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Opinião / Criação de conteúdo

Opinião: O reskilling e o upskilling chegaram nos atletas

Ivan Martinho explica como atitudes importantes de marketing devem partir dos próprios atletas hoje em dia

Ivan Martinho, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 08/09/2021, às 07h57

Atleta, hoje, precisa ser criador de conteúdo para ter mais chances com marcas e se aproximar do investimento privado - Reprodução
Atleta, hoje, precisa ser criador de conteúdo para ter mais chances com marcas e se aproximar do investimento privado - Reprodução

Você já deve ter ouvido falar dos termos acima, muito comuns no mundo corporativo já que o mercado muda, a tecnologia é disruptiva, velhas fórmulas já não resolvem novos problemas e para ser um profissional competitivo, hoje em dia, é necessário estar ligado nas tendências e saber aprender rápido. A palavra skill significa habilidade, reskilling pode ser entendido como requalificação, e upskilling como aprimoramento.

Um exemplo conhecido para simbolizar esses termos são os profissionais de call center que convivem com a concorrência dos ChatBots. À medida que as posições de atendimento telefônico humano diminuem, já que grande parte das questões mais simples passaram a ser resolvidas por um robô, tais profissionais buscam aprender e adquirir novas competências para poderem disputar outras oportunidades de trabalho.

Assim como em edições anteriores, os Jogos Olimpicos de Tóquio colocaram o holofote em heróis do esporte até então pouco conhecidos e, junto disso, a discussão das fontes de financiamento que leva a medalhas; comparações com outros países; uma certa culpabilidade em relação às marcas por não apoiarem a jornada e apenas celebrarem as conquistas; e por aí vai.

No Brasil, os esportes olímpicos têm diversas fontes de financiamento, em sua maioria públicos, e uma ampla discussão se são suficientes ou não. Bolsa-Atleta, Bolsa-Pódio, leis de incentivo, apoio das forças armadas, bolsas municipais e estaduais, recursos advindos das loterias, mas ainda assim o cobertor parece ser curto. Quando os recursos são direcionados para o alto rendimento, falta dinheiro para a base, treinadores e demais profissionais das diversas disciplinas ligadas à saúde e à perfomance. Quando os recursos são direcionados para a base, provavelmente os resultados no alto rendimento passam a ser impactados.

Proponho aqui um rápido exercício de “share of mind”: feche os olhos e se lembre do Darlan Romani. Três, dois, um... pronto! O fato mais marcante que provavelmente veio à sua cabeça é que parte do treinamento do nosso melhor arremessador de peso foi feito em um terreno baldio, certo?

Você talvez tenha se lembrado do quarto lugar que ele conquistou, chegando perto da medalha de bronze, mas você sabe quanto pesa o peso que ele arremessa, qual a origem desse esporte, quem são os atletas de referência na modalidade, qual país tem tradição? Não, né? Notou que aqui o esporte é pano de fundo e o que mais importa é a história, que inclusive causou comoção e originou uma vaquinha?

Pensemos agora na incrível Rebeca Andrade. As medalhas são recentes e, claro, se eternizam, mas não foi sensacional conhecer mais sobre a família da Rebeca e sua relação com a mãe, sua simplicidade misturada com ambição contagiantes que são a cara do Brasil, o filme que ficou famoso quando as então referências Daniele Hypólito e Daiane dos Santos foram visitar o CT em que ela treinava em Guarulhos ainda quando menina?

Daí temos a Rayssa e a origem de tudo com o filme da “Fadinha”, o encontro emocionante com Leticia Bufoni no Esporte Espetacular anos atrás, Ítalo Ferreira e seu começo humilde surfando em uma tampa de isopor, sua relação saudosa com a avó, e tantas outras histórias de superação, batalha, garra, emoção que marcam, viram pauta nas diversas mídias além da esportiva, geram conversas nas redes sociais, atraem atenção, aumentam o número de fãs e, por consequência, também atraem marcas e investimento privado. São elas que podem ser capazes de fazer com que a dependência do financiamento público seja cada vez menor.

À medida que as semanas vão passando, essas histórias vão ficando antigas e os espaços na programação normal tendem a voltar a ser ocupados pelos esportes tradicionais de audiência cativa, mas cabe a cada um dos protagonistas delas, os atletas, garantir que novas histórias sejam criadas e conhecidas. É como o se diz na gíria artistica: é preciso se manter nos holofotes. Para conseguir isso, é necessário entender que grande parte do interesse das marcas é pelas histórias “além das quatro linhas”. Então, se você é atleta e pretende atrair patrocinadores privados, saiba que essa nova skill precisa ser adicionada à sua caixinha de ferramentas.

Se o termo “influenciador digital” te incomoda, se inspire então nos “criadores de conteúdo”. Veja que, muitas vezes, eles conseguem milhares de seguidores apenas com seu talento e um celular na mão, e acabam indo parar nos meios de comunicação tradicionais depois que fazem sucesso virtualmente.

Sim, as pessoas querem saber mais do ser humano que vive por trás das conquistas esportivas, os altos e baixos, sua família, seus amigos, sua rotina de treinamentos. Procure também entender por que as marcas que estão com você ou com colegas de trabalho que admira, escolheram vocês como patrocinados. Aposto que não foi só pelos resultados. Pergunte e prepare-se para se surpreender!

Eu sei, vai ser difícil treinar seus skills em dois turnos por dia e ainda arrumar tempo pra esse terceiro turno. Mas se reskilling e upskilling eram palavras da moda somente no mundo corporativo, pode ter certeza de que elas acabaram de aterrissar no mundo do esporte.

Ivan Martinho é CEO da World Surf League (WSL) na América Latina e escreve mensalmente na Máquina do Esporte