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Opinião / Evandro Figueira

Opinião: Os direitos de transmissão nos Jogos Olímpicos

Evandro Figueira, especial para Máquina do Esporte Publicado em 30/07/2021, às 12h44

Sou obrigado a confessar que estou me sentindo estranho nestes últimos dias. Pela primeira vez em muitos anos, estou assistindo a uma Olimpíada no sofá da minha casa. Nas quatro edições anteriores (Atenas, Pequim, Londres e Rio de Janeiro), eu estava envolvido em toda a concepção de projetos e cobertura, sendo sempre o primeiro a chegar na cidade dos Jogos e o último a voltar para casa.

É estranho não estar envolvido e tentar reproduzir em casa o ambiente que tínhamos à disposição com várias telas para poder acompanhar diferentes esportes ao mesmo tempo. E isso hoje só é possível por conta da tecnologia e do espaço ilimitado que as plataformas de streaming têm à disposição.

Em 2016, no Rio de Janeiro, o Grupo Globo pela primeira vez disponibilizou 16 canais na TV por assinatura para que os fanáticos pudessem acompanhar seu esporte preferido o tempo todo, sem interrupções ou sem precisar mudar de canal. Há cinco anos, a TV por assinatura era a única opção. Hoje, a TV continua apenas com os seus canais lineares normais, enquanto o conteúdo “completo” está disponível por streaming para os fãs “hardcore”. Atualmente, os aros olímpicos são reconhecidos por quase qualquer pessoa no planeta. Os Jogos Olímpicos são vistos por mais de dois terços da população mundial, atingindo uma audiência global de mais de 4 bilhões de pessoas.

No entanto, nem sempre foi assim.

No início da década de 1980, devido a boicotes e problemas de gestão e organização, o público desprezava os Jogos, e as audiências eram baixas, fazendo com que os direitos de transmissão não tivessem muito valor. Naquela mesma época, o Comitê Olímpico Internacional (COI) não tinha um programa de patrocínio claro, portanto as receitas nesta área também eram irrisórias.

Inicialmente, como os direitos de transmissão valiam muito pouco, o COI cedia os direitos às emissoras para que elas exibissem e divulgassem os Jogos. Naquele momento, a preferência era para alcance, e não necessariamente para receita, o que tirava da equação qualquer forma de “pay-per-view”, por exemplo.

De lá para cá, muitos investimentos foram feitos, e o programa TOP (The Olympic Partner) foi criado e ajudou neste processo de envolvimento e crescimento do interesse das pessoas pelo evento. Nos dias atuais, patrocinadores mantêm uma relação com os Jogos por muitos anos, mesmo sem nenhuma exposição de suas marcas nas arenas de competição. Lá atrás, as cidades “brigavam” para ser a próxima sede dos Jogos Olímpicos, enquanto hoje já temos definidas as próximas três sedes (Paris 2024, Los Angeles 2028 e a recém-anunciada Brisbane 2032).

Com todo este cenário positivo, a reação da mídia não poderia ser diferente. Atualmente, os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos ultrapassam a marca dos US$ 2 bilhões a cada edição. Só a NBC paga algo em torno de US$ 1,1 bilhão pelos direitos nos Estados Unidos, e a Discovery comprou os direitos de quatro edições (verão e inverno) para todo o continente europeu por US$ 1,45 bilhão.

Aqui no Brasil, o Grupo Globo adquiriu os direitos dos Jogos Olímpicos até 2032 para todas as mídias com exclusividade, deixando apenas a TV aberta como não exclusivo. O acordo também está na casa das centenas de milhões de dólares.

Foram necessárias algumas décadas para que os Jogos Olímpicos tivessem seu valor reconhecido nos principais mercados do planeta. O que ninguém queria, agora é disputado por grupos de mídia em todo o mundo. Mas e o futuro? Ah, o espaço ilimitado nas plataformas de streaming e o interesse na audiência alcançada pelos Jogos são boas razões para que os números continuem subindo.

Evandro Figueira é vice-presidente da IMG Media no Brasil e escreve mensalmente na Máquina do Esporte