Máquina do Esporte
Facebook Máquina do EsporteTwitter Máquina do EsporteYoutube Máquina do EsporteLinkedin Máquina do Esporte
Opinião / Retorno frio

Opinião: Paixão não é suficiente para atrair torcida aos estádios

Para Romulo Macedo, portões abertos na Série A não significaram a volta do público como esperado

Romulo Macedo, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 06/10/2021, às 08h25 - Atualizado às 08h29

Torcedor do líder Atlético-MG esgotou apenas 40% da carga de ingressos disponíveis contra o Internacional - Divulgação / Mineirão
Torcedor do líder Atlético-MG esgotou apenas 40% da carga de ingressos disponíveis contra o Internacional - Divulgação / Mineirão

O momento que muitos esperavam finalmente chegou: depois de 22 meses, o público voltou aos jogos da Série A do Brasileirão. Na rodada do final de semana, foram seis jogos em que tivemos a presença da torcida. Além deles, dois jogos não tiveram público e outras duas partidas foram adiadas porque as prefeituras locais ainda não tinham autorizado a volta dos espectadores aos estádios. 

Durante todo esse longo período de jogos com os portões fechados, tive a oportunidade de conversar com diversos dirigentes de clubes de todo o país e foi possível perceber um certo otimismo nos gestores esportivos em relação à volta dos torcedores aos estádios. Uma espécie de “mantra” sempre era repetido: “quando a torcida for liberada, os estádios vão lotar”.

Os clubes mais uma vez apoiavam todo o engajamento dos seus fãs no fator paixão, considerando que os torcedores apaixonados estavam sentindo muita falta de acompanhar os seus clubes do coração e isso, por si só, já seria capaz de atrair multidões para lotarem os estádios.

Média de público nos estádios da Série A no final de semana foi bem abaixo do que era esperado

Nessa primeira rodada com torcida nas arquibancadas da Série A, porém, nos deparamos com uma realidade bem diferente. Nenhum clube, nem aqueles que brigam pelo título, conseguiram levar muitos torcedores para os seus estádios.

Se levarmos em consideração o total de ingressos autorizados pelas autoridades locais para serem vendidos, constatamos que ninguém conseguiu atrair ao menos 50% do público total permitido. Esses números ainda ficaram assustadoramente abaixo das médias de público dos mesmos times no Brasileirão 2019, o último antes da pandemia.

A luz amarela precisa ser acesa no futebol brasileiro. Existe uma sinalização clara de que o fator paixão somado à demanda reprimida não estão sendo capazes de atrair as pessoas aos estádios do país. Isso requer primeiramente uma investigação detalhada e uma profunda mudança de planejamento, cultura e abordagem.

Apoiar toda a estratégia de atração de público aos estádios na paixão dos seus torcedores e na importância da partida é um erro primário que os clubes ainda cometem em profusão.

Talvez o “novo normal” não tenha chegado, mas com certeza muita coisa mudou no comportamento do consumidor nesses 18 meses de pandemia.

No fundo, a relação do torcedor com o seu clube, por mais que exista uma fidelidade inerente à paixão e à emoção do futebol, ainda é uma relação de consumo entre uma marca e um cliente.

Não tem mais como o futebol agir como se nada tivesse acontecido e ignorar a ciência do consumo e as boas práticas adotadas por grandes marcas do mercado tradicional para atrair, engajar e fidelizar os seus consumidores.

Conhecer profundamente a sua base de torcedores, dialogar, se aproximar, oferecer experiências que preencham os desejos dos seus fãs e humanizar o relacionamento entre o clube e sua torcida serão vitais para o sucesso, e até a continuidade, dos clubes de futebol no pós-pandemia.

Romulo Macedo é sócio-fundador da Fan Experience 360 e escreve mensalmente na Máquina do Esporte