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Opinião / Ana Lorena Marche

Opinião: Crescimento e sustentabilidade no futebol feminino

O ano de 2021 foi novamente de quebra de recordes para a modalidade, mas como está a base de nossa pirâmide?

Ana Lorena Marche, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 28/12/2021, às 08h09 - Atualizado às 08h13

Corinthians e São Paulo, na fnal do Campeonato Paulista, teve recorde de público para o futebol feminino - Divulgação
Corinthians e São Paulo, na fnal do Campeonato Paulista, teve recorde de público para o futebol feminino - Divulgação

Com certeza o ano de 2021 foi marcante para o futebol de mulheres no Brasil. Foram muitos feitos, recordes de audiência, de público, novas marcas, naming rights de competições e eventos, novos campeonatos e novas emissoras transmitindo. Muito além de 2021, o crescimento do futebol feminino nos últimos cinco anos é notório, e o ciclo virtuoso de visibilidade gerando retorno e retorno gerando cada vez mais visibilidade está começando a acontecer e girar. O aumento de investimento, das entidades e clubes está acontecendo também, e o produto está cada vez mais bem embalado para girar ainda mais essa roda!

Contudo, temos que ter muita cautela ao analisar os números e todo crescimento, já que o retorno, principalmente financeiro, não chega na mesma proporção e ao mesmo tempo. Ainda mais quando não temos bases sólidas, somos muito instáveis e não consolidadas em algumas áreas e setores. A sustentabilidade da roda girando ainda está longe de ser alcançada, principalmente quando olhamos a pirâmide da prática esportiva como um todo. Os feitos apresentados no início do texto falam muito da ponta desta pirâmide, mas e o restante dela, principalmente na base, como estamos?

Não estou falando aqui apenas das categorias de base quando eu falo em base da pirâmide. Estou falando das equipes menores, dos Estaduais, do futebol amador, ou seja, da grande base trabalhadora e formadora de jogadoras. Formadoras não apenas das craques que irão servir os principais clubes da elite e a seleção brasileira, mas sim das jogadoras intermediárias que irão compor todos os elencos dos clubes de todas as divisões nacionais, estaduais e campeonatos não-federados. A massificação da categoria e o aumento no número de praticantes está acontecendo, porém é um processo que demora, assim como o retorno financeiro, e que precisa ser priorizado, pois sem ele não teremos sustentação a longo prazo.

Ainda temos muitas barreiras à prática do futebol feminino, temos poucos campeonatos estaduais consolidados, com calendário e número de equipes competitivas. Além disso, precisamos urgentemente descentralizar, chegar principalmente no interior do país e em todos os estados, para que a menina possa ter a possibilidade de praticar em qualquer cidade ou região. A chegada da terceira divisão nacional com certeza ajudará muito a longo prazo, principalmente nos estados menos consolidados, já que o certame de clubes na primeira e segunda divisões aumenta consideravelmente com a série A3. Lógico que ajustes precisam ser feitos, mas é um alívio ver isso acontecendo.

Precisamos solidificar ainda mais o futebol feminino, não apenas no produto que aparece na TV e que tem recordes de audiência, mas pensar em ações para sustentabilidade a longo prazo. Isso não quer dizer que os números e crescimento não sejam algo positivo, só não podemos achar que só isso basta. As falhas estruturais ainda são grandes e o caminho é longo. Muitas ações precisam ser consolidadas, mas com certeza isso só acontecerá se trabalharmos todos em conjunto e pensando de forma sistêmica, pensando sempre na estrutura como um todo, tijolinho por tijolinho.

Agradeço aqui o espaço por todas as reflexões que fizemos ao longo do de 2021, com certeza esse é um dos pilares estratégicos para sustentação de um futebol inclusivo e com diálogo entre todas as partes!

Obrigada pela parceria e até 2022, com mais e mais recordes para refletirmos!

Ana Lorena Marche é coordenadora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol (FPF) e escreve mensalmente na Máquina do Esporte