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Opinião / Mônica Esperidião

Opinião: Inclusão da diversidade no esporte

Mônica Esperidião, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 23/07/2021, às 11h22

Imagem Opinião: Inclusão da diversidade no esporte

Os Jogos de Tóquio começaram hoje e queria trazer uma reflexão sobre algumas discussões que ainda estavam rolando às vésperas dessa edição tão polêmica, que não têm a ver com Covid-19, nem com a tão esperada Cerimônia de Abertura.

Foram diferentes abordagens relacionadas à diversidade e inclusão no esporte nestas últimas semanas, algo que temos muito para evoluir na nossa indústria. Peço licença a todos vocês para trazer um pouco de informação sobre a história dos Jogos Olímpicos e a inclusão.

Voltando no tempo rapidinho, para contextualizar melhor, muitos sabem que a origem dos Jogos Olímpicos foi na Grécia Antiga, correto? Mas não sei se você sabe que, antes, só podiam competir homens, gregos, livres e ricos. Mulheres, povosescravizados e estrangeiros eram proibidos de participar. E até mesmo de assistir a algumas competições.

Por motivos religiosos, os Jogos Olímpicos, neste formato, foram banidos em 393 d.C. e somente em 1896, por uma iniciativa do Barão Pierre de Coubertin, os primeiros Jogos oficiais foram realizados pelo recém-criado Comitê Olímpico Internacional (COI). À ocasião, 280 atletas participaram, sendo ainda somente homens, mas de 14 países diferentes.

E como conta a história, a contragosto do Barão de Coubertin, foi na segunda edição dos Jogos Olímpicos, em Paris 1900, que as mulheres participaram pela primeira vez. Para o Barão e muitos outros que pensavam de forma parecida, o ambiente dos Jogos não era apropriado para o “delicado corpo feminino”. Felizmente, pouco a pouco, elas foram ganhando mais espaço no cenário esportivo olímpico, sendo que só em Londres 2012 participaram em todas as modalidades.

Evolução da participação da Mulher nos Jogos Olímpicos desde Montreal 1976
Divulgação/LWF

Já em 1936, nos Jogos Olímpicos de Berlim, que aconteceram na Alemanha sob o regime nazista de Adolf Hitler, os arianos tomaram um duro golpe com o mérito do atleta preto Jesse Owens. O americano conquistou quatro medalhas de ouro e demonstrou que não existe algo como uma superioridade racial, que tanto tentava demonstrar Hitler durante esta edição, a tal da raça “branca pura ariana”.

Em 1960, em Roma, foi realizada a primeira edição dos Jogos Paralímpicos (que merece um artigo exclusivo para falar sobre seu papel na história da inclusão). E marcando história em pleno apogeu da luta pelos direitos civis nos EUA, os Jogos Olímpicos da Cidade do México, em 1968, tiveram as primeiras manifestações de protesto contra a discriminação racial, com o emblemático ato de levantar os punhos de John Carlos e Tommie Smith.

Nessa mesma edição, teve início o controle de antidopagem e de sexos, sendo este último feito de maneira ridícula, ao obrigar que as atletas mulheres ficassem nuas e fossem apalpadas por médicos para comprovar que não tinham testículos.

JOGOS DE TÓQUIO

Bom, e aí? Muitos devem estar se questionando, enquanto leem, por que reclamam tanto da falta de inclusão? Por que falam tanto de diversidade? Pois olhem quanta evolução no sentido da igualdade que tanto falamos! Mas eu gostaria que vocês se questionassem sobre a genuinidade na tomada de decisões relacionadas a certos detalhes. Tenho certeza de que, infelizmente, isso nunca passou pela cabeça de muitos que chegaram até aqui neste artigo.

Pouco antes do início desta edição dos Jogos Olímpicos em Tóquio, a tão conhecida jogadora de futebol dos EUA Alex Morgan, a maratonista Aliphine Tuliamuk, também americana, a jogadora de basquete canadense Kim Gaucher e a atleta de nado artístico Ona Carbonell, da Espanha, entre provavelmente outras atletas-mães que não ficamos sabendo, reivindicaram o direito de poder levar seus filhos aos Jogos Olímpicos para poder continuar amamentando.

Neste ano, por causa da pandemia, o COI proibiu que membros da família ou outros companheiros dos atletas os acompanhem nesta edição. A batalha foi vencida nos últimos segundos do segundo tempo, mas as condições impostas pela situação ainda impedem muitas delas de conseguir levar seus filhos.

A espanhola Ona Carbonell denuncia no seu Instagram a impossibilidade de seguir amamentando
Reprodução/Instagram

Também nesta edição, a halterofilista Laurel Hubbard, da Nova Zelândia, é a primeira atleta transgênero a competir em uma Olimpíada. A permissão veio depois da mudança de regra que permite que atletas transgêneros compitam na categoria feminina desde que seus níveis de testosterona estejam abaixo de 10 nanomoles por litro, por pelo menos 12 meses antes de sua primeira competição, de acordo com o regulamento do COI.

A cerca de 16 dias do início dos Jogos de Tóquio, uma decisão da Federação Internacional de Natação (FINA) gerou polêmica sobre acusações de racismo, por vetar a utilização de uma touca de natação desenvolvida especialmente para cabelos afros sob a justificativa de não seguir “a forma natural da cabeça”.

À esquerda, a halterofilista Laurel Hubbard, da Nova Zelândia; à direita, a britânica Alice Dearing e sua touca adaptada ao seu cabelo afro
Divulgação

Depois de apresentar estes três fatos, pergunto: o que é inclusão da diversidade no esporte para você? Será que é apenas abrir as portas para pessoas fora do padrão homem, branco e rico? Ou deveríamos também nos atentar à imparcialidade no tratamento das pessoas de acordo com suas respectivas necessidades, seja com tratamento igual ou diferenciado, mas que seja considerado equivalente em termos de direitos, benefícios, obrigações e possibilidades?

O mundo já não é o mesmo de 1896, quando o Barão de Coubertin fez questão de declarar que os seus Jogos eram apenas para um tipo de pessoa. Mas será que evoluímos tanto quanto pensamos? A inclusão de pessoas marginalizadas nos Jogos Olímpicos continua sendo uma questão, com a diferença entre igualdade e equidade sendo relatada em cada parágrafo deste artigo que espero que conscientize cada um sobre o nosso papel. A presença do "distinto” causa desconforto, e as entidades organizadoras não estão proporcionando o espaço de Respeito, Amizade e Excelência, como ditado pela Cartilha Olímpica.

Quando dificultamos a ida de bebês recém-nascidos aos Jogos, qual é a mensagem que estamos passando para estas mães? E quando impedimos que nadadores usem a touca que melhor se adapta ao volume dos seus cabelos, o que realmente passa na nossa “cabeça que tem forma natural”?

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*as palavras grifadas ao longo do texto são para representar a inclusão; as riscadas, a falta dela.

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Mônica Esperidião Hasenclever é especialista em gestão e marketing esportivo, CMO da Leadership Woman Football e diretora da LWF Academy, plataforma que tem como objetivo promover a liderança e a visibilidade da mulher no esporte, abrangendo todos os âmbitos e áreas de esporte, e escreve mensalmente na Máquina do Esporte.