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Opinião / Evandro Figueira

Opinião: Pirataria, a maior ameaça aos direitos de transmissão

Evandro Figueira, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 24/06/2021, às 09h16

Imagem Opinião: Pirataria, a maior ameaça aos direitos de transmissão

O tema da pirataria está cada vez mais em evidência no Brasil e em muitas outras partes. Infelizmente, é um fator que impacta negativamente em todos os negócios que envolvem o uso e licenças de marcas, desde camisetas, canecas e bonés, passando por propriedades intelectuais e uso de imagem, e chegando nos direitos de exibição de um filme ou série e nos direitos de transmissão de uma competição esportiva.

Anualmente, são bilhões de dólares desviados por criminosos que mexem diretamente com toda a cadeia produtiva do setor. No caso dos direitos de transmissão, estamos falando das emissoras de televisão aberta ou fechada, das operadoras de TV, plataformas de streaming, federações, clubes, atletas, patrocinadores e todos os demais envolvidos.

Pesquisas recentes indicam que, atualmente, temos, no Brasil, mais domicílios com caixas piratas de TV por assinatura do que o número de domicílios assinantes da maior operadora do país. São aproximadamente 10 milhões de instalações piratas, sendo que pelo menos 2 milhões delas são residências que têm renda suficiente para pagar por uma assinatura. Ou seja, não é apenas uma questão financeira, mas cultural, em que as pessoas acham que comprar um equipamento pirata “não prejudica ninguém”. O que esquecem, no entanto, é que o dinheiro coletado pelas assinaturas, além da receita de publicidade, é o que garante às emissoras a possibilidade de pagar pelos direitos de transmissão de campeonatos nacionais e internacionais. É uma bola de neve. Com uma receita menor proveniente das assinaturas, menor é também o valor recebido pelos clubes de futebol, federações, etc. E, com uma receita menor, os clubes não conseguem contratar jogadores, ou mesmo preservar seus elencos no momento em que a janela europeia de transferências se abre. Com menos receita dentro dos clubes, a qualidade dos torneios nacionais fica prejudicada, e o abismo em relação aos grandes campeonatos europeus cresce ainda mais.

O mercado argentino, por exemplo, também sofre com a pirataria de conteúdo esportivo. Lá, até pouco tempo atrás, as próprias emissoras pirateavam o sinal uma da outra para uso jornalístico. O mesmo que acontece aqui, de forma organizada e legal, com uma emissora cedendo imagens de um jogo para a outra e colocando sua marca em cima das imagens, lá era feito de maneira pirata. As emissoras gravavam o sinal “do ar” de seus concorrentes e davam um jeito de cortar a marca. Felizmente, o mercado vem evoluindo e, consequentemente, o respeito pelos direitos de transmissão vem aumentando.

Pirataria é um dos maiores problemas para o mercado de direitos de mídia
Reprodução

Um exemplo que geograficamente está um pouco mais distante de nós, mas que tem um efeito muito maior e já com consequências danosas ao mundo dos direitos esportivos é o caso da BeoutQ. A maior detentora de direitos esportivos do Oriente Médio se chama BeIn e está baseada no Catar. A BeIn havia comprado direitos exclusivos de alguns dos maiores eventos esportivos do mundo, como Champions League, Premier League, Copa do Mundo, Fórmula 1, etc. e distribuía seus canais em todos os países da região.

Em 2017, por conta de uma crise diplomática, a emissora catariana foi proibida de distribuir seus canais na Arábia Saudita. Logo após a proibição, surgiu uma plataforma local chamada BeoutQ, que ninguém sabia quem era o proprietário, mas que especulava-se que tinha apoio governamental. A plataforma saudita pirateava o sinal da BeIn e cobria o logotipo da emissora catariana com o seu próprio, transmitindo, assim, os maiores eventos esportivos do mundo sem pagar nenhum centavo por isso. Para completar, ainda vendia assinaturas na Arábia Saudita, faturando e não remunerando os detentores de direitos.

Para se ter uma ideia, até o nome BeoutQ era uma referência direta à concorrente do Catar, ao utilizar a palavra “out” (fora) e a letra Q (de Qatar, como é escrito o nome do país em inglês).

A BeIn, então, tomou uma atitude e alertou o mercado que não investiria mais em direitos esportivos, uma vez que sua exclusividade não estava sendo garantida pelos vendedores de direitos. Em seguida, em uma ação conjunta, algumas das maiores propriedades esportivas do mundo, como Fifa, Uefa, Premier League e LaLiga, entre outras, tentaram barrar a operação da BeoutQ. Desde então, a BeIn vem sendo muito mais dura em suas renovações ou aquisições de conteúdo esportivo.

Em 2019, a BeoutQ passou a ser transmitida apenas como IPTV e ainda hoje afeta o mercado do Oriente Médio. A recente queda nos valores globais de direitos de algumas ligas não é apenas efeito da Covid-19; os valores na região despencaram justamente por conta desta situação.

A pirataria também afeta as entidades esportivas em áreas como licenciamento de produtos e merchandising, entre outros, e é preciso ser combatida por toda a cadeia envolvida. Sabemos que, no Brasil, trata-se de uma tarefa árdua, mas, se quisermos um esporte melhor e até um país melhor, precisamos educar as próximas gerações aproveitando todo este movimento de transformação da sociedade para que, aos poucos, a pirataria seja tratada como deve ser, ou seja, como crime. Só assim poderemos ter um esporte mais desenvolvido, mais forte e mais competitivo por aqui.

Evandro Figueira é CEO da IMG Media no Brasil e escreve mensalmente na Máquina do Esporte