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Opinião / Ricardo Fort

Opinião: Messi demitiu o Barcelona

Ricardo Fort, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 13/08/2021, às 12h09

É verdade que Messi deu muito ao clube, mas ele também foi muito bem pago por isso. Segundo a revista Forbes, entre salários, bônus e outros incentivos, o craque faturou mais de R$ 860 milhões (US$ 165 milhões) por ano desde a assinatura do seu mais recente contrato. Apesar do seu patrimônio não ser público, o site goal.com estima que, até 2020, Messi tinha uma fortuna de mais de R$ 2 bilhões (US$ 400 milhões).

Se ele realmente gostasse do clube que o acolheu e o desenvolveu, da cidade em que passou quase toda a sua vida e onde nasceram seus filhos, dos amigos e companheiros de equipe, ele teria ficado independentemente do salário. Se seu amor fosse real e sincero, teria aceitado jogar estes dois ou três anos finais de sua carreira sem ganhar nada, ou ganhando um salário simbólico.

Sim, o Barcelona teria que se desfazer de outros jogadores, mas isso não era impossível de acontecer caso o argentino tivesse feito mais concessões. Aos 34 anos de idade e com mais dinheiro no banco do que pode gastar até o fim de sua vida, a verdade é que Messi escolheu sair do Barcelona para jogar mais e continuar aumentando a sua fortuna. Messi não foi demitido, ele demitiu o Barcelona.

Lionel não é o primeiro nem será o último a fazer isso, mas ele poderia aprender com a experiência de outros jogadores que passaram por situações parecidas.

O dia 5 de agosto de 2021 ficará marcado na história do Barcelona como “mes que un dia” (parodiando o mote do clube “mes que un club”). Este foi o dia que o maior pesadelo dos seus 141 mil sócios e milhões de torcedores se tornou realidade. Depois de 21 anos, a diretoria do clube confirmou que Lionel Messi, seu principal astro, não vestirá mais o uniforme azul-grená.

Enquanto os torcedores mais fanáticos literalmente choravam em frente aos portões do Camp Nou, a imprensa esportiva global despendia horas de suas mesas-redondas discutindo o porquê da saída, buscando culpados e, principalmente, especulando qual seria o futuro do jogador.

Três dias após o anúncio, muito emocionado, Lionel veio a público para se despedir. Enxugando as lágrimas compulsivamente, ele disse que Barcelona era a sua casa, que havia chegado aos 13 anos e saía agora com três filhos catalães-argentinos. Disse ainda que não queria sair, que amava o clube e que voltaria a morar na cidade que tanto gosta quando terminasse a sua carreira.

O vídeo e a situação são muito tristes, mesmo para os poucos que não são fãs dele. O melhor jogador do mundo em atividade na opinião de muitos, frágil e sofrendo por haver sido demitido do clube de futebol para o qual dedicou toda a sua vida. Como podem tratá-lo dessa forma depois de tudo o que ele fez, todos os títulos, todas as alegrias? A ideia de mudar de clube e cidade com sua família, algo que ele evidentemente não queria, poderia ter sido evitada se tivessem chegado a um acordo. Não há como não culpar o clube que foi responsável por causar tamanha dor no nosso ídolo, apesar de todas as razões (as regras impostas pela LaLiga a todos os clubes) que impossibilitaram a manutenção do jogador no elenco.

Mas essa visão romântica dos torcedores e de parte da imprensa, na minha opinião, não é correta nem se justifica.

Gianluigi Buffon, um dos maiores goleiros do mundo, anunciou sua aposentadoria na Juventus em 2018 depois de 17 anos como titular. Meses depois, para surpresa dos torcedores, foi confirmado como a nova contratação do Paris Saint-Germain. Depois de uma vida em Turim, onde tinha amigos e era feliz, mudou-se para Paris e para um novo clube. Sua estada na França durou apenas uma temporada. Por muitas razões, e para surpresa – mais uma – dos mesmos torcedores, voltou para a sua casa e seu clube do coração como a mais nova contratação da (mesma) Juventus em 2019.

Se Messi tivesse pedido conselhos a Buffon sobre como foi a experiência de sair do clube e da cidade que amava, mudando-se para Paris no final de sua carreira apenas pelo dinheiro (dinheiro esse que ele não precisa), certamente teria ficado feliz em sua casa, com seus amigos e sua família em Barcelona.

Mas Messi não fez isso. Foi pouco flexível e criou uma situação em que a única saída era seu desligamento do clube. O dinheiro teve prioridade sobre o amor ao time catalão. Se os torcedores querem se irritar com alguém pela sua saída, que seja com ele, e não com o Barcelona.

Ricardo Fort é fundador da Sport by Fort Consulting e escreve mensalmente na Máquina do Esporte