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Opinião / Erich Beting

Opinião: Esporte tem chance única para reduzir centralização de verbas

Erich Beting Publicado em 24/02/2021, às 11h31

Imagem Opinião: Esporte tem chance única para reduzir centralização de verbas
O dinheiro da Lei Piva é, desde 2001, movimento de manobra política para o COB.
Crédito: Reprodução

O risco de o COB deixar de receber a verba das Loterias Caixapor conta da inexistência da Certidão Negativa de Débitos do comitê é o resumo típico do ‘puxadinho’ característico do esporte brasileiro. A dívida que o COB nunca pagou à Receita é de uma entidade que foi extinta em 2007 depois de o comitê intervir por problemas de gestão. A falta de pagamento de impostos se refere ao patrocínio de um bingo à CBVM, quando o jogo ainda era permitido no país.

Robert Scheidt foi prata em Sydney-2000 ostentando o Bingo Augusta como patrocinador. Quatro anos depois, pouco antes das Olimpíadas de Atenas, lá estava Scheidt usando seu prestígio para pedir que o governo Lula revisse o projeto de acabar com os bingos, após estourar escândalo envolvendo o ex-Subchefe da Presidência da República num pedido de propina a um dono de bingo.

O dinheiro sujo do bingo financiou, por quase uma década, boa parte do esporte olímpico brasileiro. Junto das empresas estatais, era o bingo quem bancava atletas em Olimpíadas. A alternativa encontrada pelo governo para dar mais verba ao esporte estava na Lei Piva. O repasse de uma parte ínfima do dinheiro gasto pelos brasileiros em loterias já serviu de alento para as debilitadas confederações.

Foi a partir daí, porém, que criamos um ‘puxadinho’ para resolver a situação. O repasse da verba da loteria exigia da entidade esportiva estar em dia com as dívidas públicas. Para facilitar o recebimento do dinheiro e, naturalmente, concentrar poder, o COB decidiu que seria ele a entidade a receber o repasse para, então, distribuir entre as confederações a verba.

O dinheiro da Lei Piva é, desde 2001, movimento de manobra política para o COB. Na Era Nuzman, foi bem utilizado para erguer confederações “amigas” e eliminar possíveis opositores políticos. Nunca houve um critério claro para determinar o repasse. Geralmente, o dinheiro era sempre maior para as entidades que tinham melhor performance em competições, o que gerava um desequilíbrio enorme entre as instituições.

Já desde 2018 que o COB tenta reordenar o repasse da verba da Lei Piva, trazendo critérios de boa gestão para liberar os recursos. É uma forma de tentar aumentar o sarrafo dentro das confederações e, assim, começar a melhorar como um todo o esporte. O problema, porém, é que continuamos a concentrar muito poder em uma única entidade.

O impasse de agora com a verba das loterias, ao que tudo indica, terá uma outra resolução. O COB não vai ter o governo como um pai benevolente que perdoa os erros e dá mais uma chance de se mostrar que será diferente. Pelo contrário. A tendência é de que a Secretaria Especial do Esporte endureça o jogo e faça com que o comitê finalmente assuma a dívida dos bingos, ou pelo menos faça a DR com a Receita para entender de que forma equacionar o problema.

Nesse meio-tempo, a solução é o esporte tomar uma decisão que descentraliza o poder e diversifique o repasse de verbas. É fundamental para o futuro das modalidades olímpicas o COB deixar de ser o ponto de parada de toda a verba do esporte nacional. A chance de romper com essa amarra é agora. Resta saber se as modalidades se prepararam para esse momento.