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Opinião / Ricardo Fort

Opinião: O Newcastle é árabe

Saiba o que está por trás da compra mais polêmica de um clube de futebol nos últimos anos

Ricardo Fort, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 13/10/2021, às 11h30 - Atualizado às 11h40

Torcedores do Newcastle celebram a venda do clube com adereços alusivos aos sauditas - Getty Images
Torcedores do Newcastle celebram a venda do clube com adereços alusivos aos sauditas - Getty Images

O Newcastle United Football Club é um dos clubes mais tradicionais e antigos do futebol inglês. Fundado em 1892, jogou 89 temporadas na primeira divisão inglesa e ganhou troféus nacionais e continentais importantes. Jogar em Newcastle não é fácil. O clima no nordeste da Inglaterra é frio e chuvoso, e seu estádio, o Saint James Park, é um alçapão.

O time que leva o nome da sua cidade-sede sempre foi o maior orgulho da população local, louca por futebol. Mas, nos últimos anos, o orgulho se transformou em vergonha. Graças a uma administração desastrosa de Mike Ashley, que comprou o clube em 2007, o Newcastle passou de um time que concorria a títulos a um que sofre para escapar do rebaixamento.

Quando perguntados, torcedores locais assim descrevem Ashley: “ele prejudicou o clube e a cidade por sua falta de ambição e investimentos, mas também por sua falta de compreensão sobre quem somos e o quanto o Newcastle é importante para a comunidade”.

Como se não bastassem os resultados dentro de campo, a organização também sofreu sob a batuta do executivo. A falta de investimentos destruiu a academia, as instalações de treinamento, o estádio e a fundação que apoia a comunidade. O Newcastle costumava desenvolver jovens talentos para si mesmo e para outros grandes clubes, mas isso já não acontece.

Não é à toa que há tempos os torcedores pediam que algum endinheirado se interessasse em salvar o Newcastle do seu martírio de mais de uma década. Em 2020, finalmente, o sonho de todos parecia ter virado realidade quando um consórcio liderado pelo Fundo de Investimentos Públicos (PIF, na sigla em inglês) da Arábia Saudita fez uma oferta de £ 300 milhões (aproximadamente R$ 2,2 bilhões).

Apesar do interesse de Mike Ashley em se desfazer do clube, o negócio não foi aprovado pela Premier League por razões geopolíticas e também por uma questão envolvendo pirataria (para saber mais, leia a história no final deste artigo).

Depois de um ano e muitas conversas de bastidores, uma nova tentativa do Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita finalmente convenceu os executivos ingleses, e o negócio foi aprovado.

Mas a compra não acabou com as preocupações de muitos envolvidos no futebol inglês. Muito pelo contrário. Todos querem saber se o governo saudita se envolverá ou não na administração do clube.

A Arábia Saudita é um regime monárquico liderado pelo rei Salman bin Abdulaziz Al Saud, de 84 anos, mas quem manda de verdade é o príncipe herdeiro do trono, chamado Mohammed Bin Salman e conhecido como MBS.

Além de muitas críticas das organizações internacionais de direitos humanos sobre as liberdades dos cidadãos sauditas, pesa contra MBS a acusação de ter ordenado o assassinato do jornalista do Washington Post, Jamal Khashoggi, na Embaixada da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia (segundo a agência de inteligência americana CIA, não há dúvidas sobre a responsabilidade do herdeiro do trono saudita).

Os novos donos dizem que o governo não terá envolvimento algum, apesar da PIF ser um órgão do governo saudita comandado pelo próprio MBS.

Mas será que os outros clubes têm o direito de reclamar?

O Manchester City, de propriedade do Sheikh Mansour, vice-primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos, é acusado por outros clubes de gastar mais do que as regras da UEFA permitem. O Chelsea, do oligarca Roman Abramovich, é criticado pelas relações pessoais entre seu dono e Vladimir Putin. Isso sem falar em Liverpool, Manchester United, Arsenal e Tottenham, quatro dos seis ingleses que participaram da tentativa fracassada de criação da Superliga Europeia, uma iniciativa que teria acabado com as ligas nacionais e continentais.

Nessa briga de cachorro grande do negócio do futebol inglês, cada um se vira como pode para ser competitivo e continuar alavancando as próprias receitas. Há muito tempo as regras foram relaxadas. É verdade que alguns donos têm mais bagagem que outros, mas poucos estão acima das críticas.

Agora nos resta ver o que os novos donos do Newcastle farão com o clube. As expectativas dos torcedores são as melhores possíveis, e dinheiro não faltará. Por isso, tudo indica que um novo superclube europeu surgirá nos próximos anos.

Mais detalhes sobre a venda do Newcastle

Em junho de 2017, liderados pela Arábia Saudita, vários países do Oriente Médio romperam relações comerciais e diplomáticas com o Catar acusando o país-sede da Copa do Mundo da FIFA de 2022 e sua rede de televisão Al Jazeera de apoiar grupos extremistas iranianos, entre outras coisas. O incidente levou à proibição de voos de e para Doha, capital do Catar, dificuldades para a importação de bens e muitos outros problemas para a população local.

Como parte desse processo de ruptura, o governo da Arábia Saudita também proibiu seus cidadãos de assinar a BeIn Sports, o canal de esportes da Al Jazeera que detém direitos esportivos para quase todos os eventos esportivos no Oriente Médio e norte da África. Mas a paixão pelo futebol, e especialmente pela Premier League, acabou levando à criação de um canal alternativo e ilegal – supostamente com a aprovação do governo - chamado “BeoutQ”, que roubava o sinal da transmissão oficial da BeIn Sports e distribuía os jogos para os sauditas.

A BeIn passou anos tentando – de forma frustrada – impedir a pirataria nas cortes da Europa. Até que o PIF tentou comprar o Newcastle.

Quando a Premier League recebeu a oferta de compra, a BeIn rapidamente escreveu uma carta para os outros 19 presidentes dos clubes da liga e para o governo inglês dizendo que eles estavam sendo roubados pela Arábia Saudita e seu canal BeoutQ e que a transação não deveria acontecer. A força de quem paga US$ 500 milhões (aproximadamente R$ 2,8 bilhões) em direitos de televisão para a própria Premier League fez com que os presidentes recuassem e não aprovassem a venda, para frustração dos torcedores, do proprietário e dos compradores.

Um ano depois dessa tentativa frustrada, muitas coisas mudaram na região do Golfo. A Arábia Saudita e seus aliados reataram relações comerciais e diplomáticas com o Catar, fazendo a vida voltar ao normal dos dois lados da fronteira. Com a suspensão do embargo ao Catar, veio também o decreto que encerrou as atividades ilegais da BeoutQ e a volta das transmissões da BeIn Sports.

Não demorou muito para que o PIF voltasse à Inglaterra com uma nova oferta de compra do Newcastle. Dessa vez, inocentado das acusações do ano anterior, o negócio foi aprovado, e a compra finalmente foi fechada.

Ricardo Fort é CEO da consultoria Sport by Fort e escreve mensalmente na Máquina do Esporte