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Opinião / Manoela Penna

Opinião: Esporte, substantivo feminino

Iniciativas recentes ligadas ao mundo olímpico demonstram que a equidade de gêneros é questão de tempo

Manoela Penna, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 22/10/2021, às 08h10

Futebol feminino vem ganhando cada vez mais força entre público, mídia e patrocinadores no Brasil - Reprodução
Futebol feminino vem ganhando cada vez mais força entre público, mídia e patrocinadores no Brasil - Reprodução

Muito se tem falado em igualdade de gênero. Não podia ser diferente, estamos no Século 21. Em que pesem distorções aqui, atitudes míopes e impertinentes acolá, as mulheres começaram a vestir a camisa do esporte. Para jogar na posição que elas bem entenderem.

Sou de uma época em que havia três ou quatro repórteres de campo no futebol (eu, aos 20 anos, era uma delas, certa que podia ser feliz ali, entre gols e piadinhas machistas). Eu não estranhava o fato bisonho de ter de entrar no vestiário após uma partida, jogadores nus com a mão no bolso, para buscar aquela aspa insossa sobre o resultado do jogo. O que suportamos naqueles tempos é algo impensável hoje. Felizmente.

Sempre estive certa que minha carreira tinha a ver com esporte. Talvez pelo fato de ser uma atleta apenas mediana de remo, tratei de buscar a realização do meu sonho olímpico de outra maneira. Hoje, mais de 25 anos depois do primeiro texto publicado, me perguntam volta e meia o que é preciso para ter mais mulheres no esporte.

De pronto, digo que é preciso que as mulheres sonhem e desejem o esporte com a mesma paixão e naturalidade que os homens. Mas é justo aí que precisam entrar em campo – e logo – as políticas de inclusão, de proteção e de valorização feminina nesse universo ainda tão masculino.

Estamos falando da construção de um ambiente seguro para as mulheres, livre de assédio e discriminação. Estamos falando também de abrir as portas para o mérito, independentemente do gênero. Em não torcer o nariz quando uma mulher entra em quadra para arbitrar ou senta no banco para dirigir atletas do sexo oposto.

Vou me restringir aqui a olhar com uma dose de otimismo iniciativas recentes ligadas ao mundo olímpico, sem entrar no mérito dos tantos desafios (e algumas conquistas) no futebol nosso de cada dia.

A famosa Agenda 2020 do Comitê Olímpico Internacional (COI) tem na equidade de gêneros um pilar importante. Traz preocupações tão básicas quanto o fato de o uniforme ser apropriado para mulheres ou não (coisa que, por exemplo a Aída dos Santos teve de adaptar para desfilar na Cerimônia de Abertura em Tóquio 1964, sendo a única mulher da delegação brasileira). Atenta também para a forma como as atletas mulheres são retratadas na mídia, incentiva que mais jornalistas cubram eventos olímpicos e aponta para o futuro, já fazendo dos Jogos de Paris 2024 os primeiros da história com 50% de participação de cada gênero.

Em nossas terras, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) foi finalista do Prêmio Mulher no Esporte do (COI) em 2020, reconhecimento a ações de um passado nada distante para fortalecimento do feminino no Movimento Olímpico do Brasil: uma delegação liderada apenas por mulheres (algo pioneiro no mundo) nos Jogos Sul-Americanos de Praia de Rosário 2019; a presença de ginecologista do esporte em missões olímpicas desde 2012 (outro ineditismo liderado pelo Brasil); o aumento do número de mulheres nos cursos para treinadores, gestores e atletas do Instituto Olímpico Brasileiro; a elaboração, em parceria com a ONU Mulheres, do curso de enfrentamento e combate ao abuso e assédio no esporte; mais atletas mulheres nas equipes, mais funcionárias nos bastidores e por aí vai.

A chegada da medalhista olímpica Isabel Swan ao COB este ano para liderar a área de "Mulher no Esporte" pode ser mais uma sinalização positiva de que transformar o esporte olímpico do Brasil em um substantivo mais feminino, quem sabe, é questão de tempo.

Manoela Penna é diretora de comunicação e marketing do Comitê Olímpico do Brasil (COB) e escreve mensalmente na Máquina do Esporte