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Opinião / Ana Lorena Marche

Opinião: Mulheres no comando: desafios e possibilidades

Mulheres ainda enfrentam uma batalha constante para serem reconhecidas no esporte, em especial no futebol

Ana Lorena Marche, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 15/09/2021, às 08h07 - Atualizado às 08h09

Sueca Pia Sundhage é a atual treinadora da seleção brasileira de futebol feminino - Reprodução
Sueca Pia Sundhage é a atual treinadora da seleção brasileira de futebol feminino - Reprodução

Aumentar o número de mulheres em cargos de comando, sejam elas empresárias, treinadoras, gestoras, educadoras, etc., com certeza é um dos maiores desafios atuais, principalmente quando pensamos na área esportiva. Já é mais do que comprovada a importância da diversidade nas tomadas de decisões, ainda mais quando falamos de esportes que foram proibidos e são predominantemente praticados por homens.

Infelizmente, temos diversos relatórios e pesquisas que mostram essa triste realidade no Brasil e no mundo, não só no passado, mas com dados atuais. Por exemplo, o relatório da FIFA Benchmarking Report Women's Football analisou as 30 principais ligas nacionais de futebol de mulheres no mundo no ano de 2020 e observou que 88% delas possuem uma maioria de homens no comando de suas comissões técnicas. O Brasil, que está presente na análise, teve mais de 80% de homens no cargo mais alto.

Esse dado corrobora com o artigo publicado por Julia Passero e colaboradores também em 2020, na revista científica Movimento, que fez uma análise longitudinal dos cargos de comissão técnica do Campeonato Brasileiro Feminino entre os anos de 2013 e 2019. Os autores também observaram que os homens ocuparam predominantemente (85%) os cargos de comissão técnica no Brasileirão Feminino durante o período analisado, mostrando que o problema já perdura há um tempo por aqui.

Mas o artigo observou também um ligeiro aumento, ao longo do tempo, com tendência de crescimento, mostrando um pouco de otimismo. Porém, ele também discute que, se não tivermos nenhuma ação efetiva para mudarmos esse cenário, a equidade poderá acontecer só em 2030 no Brasil. Ou seja, precisamos de ações para mudar isso o mais rápido possível.

Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.

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Frequência das mulheres em cargos da comissão técnica no Brasileiro de futebol feminino de 2013 a 2019 (Passero e colaboradores, 2020)

Fica aqui a pergunta: quais ações podemos fazer para aumentar esse número e mudar a lógica de contratações? Além disso, como aumentar o número e garantir que não vamos perder ao longo do tempo?

Precisamos pensar na manutenção ao longo do tempo, principalmente após algumas regulamentações que aconteceram nos últimos anos, que estão trazendo visibilidade para os esportes femininos. A lógica de que aumentar o número de praticantes e ter campeonatos consolidados com visibilidade vai garantir o aumento de mulheres no comando ao longo do tempo não é concreta. É preciso ficar de olho.

Por exemplo: um dado muito interessante e que mostra a importância de refletirmos em ações efetivas a longo prazo é do artigo de Acosta, de 2012, inclusive citado por Julia Passero em seu trabalho.

A pesquisa americana mostrou que, após a Title IX, famosa lei americana criada em 1972, exigindo que todo investimento realizado no esporte pelo sistema educacional do país fosse igual para homens e mulheres, houve um sucesso muito grande em competições femininas e no aumento do número de praticantes, porém o número de treinadoras caiu de 90% para 43% ao longo dos anos, mostrando claramente que a consequência não é direta. Por isso, é importante refletirmos sobre esses dados para vermos que ações, capacitações e regulamentações com relação ao número de mulheres nos cargos de comando são mais do que necessárias.

Isso não quer dizer que bons resultados não estejam acontecendo. Podemos citar o caso da Inglaterra, que é um “ponto fora da curva” no mundo, principalmente no futebol. Segundo o relatório da FIFA, no ano de 2020 a FA Women's Super League teve maioria de mulheres no comando, com incríveis 67% de mulheres como treinadoras, a maior porcentagem de todas as ligas de futebol analisadas. Inclusive o time campeão da Superliga, o Chelsea Ladies FC, é comandado por uma mulher, Emma Hayes.

Os números da Inglaterra não são por acaso. São diversos os fatores que os influenciam, como cultura local, equidade de gênero no país, organização e visibilidade da liga, entre outros. Mas gostaria de citar especialmente um que é bem interessante e que com certeza tem influência nesse resultado que é o Programa de Inclusão e Desenvolvimento de Treinadoras, promovido pela Premier League.

O programa é realizado desde 2015, em parceria com os clubes que disputam a competição, e tem como objetivo capacitar, desenvolver e promover a presença de mulheres com potencial para serem futuras treinadoras da elite do futebol. Além de toda parte de capacitação, que é fundamental, a própria Premier League arca com 50% do salário das técnicas pelo período de quatro anos e com o salário inteiro da candidata escolhida pelos clubes no Programa de Desenvolvimento de Treinadoras. Ou seja, existe um processo para introdução e manutenção destas mulheres dentro do mercado: além da parte salarial, a liga promove a treinadora a longo prazo, por quatro anos, o que é fundamental para que ela tenha tempo de trabalhar, aprender e desenvolver todas as suas habilidades.

O trabalho de longo prazo é essencial para o desenvolvimento de todas, mas principalmente porque, além da dificuldade de entrarmos dentro do universo esportivo e nos cargos de comando, enfrentamos outra grande dificuldade, que é permanecer no cargo. Quantas vezes não vimos mulheres entrando e saindo logo em seguida pelos mais diversos motivos? Por isso, não adianta pensarmos apenas em estratégias para inclusão, temos que pensar em estratégias para retenção e capacitação a longo prazo também.

Hoje em dia, muitas ligas e campeonatos federados (FIFA, CONMEBOL, UEFA) exigem em seus regulamentos e licenciamentos a presença de mulheres dentro das comissões técnicas, o que já é um grande avanço, mas não é o único caminho e a única solução. Precisamos pensar na cadeia como um todo e nos cercarmos por todos os lados.

Por fim, é importante pontuar que existem diversos artigos, dados, ações e discussões a respeito de mulheres nos cargos de comando. A ideia aqui é apenas trazer uma reflexão da realidade que temos, e algumas iniciativas e caminhos existentes com bons resultados para tentar mudar um pouco essa realidade. Porém, o problema é ainda maior e muito mais complexo, pois envolve questões sociais, de classe e gênero, entre outras.

A realidade de uma não é a realidade da outra, mas uma coisa é certa: mulher no comando é um ato de resistência, pois se trata de um espaço conquistado com muita luta e que precisa ser lembrado sempre. Recuar jamais será uma opção, e o caminho ainda é muito longo.

* Ana Lorena Marche é coordenadora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol (FPF) e escreve mensalmente na Máquina do Esporte