Opinião

Opinião: Disputa global de Adidas e Nike sufoca mercados locais

por Erich Beting
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Adidas anunciou que irá vender a Reebok.
Crédito: Reprodução
Adidas anunciou que irá vender a Reebok.
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O anúncio de que a Adidas vai vender a Reebok mostra como o movimento feito, há 15 anos, teve como consequência o enxugamento do mercado global de grandes marcas esportivas, como era o receio desde que Nike e Adidas foram às compras no início dos anos 2000.

A Reebok tinha uma enorme relevância no mercado americano quando a Adidas fez a oferta de compra, em 2005. Naquela ocasião, a marca alemã percebeu que não conseguiria entrar com mais fôlego nos EUA se não tirasse um concorrente da jogada. Foi assim que a Reebok foi comprada e, logo de cara, cedeu o contrato da NBA para os alemães. Ao mesmo tempo, como forma de “recompensar” o investimento, a Adidas praticamente entregou os pontos no futebol americano, que passou a ter como fornecedora a Nike, acabando com a relevante presença da Reebok.

Ao fazer esses dois movimentos, a Adidas acabou com o coração da estratégia da marca que havia acabado de comprar no mercado americano. A Reebok era a grande fornecedora das ligas esportivas dos EUA. A partir daí, o que se viu foi o enxugamento paulatino da atuação da empresa, que se agarrou ao crossfit como única alternativa para continuar a ser relevante no mercado esportivo.

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Agora que esse contrato também se pulverizou, a venda da Reebok a qualquer preço mostra que a Adidas conseguiu o que queria: acabou com um concorrente médio e segue com o esforço de brigar com a Nike nas principais propriedades esportivas do mundo.

O movimento de agora é muito similar ao que aconteceu há meia década quando a Nike comprou a Umbro. A marca inglesa, que tinha história e fama por fazer camisas elegantes a times e seleções específicos, foi comprada para a Nike conseguir rivalizar com a Adidas no esporte que mais vende artigos esportivos no mundo.

Foi a partir de 2007 que a Nike conseguiu contratos inalcançáveis, como com a seleção inglesa, e a Umbro foi sumindo do mapa até ser vendida, já completamente encolhida e a um preço irrisório. Agora, ela tenta se posicionar como uma marca de moda do futebol, mas sem grandes vitrines globais para isso.

Hoje, a única empresa que parece disposta a encontrar seu espaço na disputa global é a Puma, que conseguiu se estabelecer como nenhuma outra no mercado de moda e, ainda, consegue ter propriedades relevantes em alguns esportes. A Under Armour, que tentou ser uma alternativa à Reebok, tenta atualmente reequilibrar suas finanças para poder ficar como quarta força.

No final das contas, com todas essas mudanças, quem mais sofre são as entidades esportivas locais, que não conseguem se beneficiar com a disputa entre marcas esportivas, sufocadas pelas duas gigantes que agem apenas sobre as grandes ligas que possuem alcance global.

Em 2005, antes de a Adidas comprar a Reebok, o mercado de material esportivo do futebol no Brasil estava aquecido com disputas entre Umbro, Reebok, Puma, Adidas, Nike, Topper e Penalty. Hoje, apenas Umbro, Puma, Adidas e Nike ficaram. Das quatro, só Adidas e Puma têm escritórios alinhados com a matriz na Alemanha. As outras duas possuem operações nacionais de licenciamento de marca, sendo que a Nike já definiu que ficará só com grandes times e confederações.

O mercado das marcas esportivas virou uma grande disputa global, em que duas marcas tentam sufocar qualquer concorrência. Isso sufoca os mercados locais, que ficam sem alternativa para conseguir faturar mais. A venda de uma reduzida Reebok é só mais um reflexo desse pensamento.

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