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Opinião / Erich Beting

Opinião: FIFA montou estratégia de guerra para Copa bienal

Se a Copa do Mundo a cada dois anos for aprovada sem sustos, entidade terá feito um excelente trabalho de relações públicas

Erich Beting - São Paulo (SP) Publicado em 25/10/2021, às 09h17 - Atualizado às 09h27

Gianni Infantino, presidente da FIFA, vem fazendo um trabalho magistral de relações públicas por Copa bienal - Reprodução
Gianni Infantino, presidente da FIFA, vem fazendo um trabalho magistral de relações públicas por Copa bienal - Reprodução

A Copa do Mundo a cada dois anos parece, a cada dia que passa, ser uma realidade plausível. E, para que o desejo se concretize, a FIFA armou uma estratégia de guerra que, a depender do resultado futuro, poderá se tornar um dos melhores cases de comunicação no esporte da história.

Mas, para entendermos melhor o que está por trás do projeto de uma Copa bienal, precisamos entender primeiro o final para perceber com clareza o passo a passo.

Por que mudar a Copa do Mundo para um evento bienal? Bom, de toda a receita conquistada pela FIFA quadrienalmente, cerca de 85% vêm da Copa. A competição é o maior produto de marketing e mídia que a entidade possui. Assim, a ideia de fazer dois Mundiais a cada quatro anos tem como premissa gerar o dobro de dinheiro para a FIFA nesse período.

Por que isso é necessário? Porque a Copa do Mundo perdeu, nos últimos tempos, relevância. Os escândalos de corrupção envolvendo Joseph Blatter e companhia minaram a FIFA, que viu uma fuga de patrocinadores de credibilidade, o que levou a uma queda de receitas em 2018. Ao mesmo tempo, a Champions League e a UEFA se fortaleceram a tal ponto que a entidade europeia arrecada com a competição, por ano, o que a FIFA ganha com uma Copa do Mundo.

Por uma questão econômica e marqueteira, a FIFA precisa mudar o seu calendário e mexer radicalmente com seu torneio mais importante. Mas como fazer isso sem perder a opinião pública e não repetir, com esse projeto, o fiasco que foi a Superliga europeia?

O primeiro passo dado pela FIFA para criar um amplo projeto de comunicação que ampare a decisão foi criar um projeto técnico que justifique a mudança. Arsène Wenger, o francês megatreinador do Arsenal, foi incumbido da tarefa. Montou um projeto para mostrar que, tecnicamente, o futebol tende a evoluir se fizermos uma Copa a cada dois anos. E com 48 seleções!

O segundo momento do programa da FIFA foi reunir alguns dos principais nomes históricos do futebol para apresentar o projeto e tê-los como apoiadores da proposta. Ícones como Ronaldo e Roberto Carlos estiveram presentes na reunião que aconteceu, não por acaso, no Catar, país-sede do próximo Mundial.

Depois de “convencer” as lendas do futebol, a FIFA colocou em ação o terceiro passo da estratégia de comunicação. Passou a levar o debate para os veículos de imprensa. Foi aí que algumas entidades começaram a se opor publicamente ao projeto.

A FIFA deixou os dirigentes falarem, especialmente UEFA e CONMEBOL, que sabem que o projeto mina, diretamente, a força de suas competições de clubes. Champions League e Libertadores ficam menos importantes se, a cada dois anos, tivermos uma Copa do Mundo. Isso significa mais verba de direitos de mídia, patrocínio e licenciamento para ser dividida. A briga, mais uma vez, é por dinheiro e poder, não por uma questão técnica.

Na semana passada, o quarto passo foi dado. A FIFA anunciou que fará uma apresentação para os treinadores das seleções para mostrar o projeto de calendário com uma Copa do Mundo a cada dois anos. E, depois, abrirá um Congresso mundial, em 20 de dezembro, para que diversos segmentos do mercado possam debater o projeto.

Até lá, a FIFA vai medindo a temperatura do mercado. A decisão, internamente, está tomada. Politicamente, a entidade também soube fazer o trabalho de convencimento. Hoje, só UEFA e CONMEBOL são opositoras à proposta. Mas, em uma Assembleia Geral, só as duas mais tradicionais entidades de futebol não são suficientes para manter tudo como está. Os beneficiados com uma Copa a cada dois anos, vale frisar, são também as confederações menores, que não ganham tanto quanto as correlatas da Europa e da América do Sul e, assim, poderiam ver mais verba bienalmente do que veem hoje quadrienalmente.

Mas por que, então, não referendar de uma vez o projeto? O que a FIFA quer, está claro, é evitar o desgaste que os grandes clubes globais tiveram ao anunciarem a Superliga e precisarem recuar após uma gigantesca crítica popular, especialmente na Inglaterra.

Não fosse a guerra de egos e por dinheiro entre FIFA, CONMEBOL e UEFA, a Copa a cada dois anos já estava sacramentada. Para evitar qualquer desgaste, a FIFA decidiu armar um ótimo plano de relações públicas para convencer o futebol de que aquilo que será melhor para ela seja encarado como a melhor solução também para o futebol.

Em tempo: sou muito favorável a uma Copa do Mundo sendo disputada a cada dois anos. O que menos precisamos no calendário do futebol de seleções é de Eliminatórias modorrentas, amistosos caça-níqueis e torneios sem o menor sentido. Tudo isso só faz com que tenhamos uma crise depressiva durante quatro anos até a próxima Copa do Mundo. Imagine se transformássemos a Copa América nas Eliminatórias e fizéssemos dela um torneio que realmente tivesse algum sentido para os competidores?