Brasil, a Porsche Cup foi pioneira na realização de um campeonato virtual inclusive promovendo a transição de seu campeão para as pistas reais conforme dito acima. A Shell em 2020 teve seu piloto oficial de AV, movimento que foi acompanhando por outros patrocinadores. Equipes de Stock Car tiveram seus representantes oficiais de simuladores e a categoria promete há dois anos uma versão digital do campeonato, que ainda não saiu do papel.

Entre os pilotos brasileiros envolvidos com o AV, destaque para sobrenomes consagrados.

Os Fittipaldi Brothers, Pietro e Enzo, promoveram campeonatos e lançaram canal na Twitch inicialmente para streaming das corridas virtuais. A iniciativa ganhou corpo e passou a transmitir corridas reais de primeira linha, com provas das categorias de base da Indycar e eventos internacionais de Endurance. O canal hoje tem 94,3 mil seguidores.

Dudu Barrichello é outro que se destaca nesse universo. Tricampeão do IRB eSport, uma das quatro maiores ligas do mundo, o piloto da Fórmula Regional Europeia integra a equipe P1Speed e é fundador do DB Desings, serviço especializado na produção de layouts para os carros de corrida virtuais.

A nova geração das pistas já identificou e explora bem o potencial do AV. E, a julgar pelas declarações de Jean Todt (presidente da FIA) e Tomas Bach (presidente do COI) no lançamento do Olympic Virtual Series, a velha guarda também já apertou o botão de “start”.

Luis Ferrari é sócio-fundador da Ferrari Promo, agência-boutique especializada em RP no esporte a motor, e escreve mensalmente na Máquina do Esporte