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Opinião / Ana Lorena Marche

Opinião: Diferentes caminhos para o futebol misto no Currículo de Formação

Ana Lorena Marche, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 17/06/2021, às 10h22

Imagem Opinião: Diferentes caminhos para o futebol misto no Currículo de Formação

Após a regulamentação do futebol feminino brasileiro, que aconteceu apenas em 1983, vimos o surgimento de algumas competições, principalmente regionais e adultas. Infelizmente, são poucos os relatos de competições voltadas para as categorias de base, principalmente de forma regular, com calendário definido e formato preestabelecido. Foi só em 2017 que tivemos a primeira competição federada e regular para as categorias de base no Brasil: o Campeonato Paulista Feminino Sub-17, realizado até hoje pela Federação Paulista de Futebol (FPF). Além disso, nos últimos dois anos, há competições nacionais realizadas pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e algumas estaduais que também voltaram sua atenção para a formação das atletas.

Mesmo com a criação dos primeiros campeonatos, ainda esbarramos em outros problemas, como estruturar o processo da formação de meninas, seja federativo, com competições, ou dentro de clubes e outras instituições. Não podemos copiar modelos já preestabelecidos com o futebol masculino. Temos, no futebol das mulheres, outras particularidades e contextos históricos e sociais que precisam ser levados em consideração nas estratégias e organizações propostas.

Um conceito importante, principalmente na área pedagógica e muito utilizado dentro dos clubes de futebol, é o Currículo de Formação. Ele nada mais é do que um conjunto de diretrizes e caminhos que guiam a atuação de todos os profissionais de acordo com os princípios, valores e objetivos assumidos por uma determinada instituição esportiva. A intenção aqui não é detalhar todo conceito, mas sim trazer a discussão de como esse modelo pode ajudar na organização de caminhos para a formação da atleta e mostrar alguns exemplos que podemos observar, lembrando sempre que devemos levar em consideração aspectos culturais, regionais e as peculiaridades de cada região e entidade.

Quando pensamos em currículo de formação no nível federativo, vemos alguns países que já desenvolveram um caminho a ser seguido, que com certeza guiam os clubes e as meninas sobre como ocorrerá o processo de desenvolvimento até o alto rendimento. Um exemplo interessante é o da Inglaterra. O país europeu possui um projeto que se chama FA Girls’ England Talent Pathway, no qual a Federação Inglesa desenvolveu um caminho bem delineado, desde o bairro onde a menina joga, passando pela região macro, com centros de desenvolvimento exclusivos, chegando até as seleções nacionais de categorias de base. Para saber um pouco mais sobre o projeto, acesse este link.

Um ponto muito importante dentro do projeto da Federação Inglesa, que também é utilizado por outras federações, como americana, francesa, belga, espanhola e holandesa, é com relação à utilização do futebol misto. Ou seja, a possibilidade de competições exclusivas mistas em idades menores, ou a permissão para que times femininos possam disputar campeonatos com equipes masculinas. Com esse viés proposto pelas federações, muitas equipes acabam utilizando este artifício dentro do Currículo de Formação de seus clubes, principalmente em idades menores a 14 anos, para formação de suas equipes. Um exemplo é o Arsenal, que possui um Currículo de Formação exclusivo para suas equipes femininas e disputa vários campeonatos masculinos para o desenvolvimento das jogadoras.

Equipe feminina do Arsenal disputando um campeonato Masculino/Misto na Inglaterra
Divulgação/Arsenal

No Brasil, também temos uma equipe que desafiou o sistema e conseguiu a liberação para disputar um campeonato masculino: o Centro Olímpico, da cidade de São Paulo. Em 2016, não só entrou na Copa Moleque Travesso, como sagrou-se campeão. O feito foi tão grande que virou até um filme emocionante chamado "Minas do Futebol". Boa parte dessas meninas já disputam competições nacionais e vestiram a camiseta da seleção brasileira de base e adulta.

É importante enfatizar um ponto com relação à maturação feminina, que ocorre por volta dos 12 anos, em média, e acontece mais cedo do que a masculina (média por volta de 14 anos). Pesquisas mostram que até a maturação masculina, ou seja, 14 anos, algumas variáveis físicas como altura, força, potência e os níveis de testosterona, que influenciam diretamente no desempenho, não possuem diferenças fisiológicas entre meninos e meninas. Ou seja, qualquer diferença com relação ao controle motor está relacionada, especificamente, às oportunidades de prática, à cultura, à vivência esportiva e aos estímulos que damos para cada menina e menino. Ponto bem interessante para ser pensado ao montarmos processos e diretrizes dentro de clubes e federações, não acha?

Ao introduzir a menina junto com o menino em atividades esportivas durante a infância, diversos benefícios são gerados aos praticantes, tanto para elas quanto para eles, além de minimizar a desigualdade cultural existente. Porém, quando falamos em práticas mistas, é muito importante garantirmos a segurança destas meninas no processo. Fato primordial, aliás. A relevância do professor(a) dentro do processo é fundamental, com práticas pedagógicas inclusivas – outro grande ponto que precisamos abordar. Pensando no desenvolvimento do futebol feminino de maneira geral, é muito importante que todos os professores façam mais atividades com as meninas em todos os locais. Na escola, no projeto social, no clube, entre outros locais de prática esportiva. Além disso, práticas voltadas apenas para meninas também são fundamentais, principalmente para aumentar o número de praticantes, já que muitas não ficam à vontade no meio de meninos e se sentem mais seguras nesses ambientes. Precisamos de espaços para todas!

É sempre importante lembrar que o futebol não deve ser visto apenas como uma busca cega e obsessiva para transformar crianças e adolescentes em jogadoras(es) de futebol profissional. Ensinar e aprender a jogar futebol deve fazer parte de um processo, bastante característico da cultura brasileira, que permite o desenvolvimento integral (físico, motor, cognitivo, psicológico, afetivo e social) de crianças e jovens. Não podemos cometer os mesmos vícios que os profissionais que trabalham com futebol masculino possuem. Precisamos, e devemos, respeitar todas as fases do desenvolvimento da criança, principalmente das meninas, com quem temos um grande caminho a percorrer.

Ana Lorena Marche é coordenadora de futebol feminino da FPF e escreve mensalmente na Máquina do Esporte