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Opinião / Erich Beting

Opinião: Esporte não pode ficar alheio à política

Silêncio das entidades europeias a respeito da guerra entre Rússia e Ucrânia não cabe mais nos dias de hoje

Erich Beting - São Paulo (SP) Publicado em 24/02/2022, às 15h56 - Atualizado às 16h06

Gazprom é patrocinadora da Champions League, que tem a final da atual temporada marcada para a Rússia - Divulgação
Gazprom é patrocinadora da Champions League, que tem a final da atual temporada marcada para a Rússia - Divulgação

Recentemente, quando lançou a campanha “Santos do Mundo”, em meio aos feitos esportivos destacados em vídeo, o Santos relembrou o caso em que o clube parou uma Guerra Civil na África quando o time excursionou por lá nos anos 1960. Desde pequeno, cresci ouvindo do meu pai essa história, e ela sempre me mostrou o quanto o futebol e seus ídolos seriam capazes de mudar o rumo da História.

A UEFA convocou uma reunião de emergência para esta sexta-feira (25) para discutir a guerra entre Rússia e Ucrânia. A preocupação da entidade não é com os times russos e ucranianos que disputam suas competições nem com os atletas que atuam nos dois países filiados a ela. O que motivou o encontro é o fato de que a final da Champions League, a principal competição de futebol do mundo, está prevista para acontecer este ano na Rússia.

A entidade europeia deve tirar do país beligerante a realização do evento. Essa parece ser uma decisão óbvia. Mas será que não dava para ir além? Se, nos anos 1960, o Santos e Pelé fizeram um país ter um momento de paz só para ver o time jogar, o futebol hoje não tem ainda mais tamanho e repercussão para ser mais incisivo num movimento pela paz?

Tirar a Gazprom da lista de patrocinadores da entidade já seria uma forma de retaliar o país que agride o outro. Aplicar sanções aos times que disputam seus torneios é outra forma de agir de forma contundente. Eliminar a Rússia de competições como Euro e Copa do Mundo seria uma dura resposta a um país que inicia um conflito que pode matar milhares de pessoas.

É uma decisão radical e sem precedentes na história do esporte. Mas não seria uma excelente forma de exigir de Vladimir Putin o mínimo de cautela antes de ir para uma guerra?

O presidente russo utiliza o esporte como meio de propagar a força da Rússia. Fez os Jogos de Inverno em Sochi 2014 e levou a Copa do Mundo de 2018 para o país, além de diversos outros eventos globais. Ele sabe o poder popular que o esporte exerce.

Há décadas, o esporte se aproveita dessa condição de “queridinho” dos governos para faturar milhões e organizar megaeventos. Já passou da hora de mostrar, portanto, que ele pode ser maior do que realmente é. Ou ser do tamanho que se espera.

A UEFA e a FIFA possuem condições econômicas e políticas para colocar a Rússia contra a parede. Aplicar uma sanção esportiva ao país todo por conta de uma atitude beligerante de seu presidente pode provocar uma insatisfação grande no povo. E o temor de uma crise de popularidade é tudo o que qualquer presidente não quer para si.

É claro que o futebol é poderoso, mas não tanto assim. Mas, se os países podem boicotar a Rússia pela guerra provocada por ela, por que o futebol não pode fazer o mesmo? No mundo moderno, o esporte não pode ficar alheio à política.