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Opinião / Ricardo Fort

Opinião: Brisbane 2032 e as escolhas do COI

Ricardo Fort, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 18/05/2021, às 09h35

Imagem Opinião: Brisbane 2032 e as escolhas do COI

No último dia 24 de fevereiro, o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou a escolha da cidade de Brisbane, na Austrália, como “sede preferencial” para os Jogos Olímpicos de verão em 2032. A decisão, apesar de parecer inócua, gerou um debate global com apoiadores e céticos agressivamente defendendo seus argumentos nas mídias especializadas.

De um lado o COI e seus defensores.

Historicamente, o processo decisório de quem sediaria as almejadas Olimpíadas de Verão começava onze anos antes do evento, quando iniciavam as conversas entre o COI e as cidades interessadas. Depois de uma fase preliminar de debates, onde algumas desistiam da concorrência, as restantes tinham que se comprometer a apresentar um plano detalhado das suas propostas e as garantias financeiras necessárias para receber o evento.

Nos anos seguintes, três ou quatro cidades montavam suas equipes, levantavam recursos milionários no mercado ou com seus governos, contratavam consultores especializados em concorrências, e trabalhavam duro para criar uma proposta capaz de seduzir os mais de cem membros do COI, responsáveis pela seleção.

A pomposa apresentação final, sete anos antes do evento, era um show que não devia nada à Broadway ou às produções de Hollywood. No final do dia, a ganhadora era anunciada e as outras três cidades derrotadas voltavam para casa frustradas por terem trabalhado em vão por anos. A maioria demoraria décadas para se candidatar outra vez.

Este formato, apesar de bem estruturado, gerou resultados inconsistentes. Por um lado, elegeu sedes excepcionais como Sydney (2000), Pequim (2008) e Londres (2012). Por outro, também escolheu Atenas (2004) e Rio de Janeiro (2016), cidades que deixaram muito a desejar por sua falta de experiência na execução de um evento dessa magnitude e incompetência administrativa. Em ambos os casos, os Jogos só ocorreram por intervenção internacional da administração do Comitê Olímpico Internacional.

Para o COI, este processo demorado e caro que gerava mais perdedores do que vencedores e resultados questionáveis não era sustentável.Como guardiões da marca Olímpica, era de se esperar que eles mudassem o processo para poder escolher sedes mais estáveis e que pudessem garantir a execução e receitas futuras necessárias para sustentar todo o Movimento Olímpico.

A cidade de Brisbane é a candidata preferida do COI para os Jogos Olímpicos de 2032
Unsplash

Do outro lado, há o time dos descontentes.

Eles argumentam que, até agora, qualquer cidade aspirante à sede podia concorrer em pé de igualdade com os grandes centros globais. O processo conhecido e com regras claras era um importante fator que motivava muitas cidades a se candidatar. Se elas trabalhassem bem, cumprissem todas as etapas e oferecessem as garantias, chegavam ao dia da eleição com chances reais de ganhar. Hoje isso não é mais possível.

Segundo este grupo, o novo processo decisório não oferece transparência e limita as chances da maioria de potenciais cidades-sede. Além disso, ainda há o risco de eventuais arbitrariedades no processo de escolha, uma vez que ele está limitado a um pequeno grupo de pessoas.

Em uma leitura superficial da mídia esportiva, as reclamações fazem sentido. Antes havia um processo e agora, uma simples escolha. Isso não parece justo! Antes, os membros do COI votavam e, agora, um pequeno grupo decide. Esse mesmo formato criou muitos problemas para a FIFA no passado.

Mas para entender a lógica de quem reclama, é preciso olhar de perto de onde vem estas reclamações. Neste caso, os grupos que falam mais alto são exatamente os que mais se beneficiavam financeiramente do modelo anterior. Agências e consultores especializados em concorrências para sediar eventos globais acabaram de perder seu ganha-pão. Por isso tanto barulho.

Uma das metas do plano estratégico - a Agenda 2020 - estabelecido pelo Presidente do COI, Thomas Bach, era simplificar e baratear os Jogos Olímpicos. Havia um consenso que os requerimentos e custos haviam crescido tanto, que só mesmo um pequeno grupo de países poderia sediar os eventos. O processo de candidatura era uma das áreas que precisava ser repensada. Esta decisão, apesar de não ser perfeita, resolve grande parte dos problemas.

No longo prazo, ela deve trazer excelentes resultados operacionais e financeiros para todo o Movimento Olímpico.

Ricardo Fort é fundador da Sport by Fort Consulting e escreve mensalmente na Máquina do Esporte