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Opinião / Sergio Patrick

Opinião: O verdadeiro protagonista

Atualmente, o atleta que pouco fala ou não se posiciona tem menos espaço do que quem defende algum ponto de vista de forma autêntica

Sergio Patrick, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 09/09/2021, às 07h45

Simone Biles priorizou saúde mental a medalhas em Tóquio 2020 e foi celebrada pela coragem demonstrada - Reprodução
Simone Biles priorizou saúde mental a medalhas em Tóquio 2020 e foi celebrada pela coragem demonstrada - Reprodução

Um assunto muito discutido nas redes sociais durante os Jogos Olímpicos de Tóquio foi o critério usado por parte da mídia americana para apresentar o quadro de medalhas. Enquanto os EUA não lideravam em número de ouros, muitas tabelas usavam o total de medalhas como fator principal para garantir que o time americano aparecesse na primeira posição.

Ao final dos Jogos, os EUA tiveram maior número de ouros e também maior número total de medalhas, mas a dificuldade em dominar completamente os Jogos certamente provoca um debate sobre o que acontece no esporte americano.

Uma explicação é de que se trata apenas de um calendário que teve as melhores chances americanas concentradas nos últimos dias do evento. Outro argumento para defender os EUA como superpotência dominante no esporte é o de que a China, adversário mais próximo, concentra esforços em poucas modalidades que proporcionam muitas medalhas, como levantamento de peso, saltos ornamentais e tênis de mesa, não sendo exatamente uma força em todas as áreas como os EUA.

A reflexão que proponho, no entanto, vai além do resultado. O que realmente importa para o esporte americano?

A história é rica em casos como o de Jesse Owens, que lutou contra o racismo para ser estrela do atletismo dos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim; Muhammad Ali, que abriu mão de seu título mundial no boxe por se recusar a lutar na Guerra do Vietnã; e Billie Jean King, que chegou a enfrentar um homem em uma partida de tênis para chamar atenção para sua luta por igualdade de gênero.

Hoje, mais do que nunca, o esporte é uma enorme plataforma, bem maior do que antes por causa das redes sociais. A conexão direta com os fãs permite que o atleta apresente seu ponto de vista sobre diferentes assuntos, e, além disso, o alcance é global, fazendo com que muita gente que não tenha chegado perto dos EUA possa seguir os passos de atletas que vivem no país.

Nos últimos anos, o que se viu foi Colin Kaepernick arriscar sua carreira como jogador de futebol americano para se tornar um ativista por justiça social e contra os abusos da polícia. Ele é muito mais lembrado hoje pelo ativismo do que pela temporada excelente na qual levou o San Francisco 49ers para o Super Bowl. Quatro anos depois de Kaepernick se ajoelhar durante o hino americano e ter sua carreira interrompida, as ligas de basquete (NBA), beisebol (MLB) e futebol (MLS) cancelaram jogos por causa de episódios de brutalidade policial.

Algumas semanas atrás, em Tóquio, foi a vez de Simone Biles se destacar mais pelo seu posicionamento do que pelos resultados. Quando percebeu que não tinha condições de competir, a ginasta expôs seu problema e foi celebrada pela coragem demonstrada. O público se identificou mais com a atleta que colocou a saúde mental como prioridade do que com aquela que quase não parecia humana ao revolucionar a ginástica artística e acumular vitórias.

Kobe Bryant revelou a paixão pela arte de contar histórias depois de encerrar uma carreira incrível como jogador de basquete. Chegou a ganhar um Oscar antes de falecer tragicamente. Ainda como atleta, transformou sua obstinação em mentalidade, a tal "Mamba Mentality", e se tornou símbolo de algo que vai além do esporte.

Representatividade e identificação são palavras de ordem no momento. Definitivamente, um campeão que pouco fala ou não se posiciona tem menos espaço do que quem defende algum ponto de vista de forma autêntica. 

Sergio Patrick é jornalista especializado em comunicação corporativa e escreve mensalmente na Máquina do Esporte