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Opinião / Ana Lorena Marche

Opinião: Fãs Fluidos e a importância da capacitação das(os) atletas

Ana Lorena Marche, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 17/08/2021, às 09h44

A forma de consumir esporte e entretenimento está mudando, e isso ficou evidente nos últimos Jogos Olímpicos. Os fãs têm procurado conteúdo por meio de plataformas digitais, conteúdos com interações, engajamento, e não apenas de forma linear, como a televisão, por exemplo, que por muito tempo foi nossa única forma de acesso ao esporte. Este padrão de consumo digital e engajamento está acontecendo em todo entretenimento e, sem dúvida, continuará no futuro. Os fãs estão cada mais participativos de todo o processo, querem fazer parte, estar junto de alguma maneira. 

Segundo o Sports Innovation Lab, que lançou o relatório "The Fan Project", nós entramos na era dos "fãs fluidos", que consomem o conteúdo através de várias plataformas, que são globais, fazem parte da narração da história, mas que, principalmente, consomem o conteúdo desses atletas também. Nossa querida colunista aqui da Máquina do Esporte, Mônica Esperidião, já fez um artigo explicando melhor sobre esse maravilhoso projeto, na coluna Esporte Feminino: contra dados não há argumentos.

Essa mudança de comportamento acabou aumentando ainda mais a importância da(o) atleta no engajamento dos fãs, ou seja, um fã não torce mais apenas para um clube de futebol por exemplo, ele também busca a história da(o) atleta nesse processo. Os personagens ganharam outros contornos com as redes sociais, muitas vezes até maior que o próprio time, mostrando a importância de capacitarmos nossos atletas para essa nova era, pois muitas vezes o que poderia ser benéfico, pode ser muito ruim para a carreira. Quando pensamos em capacitação, principalmente em redes sociais, engajamento com fãs, propagandas, entre outros na área de marketing, pensamos apenas nos famosos "media trainings" que uma grande parte dos clubes fazem com seus atletas, com a presença dos assessores dos clubes ou pessoais, ajudando na contagem dessas narrativas. Iniciativas como essa com certeza são de suma importância na capacitação, e inclusive a Federação Paulista de Futebol (FPF), no ano de 2020, fez duas capacitações exclusivas para as atletas do Paulistão Feminino, uma dentro do Programa de Marcas Pessoais e outra com o patrocinador da época. Mas já paramos para pensar na importância do incentivo ao estudo de forma geral, como cursos técnicos, faculdades, entre outros, principalmente após esses atletas acabarem o ensino básico e como isso pode ser essencial, principalmente agora que eles são o centro da atenção, mesmo após encerrarem a carreira?

A capacitação desses atletas não deve acontecer apenas durante a formação deles nas categorias de base, com a educação básica, que é obrigatória em nosso país, como comumente acontece em quase todos os esportes. Falo aqui da importância da educação continuada, que pode acontecer de diversas formas, e não apenas até o início da idade adulta. Infelizmente, por conta do calendário de jogos, rotina extenuante, muitos desses(as) jovens abandonam a educação formal e a maior parte que consegue terminar essa fase, não procura outra forma de estudo.

Esse cenário, aliás, não é visto apenas no Brasil, pois segundo a Federação Internacional de Jogadores Profissionais (FIFPro), apenas 13% dos jogadores europeus terminaram algum curso após a educação formal, sendo que a média normal da população europeia masculina, por exemplo, é de 53%. No Brasil, em uma pesquisa inédita da Federação Paulista de Futebol, realizada este ano com jogadores do Paulistão Masculino das Séries A1, A2 e A3 e com as jogadoras do Paulistão Feminino adulto, foi observada uma tendência muito parecida. Apenas 9% deles terminaram algum ensino superior, ou seja, trata-se de um cenário mundial no futebol sobre o qual precisamos estar atentos.

Queremos atletas mais engajados, atuantes em diversas formas, mas não estamos, em nenhum momento, oferecendo ferramentas para que eles possam se capacitar e fazer parte dessa nova narrativa que estamos vivendo, da melhor maneira possível, para que eles possam ser cada vez mais autênticos e saber a consequência que uma opinião ou atitude pode causar, seja ela social ou política. Isso sem contar que a vida como atleta é curta, e temos que pensar no pós-carreira, principalmente desses atletas que precisarão de outra renda após a aposentadoria.

Nossa relação com os fãs está mudando, portanto está mais do que na hora de mudarmos nossa relação com as(os) atletas desde o início, uma vez que a educação faz parte desse produto e da narrativa que iremos contar!!

Ana Lorena Marche é coordenadora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol (FPF) e escreve mensalmente na Máquina do Esporte