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Opinião / Erich Beting

Opinião: Investidor de clube está em extinção pelo mundo

Discussão sobre investimento privado em clubes de futebol chegou tarde ao Brasil; hoje, investidor quer as ligas

Erich Beting - São Paulo (SP) Publicado em 15/12/2021, às 07h58 - Atualizado às 08h02

Newcastle é uma das exceções no mercado atual de investimento privado em clubes de futebol - Reprodução / Twitter (@NUFC)
Newcastle é uma das exceções no mercado atual de investimento privado em clubes de futebol - Reprodução / Twitter (@NUFC)

O futebol brasileiro vê a criação da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) como a tábua de salvação para levar à profissionalização do esporte. A ideia é decantada aos quatro ventos por advogados e consultorias que dizem ter investidores ávidos por comprar os clubes daqui. Foi esse lobby, aliás, que acelerou a aprovação da lei que cria facilidades para os clubes se tornarem SAFs, como se a legislação atual já não permitisse que houvesse venda de associações esportivas no Brasil.

O problema é que, assim como na discussão sobre a Lei do Mandante, chegamos atrasados para fazer esse movimento e importamos modelos que comprovadamente não deram certo lá fora.

A SAF do Brasil é muito similar às tentativas que Portugal e Espanha fizeram para tentar sanar o passivo dos clubes e dar uma sobrevida às instituições. No fim das contas, a criação da nova figura jurídica só fez surgir uma empresa “limpa”, que continuou sendo mal gerenciada e rapidamente voltou a ter os mesmos problemas de fluxo de caixa, falta de pagamento para os funcionários e, claro, incapacidade de competir esportivamente.

Além disso, o discurso de que há diversos investidores interessados em adquirir clubes de futebol pelo mundo esbarra numa realidade. O movimento, hoje, é exatamente o contrário. Depois da correria da última década, os investidores querem agora, com a pandemia, sair do clube. Não existe mais fundo de investimento, bilionário excêntrico ou qualquer milionário amalucado que esteja querendo comprar um clube de futebol para brincar.

Desde que começou a pandemia e o modelo de negócios do futebol na Europa entrou em colapso (o Barcelona é o melhor/pior exemplo para demonstrar isso), os investidores querem é fugir dos clubes e mirar negócios mais seguros dentro do ambiente do esporte.

O Newcastle acabou de ser vendido para um fundo da Arábia Saudita por ser um ativo interessante para um projeto de limpeza de imagem de um governo autoritário. Além disso, só houve interesse em comprar o time porque ele está na Premier League, a única liga realmente global de futebol. Só os ingleses hoje atraem a atenção de compradores. Times de outros países simplesmente não conseguem ser atrativos comercialmente.

Os chineses que inundaram de investimentos times da Itália e da Espanha agora tentam desesperadamente pular fora do barco. O grupo chinês Wanda, que em 2015 comprou parte do Atlético de Madrid, se desfez do negócio três anos depois, sem conseguir rentabilizar o investimento. Desde janeiro, não aparece quem queira comprar a parte da Suning na Internazionale, de Milão. Enquanto isso, o clube já soma mais de € 300 milhões em prejuízos por conta dos efeitos da pandemia.

A Covid-19, aliás, acelerou um processo que já vinha acontecendo no futebol europeu. A compra e a venda de participações em clubes desacelerou, e agora os fundos de investimento querem mesmo é largar o barco antes de ter de amargar mais prejuízo.

Enquanto isso, surge um novo tipo de negócio. Com os clubes em enormes dificuldades financeiras, a venda de parte dos direitos de mídia das ligas é a saída encontrada para gerar um dinheiro extra no caixa e fazer com que a situação fique menos complexa.

Na semana passada, a LaLiga aprovou a venda de parte de seus direitos de mídia para o fundo CVC, que, nesta terça-feira (14), confirmou também o interesse na compra de uma porcentagem da Ligue 1, da França. A Bundesliga foi quem iniciou esse processo, seguida pela Serie A, da Itália.

Por que os investidores querem as ligas, e não os clubes?

Porque são investimentos muito mais seguros. Os direitos de mídia das ligas são os valores que crescem independentemente da pandemia. As competições têm ganhado cada vez mais espaço mundialmente e são produtos mais sólidos para se ter participação do que um clube, que depende diretamente do desempenho em campo para ter resultado financeiro.

Para variar, a discussão sobre investimento privado em clubes de futebol chegou tarde no Brasil. Para piorar, o histórico da gestão futebolística no país assusta ainda mais. Sem uma liga nacional que venda coletivamente direitos de mídia e sem perspectiva de aumento de receita com patrocínios e licenciamento, a única fonte de receita possível para conquistar um investidor é a venda de jogadores para o exterior.

Só que aí entra o peso da crise na Europa, em que há menos dinheiro circulando, o que significa que se paga menos para o jogador vindo da América do Sul. Por mais que os clubes brasileiros sejam beneficiados com o câmbio por causa da desvalorização do real frente às moedas estrangeiras, a conta que o investidor estrangeiro faz é em dólar, e aí o mercado de compra e venda de atletas, hoje, é menor do que foi há cinco anos.

Esse é o contexto que envolve o investimento em clubes de futebol pelo mundo atualmente. A varinha de condão não é criar uma figura jurídica para tentar achar um investidor para o clube ou “esquecer” o passado nebuloso, mas criar um ambiente de negócios no futebol brasileiro que force os clubes a serem bem gerenciados, como faz a Alemanha há pelo menos 40 anos. Lá, por sinal, é proibido que um clube conceda mais de 49% do controle acionário a investidores privados. É a garantia que o futebol alemão encontrou para manter viva a tradição do futebol, porém com racionalidade na gestão.

Erich Beting é fundador e CEO da Máquina do Esporte