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Opinião / Sérgio Patrick

Opinião: O Pai, o filho e o esporte

Compartilhar o esporte com meu pai foi uma das melhores coisas que fiz na vida

Sérgio Patrick, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 09/11/2021, às 09h25 - Atualizado às 09h27

Sérgio Patrick e Jamil Patrick, em visita ao Allianz Parque para acompanhar a paixão pelo Palmeiras - Arquivo Pessoal
Sérgio Patrick e Jamil Patrick, em visita ao Allianz Parque para acompanhar a paixão pelo Palmeiras - Arquivo Pessoal

Era uma quinta-feira, um dos últimos dias de outubro. Mandei mensagem para a equipe da Máquina do Esporte para avisar que não sabia se conseguiria enviar minha coluna mensal porque estava a caminho do Brasil. Imediatamente, recebi retorno do Gheorge e do Erich, não só dizendo que entendiam a situação, mas também com muito carinho e disposição para ajudar. Fica aqui meu sincero agradecimento. Meu pai faleceu algumas horas depois.

Como moro longe, tive que encarar a tristeza profunda e o cansaço da viagem de última hora de Miami para São Paulo. No caminho, minha cabeça passeou pelos 44 anos de relacionamento cheios de amor que tive com o Sr. Jamil. Percebi o quanto o esporte nos conectou.

Ele gostava de muita coisa. Via Fórmula 1, NBA e até uns jogos da NFL quando eu estava por perto. Mas a grande paixão mesmo era o futebol. Papai era daqueles que assistiam a absolutamente todos os jogos disponíveis. Copa São Paulo de Juniores, Série B, Liga Europa. A TV do meu pai estava sempre ligada no futebol. Jogo do Palmeiras era aquele compromisso prioritário. Nada era marcado na hora em que o Palestra estava em campo.

Nos meus últimos dias junto ao meu pai fisicamente, quando visitei o Brasil, em novembro de 2020, fiz questão de ver todos os jogos do Palmeiras durante aquele período com o meu velho. Ele fazia as contas, desenhava o calendário e me explicava como seria possível chegar em todas. Já tinha tudo na cabeça, jogos do Brasileirão e reta final das Copas do Brasil e Libertadores.

Aconteceu quase tudo que ele previu, com as conquistas das Copas do Brasil e Libertadores. Como um bom corneteiro, ele arrumou um jeito de reclamar do fato de o time não ter vencido o Brasileiro.

Uma das melhores coisas da minha carreira como jornalista foi poder proporcionar momentos especiais pra ele como torcedor. Em 2013, levei o Sr. Jamil como meu convidado no jantar de aniversário do Palmeiras. Nunca vou me esquecer do sorriso no rosto quando ele apertou as mãos e tirou fotos com alguns dos ídolos. Depois, em 2018, recebi o convite do irmão Mauro Beting para levar o meu pai para um tour pelo Allianz Parque.

Nos últimos anos, o Palmeiras foi parte fundamental da nossa conexão. Percebi durante uma videochamada, pouco antes do falecimento, que algo não estava bem porque ele não estava vendo Palmeiras x Ceará. A camisa que ele me deu quando fiz nove anos ficará pra sempre comigo como uma das maiores lembranças desse carinho.

Compartilhar o esporte com meu pai foi uma das melhores coisas que fiz na vida. Quando o câncer apareceu pela primeira vez, em 2015, minha mulher estava grávida dos meus filhos. Assim que encontrou forças em meio à primeira rodada de quimioterapia, ele foi a uma loja comigo comprar roupinhas do Palmeiras para os bebês que ele não sabia se conheceria, mas que ele acabou abraçando, já curado, alguns meses depois.

Sem perceber, fui construindo a mesma conexão com os meus pequenos. Eles têm apenas cinco anos, mas adoram vestir a camisa do Palmeiras porque sabem que eu fico contente. Gostam de ver jogos comigo porque eu fico maluco, converso com os jogadores. E eles dão risada.

Sabem também que o vovô Mimi gostava muito do Palmeiras. Minha filha sugeriu que a família faça do 29 de outubro um feriado para homenagear o vovô. Já está combinado. Todo ano vamos celebrar a vida dele comendo a pasta que ele tanto gostava e vestindo a camisa do Palmeiras.

Assim meu pai segue e seguirá muito vivo comigo e com meus filhos, embora já faça uma falta maior do que o Evair fez quando deixou o Palmeiras.

Te amo, pai! 💚