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Opinião / Adalberto Leister Filho

Opinião: Gerir um clube de futebol não é como gerir uma empresa

Há valores intangíveis que não foram levados em conta com saída de goleiro Fábio do Cruzeiro

Adalberto Leister Filho - São Paulo (SP) Publicado em 06/01/2022, às 12h59

Ronaldo tomou sua primeira medida impopular à frente do Cruzeiro ao não renovar o contrato de Fábio - Reprodução
Ronaldo tomou sua primeira medida impopular à frente do Cruzeiro ao não renovar o contrato de Fábio - Reprodução

As SAFs (Sociedade Anônima do Futebol) viraram a panaceia para todos os problemas de gestão dos clubes brasileiros. Muitos já estavam fragilizados financeiramente e a pandemia, com todas as limitações que impôs, só contribuiu para piorar a situação econômica de equipes tradicionais como Botafogo, Cruzeiro e Vasco. Sem ser coincidência, todas disputaram a Série B do Brasileirão na última temporada.

Por isso, é visto como a solução a venda da SAF do Botafogo ao investidor norte-americano John Textor. E foi comemorado pelos cruzeirenses a venda do clube para o ex-atacante Ronaldo Nazário, que começou a carreira justamente no time mineiro.

Para quem está entrando no negócio, porém, é preciso lembrar que um time de futebol é diferente de qualquer outra atividade econômica. Marcas como a Coca-Cola podem ser conhecidas e apreciadas no mundo todo, terem consumidores fiéis, mas não fãs apaixonados. Isso é um privilégio que apenas setores especiais da sociedade, como o esporte, proporcionam.

Um clube de futebol brasileiro hoje é resultado de valores construídos muitas vezes ao longo de mais de 100 anos de atividade que vão muito além das quatro linhas: respeito, democracia, luta contra o racismo e pela inclusão, etc.

Há patrimônios intangíveis, para usar um termo da moda, como a idolatria da torcida a determinados craques, do passado ou do presente. Em tempos de fraco desempenho esportivo, um clube sempre pode evocar um passado glorioso, como foi o Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha ou o Cruzeiro de Tostão. Quem gosta de futebol não tem como não se encantar por equipes mágicas como foram essas.

Num período de crise, em que terá que disputar pela terceira vez seguida a Série B do Brasileirão, o Cruzeiro podia se dar ao luxo de contar com o goleiro Fábio, um dos maiores ídolos da história do time.

Fábio tem hoje um tamanho maior do que ídolos do passado na posição, como Raul, Dida ou Gomes. Aos 41 anos, tinha como objetivo final da carreira recolocar o Cruzeiro na Série A do Brasileirão. É inegável sua liderança no grupo, identificação com a torcida e capacidade, apesar da idade avançada para um jogador de futebol.

O Cruzeiro fez péssima temporada em 2021. Não chegou nem à final do Campeonato Mineiro. Foi eliminado na terceira fase da Copa do Brasil pelo modesto Juazeirense. Não passou da 14ª posição na Série B do Brasileirão, ficando a apenas cinco pontos da zona do rebaixamento.

Fábio esteve longe de ser o responsável por isso. Uma sequência de troca de treinadores, limitações no elenco e falta de planejamento fizeram o time naufragar no mesmo momento em que o Atlético-MG, maior rival, festejava uma temporada perfeita, com os títulos do Campeonato Mineiro, Copa do Brasil e Brasileirão.

Embora tenha lembrado a idade avançada de Fábio em seu comunicado sobre a saída do jogador, o Cruzeiro não parece se importar muito com a faixa etária dos jogadores da posição. Afinal, um dos reforços já anunciados foi justamente outro goleiro veterano, Jailson, de 40 anos, ex-Palmeiras.

Por sinal, o Palmeiras foi muito mais elegante ao se despedir de ídolos veteranos do elenco nesta temporada, como Felipe Melo, 38, Willian, 35, e o próprio Jailson.

Fica muito difícil justificar para a torcida, mais importante ativo de um clube de futebol, que o Cruzeiro estava disposto a um “sacrifício econômico” para manter Fábio até o final do Campeonato Mineiro, dizendo que “a proposta  respeitava sua relevância e admirável história de 18 anos no clube”.

O jogador afirmou, em suas redes sociais, que estava disposto a se adequar ao teto salarial do clube, mesmo já tendo acertado as bases de renovação com a diretoria antes da venda da SAF do Cruzeiro. Ou seja, estava disposto a ganhar menos pelo sonho de ajudar o clube a voltar à elite. Oportunidade que lhe foi negada como se 18 anos de dedicação, algo raríssimo no futebol, não fossem credenciais suficientes.

É um erro grave de gestão. Não se trata um ídolo assim.