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Opinião / Sergio Patrick

Opinião: Futebol e Identidade

Sergio Patrick, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 14/05/2021, às 08h58

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Se você abrir o livro do centenário do meu time de coração, vai encontrar uma página com o meu nome. Nela, falo sobre meu irmão, meu pai e meu avô paterno, e da relação da história da minha família com a história do Palmeiras e do futebol como família e identidade - um local, uma cor e uma história.

No mesmo ano de 2014, me mudei pra Nova York. Lá conheci um dos mais fanáticos torcedores de futebol que já encontrei. Sabe toda a história do Manchester United. Veste a camisa, usa capa de celular do time. Não perde um jogo, está todos os sábados no Smithfield Hall, onde os torcedores do gigante inglês se reúnem para acompanhar as rodadas da Premier League em Manhattan. Meu amigo nasceu na Índia, é casado com uma chinesa e mora no Brooklyn. Nunca pisou em Old Trafford.

O mundo ficou muito pequeno muito depressa. Em 1986, meu pai teve que ir ao Palestra Itália para me comprar uma camisa oficial de presente de aniversário de nove anos. Não havia loja, quem vendia as camisas usadas em jogos era o roupeiro do time. Em 2008, vi camisas e jaquetas do meu time à venda em Pequim, na China, e em Madrid, na Espanha. Nos anos 80, vibrávamos com um jogo por semana do futebol italiano na tela da Band. Hoje, todos os jogos de todas as ligas estão ao alcance de um clique.

A discussão sobre o propósito dos clubes a partir do lançamento da Superliga Europeia é uma consequência dessas mudanças. Aqui nos EUA, foi possível observar nas redes sociais fãs perguntando o motivo da reação contrária tão forte. O esporte americano é focado em negócios. Times frequentemente mudam de cidade em busca de um mercado que proporcione mais receita ou de acordos mais favoráveis com governos locais para construção de novos estádios. Aconteceu recentemente com St. Louis, San Diego e Seattle.

Também aqui nos EUA, tivemos recentemente o caso de Columbus, que não aceitou a mudança da franquia da Major League Soccer (MLS) para Austin. O movimento formado por torcedores e empresários locais venceu a disputa. Eu estava morando na cidade quando tudo aconteceu. Foi incrível ver a mobilização em torno do Crew. O movimento trouxe à tona a questão sobre o propósito dessas organizações.

Torcida do Columbus Crew, da MLS, fez campanha dentro de estádio para que o time não fosse embora da cidade

Uma das reclamações dos torcedores de Columbus foi de que o antigo dono, Anthony Precourt, não tinha raízes na cidade e, por isso, não entendia o significado do clube. Qualquer semelhança com o protesto dos torcedores do Manchester United contra os donos americanos não é mera coincidência. Afinal de contas, para que serve um clube?

No caso de Columbus, a conclusão foi de que ele serve à comunidade como instrumento da identidade local. Para os gigantes europeus que formaram a Superliga, o foco foi muito mais o torcedor global e o potencial de venda de camisas na China e direitos de transmissão no Brasil do que o fã local, que toma sua cerveja perto do estádio em Manchester ou Liverpool.
Na ressaca do desastrado anúncio, deixo aqui algumas perguntas e uma impressão sobre o futuro. Estamos presos ao passado quando queremos o futebol raiz? Seria a Superliga uma consequência das mudanças do mundo? Qual a diferença entre um fã do ManU que segue o time pelas redes sociais na Indonésia, vê jogos e compra camisas o doutro que mora na Inglaterra?
Para não terminar sem minha opinião, não gosto da Superliga como foi concebida e muito menos de como foi anunciada. Mas é fato que as mudanças no mundo vão mudar também o futebol.

Sergio Patrick é jornalista especializado em comunicação corporativa e escreve mensalmente na Máquina do Esporte sobre o esporte nos Estados Unidos