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Opinião / Mônica Esperidião

Opinião: Paradoxo da invisibilidade esportiva pela sobrevivência

Mônica Esperidião, especial para Máquina do Esporte Publicado em 23/08/2021, às 10h59

Imagem Opinião: Paradoxo da invisibilidade esportiva pela sobrevivência

Enquanto nos Jogos Olímpicos de Tóquio nós vimos os números de seguidores de atletas como Rayssa e Rebeca crescerem exponencialmente nas redes sociais, uma ex-capitã de uma seleção nacional pede a invisibilidade de meninas e mulheres que jogam futebol no seu país.

Imagine uma jogadora de futebol pedir para que suas compatriotas “não fiquem visíveis nas redes sociais” nesta era digital? Parece coisa de louco, não? E se eu te disser que este pedido vem de alguém que lutou para conseguir ter e dar a chance de praticar esportes para as mulheres do seu país?

Apresento a vocês Khalida Popal, uma das primeiras jogadoras de futebol da história do Afeganistão. Enquanto jogava pela seleção nacional, Khalida trabalhou no departamento financeiro da Associação de Futebol do Afeganistão e presidiu a Comissão de Futebol Feminino do país, como a primeira funcionária na história do Afeganistão. Mas vozes conservadoras locais, desconfortáveis ​​com o futebol como uma atividade para mulheres, ameaçaram-na e também sua família.

Então, em 2011, Khalida deixou seu país natal, fugiu para a Índia e pediu asilo para a Dinamarca. Aos 31 anos, estudando na Copenhagen Business Academy, ela fundou a Girl Power Organization, uma associação que visa usar o poder do esporte para apoiar refugiados, migrantes e imigrantes. Hoje, além de diretora da Girl Power Organization, ela é coordenadora comercial e de futebol feminino do FC Nordsjælland, embaixadora da marca Hummel, embaixadora da “Semana Europeia do Esporte da Dinamarca” e ainda uma das jogadoras do Programa FIFA Legends.

Tive a oportunidade de conhecer Khalida em 2018, no World Football Summit, em Madri. Em uma entrevista com ela, conheci uma realidade muito diferente da minha. Ao mesmo tempo, foi incrível perceber que a minha luta pela oportunidade e visibilidade das mulheres no esporte não é em vão. De alguma maneira, o meu trabalho ajudava o propósito dela a ser alcançado. Hoje, com tudo que está acontecendo no país dela, meu sentimento de impotência é gigantesco. E, pior, ter que ver uma pessoa como ela, que lutou tanto, ser obrigada a pedir para que todas essas mulheres se calem pela sua própria segurança, me indigna demais.

Seleção sub-17 Feminina do Afeganistão no Campeonato sub-17 da CAFA em Julho/21
(Central Asian Football Association)

Infelizmente, o esporte praticado por mulheres é mais do que simplesmente uma atividade ou algo corriqueiro, que passa despercebido. Uma menina ou mulher, ao escolher praticar o esporte que for, pode representar uma luta por liberdade, por direitos, por uma voz, por condições de vida melhores e por viver como igual em uma sociedade. Existem os casos extremos, como as mulheres afegãs que têm todos os seus direitos limitados (ou retirados), tornando-se meras propriedades de um outro ser humano. Porém, aqui no Brasil, nossa realidade não fica tão longe disso em alguns casos.

No início deste artigo, falei de Rayssa e Rebeca, duas potências do esporte nacional, que brilharam nos Jogos Olímpicos e trouxeram muita alegria para o país. A Rayssa foi a atleta mais mencionada nas redes sociais de todo o mundo, segundo o Twitter, superando até a potência da ginástica americana Simone Biles. No Brasil, o ranking teve Rebeca em segundo lugar. E quem vê essas pequenas grandes meninas ganhando o mundo, consegue imaginar que tiveram seus esportes questionados, ou proibidos até?

Na década de 1980, o skate sofria muito preconceito por aqui e chegou a ser proibido na cidade de São Paulo. Se para os homens já era difícil praticar, para as mulheres era duas vezes mais. Afinal, além do preconceito com o esporte, que é associado com jovens irresponsáveis, as mulheres ainda sofrem com o machismo. “Skate não é só para meninos” foi a declaração que Rayssa deu em sua coletiva de imprensa após receber a medalha de prata. Já na ginástica, as discussões foram muitas durante os Jogos, especialmente em relação às roupas coladas e curtas que revelam muito do corpo das atletas, sem necessidade.

Aí vemos que a desigualdade de gênero se expressa desde a obrigação de usar uma roupa curta até a proibição total dos direitos das mulheres, retirando inclusive a possibilidade de praticar um esporte, como no Afeganistão. O ponto é que as mulheres e seus aliados precisam lutar constantemente para conquistar e manterseus direitos. Como disse Simone de Beauvoir, “basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”.

Algumas das mulheres que hoje lutam pela igualdade de gênero no futebol reunidas pela WES no World Football Summit de 2018 em Madrid.

Por isso, como uma pequena voz da promoção pela diversidade e inclusão por meio do esporte, eu gostaria de chamar a atenção de todos os stakeholders do ecossistema esportivo para que tenhamos um olhar mais digno sobre o valor que o esporte representa na vida de todo tipo de pessoa, e que tenhamos mais responsabilidade no momento de tomada de decisão ao contratar pessoas, ao apoiar um projeto social, ao treinar novos talentos, ao transmitir e ao patrocinar aqueles ou aquelas que, assim como Khalida, Rayssa e Rebeca, lutam todos os dias para sobreviver.

Se você se sensibiliza e de alguma maneira se sente impotente como eu, talvez conhecer mais a fundo (e por que não doar?) organizações como de Khalida Popal possa ajudar a nos sentirmos melhores: https://www.girlpowerorg.com/make-a-donation

Veja abaixo a entrevista da WES com Khalida Popal em 2018:

Mônica Esperidião Hasenclever é especialista em gestão e marketing esportivo, CMO da Leadership Woman Football, diretora da LWF Academy e cofundadora da WES. Tem como propósito promover a visibilidade da mulher e a inclusão da diversidade em todos os âmbitos e áreas de esporte, e escreve mensalmente na Máquina do Esporte