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Opinião / Duda Lopes

Opinião: Ignorar o fanático é erro constante no futebol profissionalizado

Duda Lopes Publicado em 07/05/2021, às 10h19

Imagem Opinião: Ignorar o fanático é erro constante no futebol profissionalizado
Protesto contra a família Glazer no Manchester United vem exatamente do fã que mais consome o clube
Reprodução

Há um certo consenso dentro da gestão de marcas esportivas, especialmente no futebol, que o trabalho deve sempre ir além do fã mais fanático. Para o segmento ser mais sustentável, é preciso chegar àquele que, em um domingo à tarde, irá ponderar entre a ida ao estádio ou ao cinema. Será com esse novo público que haverá vendas crescentes, seja em produtos licenciados ou em tíquetes. 

O problema acontece quando o torcedor mais próximo é ignorado.

Deixar o mais fanático de lado leva a dois problemas básicos para o futebol. O primeiro é que esse fã é o ‘brand lover’. É aquele consumidor sonhado por qualquer marca de qualquer outro segmento, mas que o futebol estranhamente ignora. Esse fã não considera ir ao cinema. Ele será sócio do clube e irá em todos os jogos da temporada. E comprará produtos constantemente. E vai abrir mão do HBO para ter o Premiere. É ele a principal fonte de renda do clube.

O segundo problema é que será esse torcedor fanático quem gerará um enorme barulho a cada presepada realizada pelo gestor. E isso poderá custar muito caro. Ignorar o fanático por um público maior pode deixar a situação de qualquer marca insustentável.

Essencialmente, é isso o que aconteceu com os times que resolveram abraçar a Super Liga. Em pesquisas divulgadas sobre a reação dos torcedores, foram os menos próximos dos times que acharam uma boa ideia um torneio só com jogão. Mas foram os fanáticos que se sentiram traídos por gestores que não entenderam as raízes do futebol. Advinha qual grupo invadiu o gramado do Old Trafford para ser ouvido?

Se você sabe reconhecer rapidamente a imagem do Old Trafford como o histórico estádio do Manchester United e achou uma obviedade que a Super Liga seria mal-recebida, você também faz parte do grupo dos fanáticos. Muitos não pensam assim. Inclusive alguns investidores que nasceram em Nova York e dividem a atenção do time inglês com o Tampa Bay Buccaneers.

A cegueira às tradições do futebol e aos mais assíduos fãs têm gerado as mais fortes movimentações contra o atual modelo de gestão do futebol inglês desde a criação de Premier League. Difícil pensar em uma jogada mais desastrosa. Foi um touchdown em Manchester: pegou a bola com a mão na linha do gol adversário e achou que iria sair como herói do jogo.

A Super Liga foi um caso extremo, mas em pequenas ações, esse desprezo ao mais fanático aparece com frequência. Foi o que aconteceu com a Centauro nesta semana, que achou que piada após um clássico iria alimentar o espírito esportivo dos seus consumidores. Deve ter funcionado com muitos, mas lá estavam os mais aficionados ofendidos com a iniciativa, a prometer boicote à marca. Virou crise.

Na prática, esse malabarismo entre consumidores diferentes nem sempre é simples. Uma ação que chama um grupo pode facilmente representar uma ameaça ao outro. A busca por novos públicos é necessária e, no Brasil, urgente. Mas na hora de fazer uma ação concreta, na dúvida, é bom priorizar quem gasta muito mais.