Máquina do Esporte
Facebook Máquina do EsporteTwitter Máquina do EsporteYoutube Máquina do EsporteLinkedin Máquina do Esporte
Opinião / Ricardo Fort

Opinião: O pé na porta da WTA

A política do "pé na porta" da WTA nunca resolveu nenhum problema com a China, e essa não será a primeira vez

Ricardo Fort, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 13/12/2021, às 07h02 - Atualizado às 07h04

Shuai Peng motivou WTA a clamar por direito das mulheres e a cancelar torneios na China, seu maior parceiro comercial - Reprodução / Twitter (@WTA)
Shuai Peng motivou WTA a clamar por direito das mulheres e a cancelar torneios na China, seu maior parceiro comercial - Reprodução / Twitter (@WTA)

A tenista chinesa que foi a décima quarta jogadora individual (em 2011) e a primeira em duplas (em 2014) no ranking da WTA (“Women’s Tennis Association”, organização que gerencia os principais eventos do tênis feminino no mundo), desapareceu.

Depois de uma postagem polêmica nas redes sociais da China acusando um dos membros mais sêniores do Partido Comunista Chinês de tê-la assediado sexualmente, Shuai Peng simplesmente sumiu. Sua postagem foi apagada, e muitos temiam que o pior pudesse ter acontecido com ela.

O medo era justificado. Afinal, a República Popular da China é um dos países mais mal ranqueados no “Índice de Liberdade Humana do Cato Institute”, pesquisa anual que mede o estado da liberdade humana no mundo com base em vários critérios, incluindo as liberdades pessoais, civis e econômicas. Em 2018, no estudo mais recente, 162 países compuseram o ranking. A China ficou na 129ª posição.

Os mundos do tênis e, depois, do esporte em geral se mobilizaram exigindo uma resposta do governo chinês. Atletas, celebridades e tuiteiros de plantão queriam saber onde estava Shuai Peng. Exigiam provas do seu bem-estar e da sua liberdade.

Nesse momento, duas organizações esportivas escolheram caminhos opostos para encontrar uma resposta. De um lado, a diplomacia do Comitê Olímpico Internacional (COI); do outro, a objetividade da WTA, entidade que comanda o tênis feminino.

O COI é uma organização que entende de esportes e diplomacia como poucos. Baseados na Suíça e administrados por pessoas de uma centena de países, declaram-se apolíticos, mas lidam diariamente com uma infinidade de governos, organizações não-governamentais, empresas patrocinadoras e redes de televisão, equilibrando os interesses de todos para o bem do esporte.

O COI é discreto. Para superar os frequentes desafios nos países que sediarão os Jogos Olímpicos, atua nos bastidores em conversas privadas. Seus executivos sêniores, como o presidente Thomas Bach, têm acesso direto a presidentes, primeiros-ministros e todos que realmente podem dar as respostas que o COI precisa. Eles chamam esta política de “diplomacia silenciosa”.

No caso de Shuai Peng, foi exatamente o que fizeram. Enquanto alguns gritavam no Twitter, o COI trabalhou com seus contatos na China e conseguiu organizar uma videochamada privada com a ex-tenista, devidamente registrada pelos fotógrafos oficiais da entidade. Tudo feito de forma muito respeitosa à autonomia e autoridade chinesa. No final, combinaram uma reunião ao vivo durante a próxima visita de Bach à China.

A WTA, uma organização global baseada nos Estados Unidos e administrada principalmente por americanos, adotou uma política oposta à do COI. Foi a público rapidamente, com exigências e duras ameaças à China. A menos que eles tivessem provas irrefutáveis que Shuai Peng estava bem, suspenderiam todos os seus eventos na China imediatamente.

Quando a ex-tenista se manifestou nas redes sociais, a WTA não acreditou na veracidade das suas palavras. Quando ela postou fotos no seu quarto, a WTA não acreditou que as fotos fossem atuais. Quando o COI publicou as fotos da videochamada de Thomas Bach com ela, a WTA suspeitou que Peng estava sendo vigiada e controlada pelo governo. Tudo isso devidamente publicado e debatido nas redes sociais e na mídia internacional.

Finalmente, depois de muita confrontação e acusações públicas ao governo chinês, a WTA cumpriu a promessa e confirmou o cancelamento de todos os eventos em território chinês.

Muitos comemoraram a decisão da WTA. “Finalmente uma organização esportiva corajosa o suficiente para confrontar a China”. “Chega de ser intimidado pelo poder econômico chinês”. “A FIFA, o COI, a UEFA, a Fórmula 1 e todos do esporte deveriam aprender com a WTA”. Steve Simon, o presidente da entidade, tornou-se uma celebridade e um exemplo para outros administradores do esporte.

Se a WTA queria promover seus valores em uma grande campanha internacional, fez um excelente trabalho. Mas se seu objetivo era ajudar Shuai Peng e os tenistas chineses, suas ações de nada valeram. Não é preciso ser um especialista em política chinesa para saber que acusá-los publicamente é o pior caminho possível.

Ao contrário do que a lógica indica, manter eventos na China pode ser uma forma mais efetiva de influenciar mudanças. Sem engajamento, sem discussões, sem diálogo, nada mudará. O esporte pode ser um excelente fórum, mas para isso acontecer as organizações esportivas, como a WTA, precisam trabalhar juntas com os muitos governos ao redor do mundo, inclusive o chinês, para gerar as mudanças tão necessárias ao esporte.

A política do “pé na porta” da WTA nunca resolveu nenhum problema com a China. E essa não será a primeira vez.

Ricardo Fort é CEO da consultoria Sport by Fort e escreve mensalmente na Máquina do Esporte