Máquina do Esporte
Facebook Máquina do EsporteTwitter Máquina do EsporteYoutube Máquina do EsporteLinkedin Máquina do Esporte
Opinião / Mônica Esperidião

Opinião: Marta, tranquila: o futebol feminino paulista está em boas mãos!

Uma entrevista com Thais Picarte, nova coordenadora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol

Mônica Esperidião, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 03/03/2022, às 07h31 - Atualizado às 07h35

Aline Pellegrino e Thais Picarte em Congresso promovido pela Associação Nacional de Jogadoras de Futebol Feminino do Chile - Divulgação
Aline Pellegrino e Thais Picarte em Congresso promovido pela Associação Nacional de Jogadoras de Futebol Feminino do Chile - Divulgação

Há quase três anos, Marta pedia, em uma icônica entrevista, que a oportunidade por parte de quem está começando a atuar dentro dos gramados fosse mais valorizada. Claramente, suplicava por sua substituta e de suas companheiras de longa jornada Formiga e Cris Rozeira.

Três anos depois, a notícia do momento no universo do futebol feminino é só uma: a Federação Paulista de Futebol (FPF) contratou Thais Picarte como Coordenadora de Futebol Feminino, porque Ana Lorena Marche foi para a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) como Supervisora de Seleções Femininas, e Aline Pellegrino assumiu o posto de Coordenadora de Futebol Feminino (Seleções e Competições) na CBF. Ufa!

Rainha, está começando a ficar mais tranquila com o que está acontecendo? Pense: quando você fez essa declaração, a Pelle e a Duda ainda nem tinham sido contratadas pela CBF para assumir o futebol feminino! Sinto um efeito virtuoso no seu choro durante aquele discurso. Que alegria, pode começar a sorrir! 

E um dos motivos dessa minha alegria vem de quem veio de dentro de campo. A nova gestora do futebol feminino paulista traz amor por essa modalidade, motivação inspirada pela mãe que a ensinou a se preparar para o que der e vier, e experiência para assumir tamanha responsabilidade.

Esses ingredientes credenciaram a ex-goleira da seleção brasileira, que passou por clubes na Itália, França e Espanha, também foi conselheira fiscal da Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (FENAPAF) e coordenadora das categorias de base feminina do Santos, a ser escolhida pela FPF.

Bom, depois de muito esforço de pessoas, como algumas das que citei acima, que continuam trabalhando arduamente para o crescimento da categoria, hoje já conseguimos identificar mais nomes que seriam capazes de ocupar os espaços dentro da indústria. 

Ao receber a notícia desta conquista, mandei uma mensagem para a Thais e, além de desejar uma linda carreira dentro da federação, aproveitei para bater um papo com ela e dividir com vocês um pouco desse momento de bastidores para cumprir com meu compromisso de dar mais visibilidade a quem está fazendo a diferença no nosso mercado (e que não é de hoje, nesse caso). 

Mônica Esperidião: Você é um nome forte do futebol feminino. Quanto você se sentiu confiante para se aplicar para essa vaga? Como você se preparou para se candidatar a essa vaga?
Thais Picarte:
Me preparo para essa oportunidade desde o início da minha vida. Sou filha de uma mulher que ficou viúva muito cedo, que me ensinou a me preparar para tudo. Tudo que passei durante minha carreira, minha vida, me preparou para este momento. E eu me preparei para ajudar outras meninas e mulheres a não passarem pelo que eu passei. E, para isso, nós precisamos de pessoas que amam o futebol feminino. Desde que comecei a andar, com uma bola debaixo do braço, ainda menina no jardim de infância, já estava me preparando para ocupar cargos de liderança em que pudesse transformar a vida de outras mulheres.

ME:O que você acha que foi o diferencial do seu perfil para que você fosse a escolhida?
TP: Minha formação é ampla em diversas direções, não apenas na gestão, mas em vários âmbitos do futebol. Em dado momento da carreira, percebi que, se não tivermos quem realmente ama o esporte, quem realmente conhece e se prepara, nada poderá acontecer. Não adianta termos boas treinadoras, boas atletas, se elas não tiverem condições adequadas de trabalho. Joguei em três países diferentes, aprendi idiomas e aprendi a entender o sistema. Quando voltei ao Brasil, me preparei, fiz cursos. Na Espanha, vivi a mudança da Liga Espanhola e toda a transformação. Voltei ao Brasil com a ideia de contribuir à minha maneira. A mudança precisa ocorrer também na mentalidade e na preparação das atletas para o pós-carreira.

ME: Quais projetos você quer emplacar na federação?
TP: Pretendo dar sequência ao trabalho da Ana Lorena Marche e seguir profissionalizando a modalidade, melhorando a qualidade dos campeonatos, dando oportunidades para que meninas cada vez mais jovens possam se preparar para suas carreiras, e isso passa também pela ampliação das competições. A FPF também tem um projeto maravilhoso, que é o projeto de liderança para mulheres que trabalham e que querem trabalhar com futebol.

ME: Você falou da sua preparação e os passos que deu até chegar nesse cargo, contudo nosso país ainda carece de mais mulheres em cargos de gestão no esporte. Como você entende que podemos trabalhar para ter mais gestoras no futebol?
TP: É preciso ir muito mais além do que participar de eventos e festas. É preciso procurar e conhecer a complexidade do futebol no dia a dia, entender o que acontece dentro dos clubes, as demandas e necessidades reais, entender o que é preciso melhorar para profissionalizar cada vez mais a modalidade. Nós, aqui na FPF, temos que oferecer ferramentas para que essas mulheres possam migrar cada vez mais para a modalidade. Um dos nossos objetivos é esse, fazer com que isso aconteça. Minha luta é trazer mais mulheres para dentro do esporte.

Thais Picarte em ação pelo time do Centro Olímpico em 2013
Foto: Daniel Kfouri

Conheço a Thais há algum tempo e, assim como tantas outras profissionais do nosso setor, posso atestar sua capacidade e talento para o cargo. 

Hoje, o futebol feminino passa por um momento de ascensão no Brasil. No ano passado, vimos um calendário nacional mais recheado de competições e, para este ano, já estamos em atividade com jogos, por exemplo, da Supercopa, que conquistaram espaço não só na mídia virtual, como na televisão também. 

E eu não paro de trabalhar, minhas palestras estão sendo atualizadas a todo momento. Há três anos, eu contava de recordes de públicos pontuais, a Globo passava pela primeira vez uma Copa do Mundo Feminina e grandes marcas começavam a pincelar ações de patrocínio na categoria.

Hoje, olha o avanço, Marta! Sigamos acreditando, nos esforçando, trabalhando em prol de que este círculo virtuoso siga evoluindo, e que além de novas Martas, Formigas e Cristianes, possamos ter novas Pelles, Anas Lorenas, Thaises! 

Mônica Esperidião Hasenclever é especialista em gestão e marketing esportivo, cofundadora da WES, professora na SporTeach e escreve mensalmente na Máquina do Esporte, sempre com o propósito de promover a visibilidade da mulher e a inclusão da diversidade em todos os âmbitos e áreas do esporte