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Opinião / Romulo Macedo

Opinião: Levar uma criança ao estádio não pode ser uma aventura

Quantos torcedores e torcedoras se afastam dos estádios depois do nascimento dos filhos?

Romulo Macedo, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 10/12/2021, às 07h14

Torcedores do Palmeiras assistem ao aquecimento do time na beira do gramado do Allianz Parque - Divulgação / Palmeiras
Torcedores do Palmeiras assistem ao aquecimento do time na beira do gramado do Allianz Parque - Divulgação / Palmeiras

Outro dia um amigo me relatou a sua saga para levar a filha em um grande estádio do país. A pequena tem apenas três anos e, quem é pai ou mãe, sabe que qualquer saidinha com crianças dessa idade pode se tornar uma grande aventura se o local não estiver preparado. Mas um pai apaixonado estaria disposto a enfrentar pequenos percalços para proporcionar uma experiência inesquecível para ela.

Chegando nas proximidades do estádio, ele decidiu parar o carro no mesmo estacionamento de costume, e então percebeu logo a primeira diferença entre um torcedor que vai aos jogos com os amigos para o mesmo torcedor quando leva seus filhos. O estacionamento ficava cerca de 10 minutos caminhando do portão de entrada. Uma distância totalmente aceitável para um adulto, mas impensável para as perninhas da pequena. Depois de cinco minutos andando ele escutou, pela primeira vez no dia, “papai, estou cansada”. E lá foi ele carregar uma mochila cheia de tralhas e também uma pequena torcedora de 15kg em seus braços.

Na entrada do estádio, mais desafio. O segurança encrencou com a comida que ele levava na mochila e, mesmo após muita insistência, foi obrigado a jogar fora as frutas cortadas e esvaziar a garrafinha d'água. Segundo o segurança, eram regras do estádio e valem para todos, inclusive para uma criança de três anos de idade.

Passando pela catraca, os dois foram atrás de algum entretenimento para a pequena. Já estavam quase desistindo da procura quando depararam com uma longa fila, em que uma senhora pintava os rostos das crianças com as cores do time. Com a carinha devidamente pintada, não restava mais nada a fazer além de esperar o início da partida.

Chegando na sua arquibancada, percebeu uma nova adversidade. Os assentos não estavam limpos. Como colocar uma criança pequena sentada em uma cadeira suja? Foi então que pai e filha iniciaram a busca por papéis para cobrir a sujeira. O problema foi solucionado com alguns guardanapos. 

Aproximando-se da metade do jogo, a pequenininha começou a dizer que estava com fome. Já que foi obrigado a jogar fora a comida saudável, o pai torcedor decidiu ir atrás de alguma comida minimamente salutar dentro do estádio. Obviamente que depois de muito procurar e de escutar milhares de vezes “papai, estou com fome”, o pai preocupado com a alimentação da pequena se rendeu à fila do cachorro-quente e da batata frita. 

Após mais um desafio superado, chegou a hora do xixi. O que em princípio parecia uma tarefa fácil se tornou uma longa sessão de convencimento. O estádio não possuía banheiro familiar, e a pequena se recusava a entrar no banheiro de “menino”. Depois de muita conversa e persuasão, foram os dois procurar um banheiro masculino minimamente limpo e com papel higiênico que pudesse cobrir o assento do vaso sanitário. Esse desafio não foi nada fácil de ser superado no intervalo de um jogo de futebol.

O segundo tempo mal começou quando a torcedora mirim se entediou com o jogo e pediu o celular do pai para ver desenhos. Depois de muita insistência, o pai cedeu aos apelos da pequena e lhe ofereceu o aparelho, mas quem disse que o estádio tinha conectividade? Toda vez que o desenho travava, a pequena pedia para ir embora, porque estava entediada. Quando já estava quase cedendo aos apelos da filha, ele foi salvo por um gol do seu time. A festa da torcida distraiu a pequena e lhe deu mais alguns minutos de tranquilidade até o final da partida.

Nos 10 minutos com a criança no colo que os separavam da saída do estádio até o carro, ele foi pensando como os cinemas, teatros e outras formas de entretenimento estavam muito mais preparados para receber as crianças do que um estádio de futebol.

Será que esse pai vai voltar a levar a sua filha ao estádio em breve? Quantos torcedores e torcedoras se afastam dos estádios depois do nascimento dos filhos?

Já passou da hora dos estádios, das federações e dos clubes se preocuparem com a experiência oferecida para trazer novamente as famílias aos estádios e arenas do país.

Romulo Macedo é sócio-fundador da Fan Experience 360 e escreve mensalmente na Máquina do Esporte