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Opinião / Monica Esperidião

Opinião: Gestão de carreira no futebol feminino: sim, existe!

Lateral-esquerda Tamires e assessora de comunicação Kin Saito Diniz falam sobre o assunto

Mônica Esperidião, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 21/09/2021, às 09h20 - Atualizado às 09h20

Assessora de imprensa Kin Saito Diniz e jogadora Tamires posam com a camisa dos 100 jogos dela pela seleção - Divulgação / Rioscom
Assessora de imprensa Kin Saito Diniz e jogadora Tamires posam com a camisa dos 100 jogos dela pela seleção - Divulgação / Rioscom

Nos últimos dias, vimos no site da Máquina do Esporte, nas redes sociais e recebemos nos grupos de WhatsApp o anúncio oficial de que Tamires é a nova embaixadora global da Gatorade. Feliz com a notícia, a primeira coisa que fiz foi mandar uma mensagem para a assessora de comunicação da jogadora, parabenizando-a pela conquista! Mas como eu não me dou por satisfeita, logo lhe enviei outra: quero te entrevistar! E ela perguntou: quem, eu? E eu: sim, Kin, você. E a Tamires também, claro. Mas quero falar contigo porque quero tentar mostrar aos leitores da Máquina do Esporte que existe profissionalismo no gerenciamento de carreira de uma jogadora de futebol feminino no nosso país e que é possível colher frutos, a partir do momento que se trabalha com seriedade, dedicação e normalidade.

Bom, como a Kin é muito profissional, além de ser uma fofa de pessoa, topou minha ideia louca. Sinceramente espero atingir o objetivo de dar luz a um trabalho bem feito e a uma parceria das que deveríamos nos inspirar.

Kin Saito Diniz

Jornalista

Coordenadora de Atletas & Talents Octagon

Coordenadora de Comunicação RiosCom

  1. Como e quando esta parceria entre você e a Tamires começou? Você também trabalha pensando no pós-carreira dela?

Falando do plano geral: o contexto que levou ao início desse trabalho com a Tamires passa por uma lacuna que ainda existe no mercado do futebol feminino, mas está em constante evolução. Em julho de 2017, quando completei dois anos de estágio no Departamento de Comunicação da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), era difícil identificar jogadoras no topo da pirâmide com um profissional dedicado às necessidades da assessoria de imprensa, relações públicas e gestão de imagem. O que se via, em grande parte, era a presença de um empresário que "joga" em todas as funções: transferências, comercial, assessoria, financeiro... 

Eu via uma oportunidade de contribuir com o processo de desenvolvimento do futebol feminino e seguir atuando nos bastidores da comunicação. Então, tomei a decisão de investir meu tempo, esforços e o início da minha trajetória profissional nessa lacuna de profissionalização, e crescer junto à modalidade. Eu estava com 22 anos quando entrei na RiosCom e encontrei o incentivo do Victor Rios (CEO) para transformar essa visão em estratégia e negócio. Não era somente sobre planejamento e gestão de comunicação que poderíamos fazer pelas jogadoras, mas principalmente sobre o propósito em comum entre a agência e essas atletas: deixar um legado para o futebol feminino.

Quando a Tamires retornou ao Brasil para jogar no Corinthians após quatro temporadas na Dinamarca, começamos essa construção. Ela é muito consciente do momento que vive a modalidade no Brasil e no mundo, e sabe que pode ajudar dentro de campo e fora dele. A motivação dela pós-Copa do Mundo de 2019 era fazer parte do desenvolvimento do futebol feminino brasileiro e ser uma voz ativa desse processo. 

A noção de planejamento a longo prazo foi um ponto-chave. Foi com essa mentalidade que criamos os caminhos a serem alcançados, sempre em conjunto com a Tata. Nós entendemos quais são as aspirações pessoais e profissionais dela, e para o futuro do futebol feminino, e buscamos estruturar os pilares ao redor a partir daí. Em pouco mais de dois anos, ela abriu portas para si mesma, mas também para a atual e para as próximas gerações. A RiosCom é responsável pela gestão de comunicação, o R9 Family Office pela gestão patrimonial e financeira, e a Octagon Brasil pela gestão comercial e de imagem. São estruturas independentes e especializadas, cada uma representando uma frente de trabalho, e, ao mesmo tempo, todas interligadas pensando na carreira da Tamires e nas necessidades da modalidade.

Ronaldo e Tamires - Acordo de gestão de carreira global da jogadora

Ronaldo e Tamires - Acordo de gestão de carreira global da jogadora

  1. Como foi para você trabalhar a imagem da Tamires e todos os seus papéis de mãe, jogadora, mulher? Enfim, poder levar ao conhecimento de todos: a Tamires mais que “a única jogadora mãe da seleção”? 

O primeiro ponto foi ouvir a Tamires. Como ela percebia a própria imagem, o que ela gostaria de contar e transmitir, e quais eram os objetivos. Em paralelo, nós também fizemos esses diagnósticos, mapeamos todo o histórico, entendemos os temas mais comuns e focamos no que poderíamos fazer de diferente. Foi um processo para evoluir as perguntas que eram feitas e proporcionar novos ângulos. Mostrar que ela também pode e quer falar de outros assuntos, inclusive de performance, de tática, de plano de jogo, de futebol.  

Enfim, é um trabalho proativo de propor pautas, cenários e ações que ajudem a cumprir objetivos maiores de posicionamento, e, ao mesmo tempo, um trabalho reativo de buscar atender as demandas e ilustrar que existem outras oportunidades para agregar valor à história.

  1. Sabemos que conseguir um contrato de embaixadora global, como este da Tamires com a Gatorade, não é da noite para o dia. Como foi esse processo?

Eu acabo voltando na palavra "construção", pois a assinatura realmente é uma consequência de todos os passos que foram dados anteriormente. E, nesse caso, estamos falando de alguns meses de negociação liderada pela área de Atletas & Talents da Octagon Brasil. Aqui eu faço parte de um time especializado em prospecção e gestão comercial, e todo esse movimento começa com uma imersão no perfil do atleta e do mercado.

Nós entendemos que o futebol feminino também vem se solidificando enquanto produto, mostrando que o investimento de marcas é cada vez mais atrativo e necessário, e que as atletas são excelentes ativos para dar voz (e imagem) a esse processo. No caso da Tamires como embaixadora global da Gatorade, a legitimidade dela viver os valores da marca teve um grande peso, além de ser um produto que faz parte da história e da rotina dela. 

Tamires para Gatorade. Crédito: Vitor Milanez

Tamires para Gatorade. Crédito: Vitor Milanez

Como você disse, não é do dia para a noite, mas fica aquela sensação de que portas estão se abrindo para as mulheres do futebol, para muito além de nós.

  1. Kin, você é uma das poucas no mercado gerenciando imagem de atleta. Como foi isso desde o início e, para você, quais são as grandes conquistas, mas também quais os principais desafios de gerenciar a imagem de uma atleta do futebol feminino hoje?

É sempre um exercício olhar para o passado e tentar perceber quais influências me moldaram. Meu pai jogava futebol comigo, e a gente assistia a tudo que os canais esportivos tinham para mostrar. Eu tive professores de educação física que também oportunizaram o futsal para as meninas, e uma escola que dava a mesma estrutura para a gente treinar e competir. Cresci vendo, mesmo que em menor número, futebol feminino e mulheres na TV. 

Mas acho que o divisor de águas foi a Copa do Mundo de 2014. Eu tinha 18 anos, estava prestes a estudar Jornalismo, e resolvi bater na porta da Granja Comary para ser voluntária no período do Mundial. Sem contatos, sem referências, só na coragem mesmo de quem não tem nada a perder. Lembro de ter falado "eu não quero ver os jogadores, quero ver os jornalistas na coletiva". E deu certo. Não pela CBF, mas pela agência de marketing que atende a CBF. Fiquei de março a julho completamente mergulhada na máquina que é um media center em época de Copa, e ali percebi que os bastidores, especificamente a assessoria de imprensa, era o meu hábitat. Tempos depois, em 2015, veio o convite da Confederação para participar do processo seletivo que iria abrir para a primeira turma de estagiários do Departamento de Comunicação. 

As grandes conquistas são todas essas oportunidades que as pioneiras deixaram para a gente poder usufruir hoje. Então, continuar o legado de quem se dedicou anos, até mesmo quando proibiram mulheres de jogar, é aquela motivação a mais. E, em pleno 2021, a gente também está tendo a chance de abrir precedentes e criar novos caminhos. Já os desafios passam pela mudança de percepção, e aí pode ser tanto do ecossistema do futebol, como da sociedade. É preciso calibrar alguns olhares para as tendências de profissionalismo, igualdade e senso de oportunidades.

Kin e Tamires. Crédito: Livia Villas Boas - Staff Images Woman

Kin e Tamires. Crédito: Livia Villas Boas - Staff Images Woman

Tamires Cássia Dias Gomes

Primeira atleta e mãe com mais de 100 jogos pela seleção brasileira de futebol feminino

Atleta do Corinthians 

  1. Eu lembro de você aparecer em notícias sempre com o clichê “a única mãe da seleção”. Como era isso para você? Incômodo e decepção por não darem foco na sua carreira como jogadora ou orgulho e sentimento de supermulher por conseguir compaginar esses dois papéis muito bem?  

Eu tive fases e fases na minha vida. Lembro que no meu retorno ao futebol era muito natural contar sobre o processo de gestação do Bernardo e sobre os momentos de cuidado. E eu entendia que tratar abertamente sobre como conciliar a carreira de jogadora com a maternidade era uma forma de deixar uma referência de que era possível. Mas, com o passar dos anos, as pessoas foram vinculando a minha imagem somente à maternidade. As pautas e perguntas eram muito voltadas a ser mãe, e o Bê já estava com 9, 10 anos... 

Bernardo e Tamires. Crédito: Livia Villas Boas - Staff Images Woman

Bernardo e Tamires. Crédito: Livia Villas Boas - Staff Images Woman

A Copa do Mundo de 2019 foi um ponto de virada. Coloquei essa meta para mim mesma de que também seria vista como a Tamires atleta. Eu sigo respondendo a todas as perguntas que me fazem sobre a maternidade, porque faz parte da minha vida e amo ser mãe, mas também sei que existe o momento certo para falar sobre cada assunto. 

  1. Agora as coisas estão mudando no cenário do futebol feminino como um todo, e você está sendo um exemplo para muitas meninas e mulheres também. Quais as grandes conquistas na sua visão e quais são os principais desafios que você acha que as jogadoras de futebol feminino estão enfrentando em termos de imagem atualmente?

A visibilidade e os investimentos, ainda que em passos gradativos, têm acontecido. E a gente tem que sempre agradecer pelo que conquistamos, aprender com o que já vivemos e mirar onde podemos chegar. As atletas estão com a mentalidade de crescimento, e temos profissionais capacitados para ajudar nesse desenvolvimento. Se você olhar para a base do futebol feminino ou para os departamentos específicos, essas também são grandes conquistas para a imagem e o futuro da modalidade. E aí existe também todo um universo que corre em paralelo, e é muito importante, de patrocinadores e marcas querendo fazer parte desse momento e usar a voz das atletas. E sobre os desafios, acho que a gente sabe que tudo vai ter um tempo certo. 

     3. O patrocínio da Gatorade é uma grande conquista pessoal e coletiva. O que você espera dessa parceria? 

Eu espero ser uma porta-voz para a Gatorade, alguém que está abraçando os valores da marca porque são coisas que eu também vejo na minha trajetória. De representar tudo que eles têm na essência, de determinação, de dedicação, energia, e também de incentivar muitas pessoas a praticar atividades e suar pelo caminho (risos). E também espero que isso possa simbolizar uma porta que está se abrindo para outras meninas e mulheres, de sonhar com tudo que podemos conquistar com o futebol feminino.

     4. E sobre ser embaixadora da CBF Academy? Como surgiu tudo isso? Tem a ver com sua preparação para o pós-carreira de jogadora? Quais são seus planos para o pós?

Tamires - Embaixadora CBF Academy

Tamires - Embaixadora da CBF Academy

Eu tenho essa vontade de seguir ajudando o futebol feminino no pós-carreira e já tinha feito alguns cursos da CBF Academy sobre características de treinamento do futebol feminino e planejamento de carreira. Sei que a capacitação é um caminho natural e muito importante para quem quer atuar no esporte profissional, então foi uma honra receber o convite para ser embaixadora. Estamos apenas começando, mas muito animada para levar adiante essa mensagem, divulgar as oportunidades de estudar o futebol e falar sobre a importância de se capacitar. 

Eu me vejo mais envolvida com a possibilidade de, no futuro, seguir numa área técnica, mas é o tipo de decisão que sei que posso tomar com calma. Na Dinamarca, fazia parte da programação do clube algumas atletas darem treinos em camps para meninas da escola da cidade. E desde lá é algo que eu sinto que gosto. 

A cada dia aprendo algo novo, já estou fazendo a Licença B, mas sigo focada no que eu amo, que é estar em campo e jogar futebol. Tenho os meus objetivos como atleta e uma visão para o pós. Vou seguir trabalhando e me dedicando, aproveitando as oportunidades e buscando o meu melhor para ajudar o futebol feminino da forma que eu puder.

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Bem, eu já disse algumas vezes e repetirei: tudo está mudando e evoluindo muito rápido, mas não chegamos aqui da noite para o dia. Parafraseando o slogan da campanha que nossa jogadora entrevistada representa: “O suor é o caminho para a sua grandeza”, by Gatorade.

O vídeo da campanha pode ser visto aqui

Mônica Esperidião Hasenclever é especialista em gestão e marketing esportivo, CMO da Leadership Woman Football, diretora da LWF Academy e cofundadora da WES. Tem como propósito promover a visibilidade da mulher e a inclusão da diversidade em todos os âmbitos e áreas do esporte, e escreve mensalmente na Máquina do Esporte.