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Opinião / Erich Beting

Opinião: Gabigol age como se o mundo fosse ignorante

Erich Beting Publicado em 15/03/2021, às 13h01

Gabigol não está sabendo lidar com seu gol contra. O jogador que ganhou o Brasil e a maior torcida do país nos últimos dois anos deu uma tremenda bola fora ao ser pego dentro de um cassino clandestino em meio à fase mais aguda e perigosa da pandemia do coronavírus. E, para tentar se redimir do erro que fez, qual foi a estratégia montada por Gabriel e seu staff?

Uma entrevista ao Fantástico, em que admitiu o erro, mas saiu com uma desculpa absurda de que tinha sido convidado pelos amigos para ir jantar e não sabia que estava entrando num cassino clandestino.

Gabigol voltou ao começo dos anos 2000 em sua estratégia de gerenciamento de crise, prova de que a pretensa maturidade que ele e seu staff vinham mostrando nos últimos tempos é muito mais fruto da boa fase dentro de campo do que realmente de capacidade de trabalho.

Ser bom quando a bola entra é fácil. Na hora da crise é que se descobre se o trabalho é realmente profissional.

“É para o Fantástico?”. A pergunta-bordão do Casseta e Planeta remontava a uma época, no final dos anos 90 e começo dos anos 2000, em que o programa dominical da Globo era o líder em audiência e símbolo de status para quem aparecia por lá. Tanto que a piada do Casseta era sempre de alguém que sofria alguma acusação e se referia ao programa como algo bom de se estar.

Em 2008, quando foi flagrado com travestis dentro de um motel, o atacante Ronaldo, então sem clube, usou o “Fantástico” para dar sua versão sobre o fato. Naquela época, não existia Twitter, Instagram, TikTok e quetais. Os smartphones começavam a se popularizar com o iPhone. Nesse contexto, a mídia ainda era o “veículo oficial” para declarações/entrevistas de celebridades. E o Fantástico era o local ideal.

Quase 15 anos depois, o mundo mudou absurdamente. Gabigol e seu staff, porém, ainda acham que a gestão de crise se faz a partir de declarações estapafúrdias para o Fantástico. Ou, então, agem como se o mundo fosse ignorante.

O mínimo que se esperava do maior ídolo do futebol brasileiro na atualidade era a atitude digna de um jogador profissional. Na NBA, quando Rudy Gobert, pivô francês do Utah Jazz, tocou nos microfones de jornalistas para ironizar o Covid-19 e, dois dias depois testou positivo para a doença, o comportamento foi completamente diferente. Arrependido, ele pediu desculpas pelo ato, disse que esperava que servisse de lição e doou US$ 500 mil para os trabalhadores afetados pela paralisação da NBA.

Por aqui, Gabigol tentou ainda se defender, afirmando que “não fez nada de errado na quarentena” exatamente para justificar que tinha furado as restrições de saúde impostas pelo governo paulista e, pior, comparecido a um lugar para a prática ilegal de jogo.

Dizer que os amigos influenciaram a decisão é tão estúpido e mentiroso que se torna inaceitável. O problema é que, para variar, o Flamengo, clube que emprega o jogador, fará vistas grossas para o caso, sem exigir do atleta uma atitude verdadeiramente profissional.

Em 2008, ao Fantástico, Ronaldo encerrou a entrevista sobre o caso dos travestis dizendo que “é só voltar a jogar e fazer meus golzinhos que o pessoal logo esquece”. Da mesma forma que o mundo da mídia mudou nos últimos 13 anos, resta saber se o comportamento do torcedor também mudou...